Capítulo 3 AS COMUNIDADES RURAIS NO MUNICÍPIO DE RIO AZUL-
3.2 ENTRE COLÔNIAS E FAXINAIS: A GÊNESE DAS COMUNIDADES
3.2.3 De pequenas colônias a comunidades de faxinal
Tendo em vista os dados apresentados nas seções anteriores, infere-se que as comunidades do município têm sua gênese atrelada a várias dinâmicas, sejam elas a questão das serrarias e da porção que constituía o distrito de Soares, a imigração que veio propriamente a Roxo Roiz via estrada de ferro, e ainda a migração que ocorre dos municípios vizinhos de comunidade para comunidade. Observou-se também, comunidades com a predominância de caboclos, poloneses ou ucranianos em sua gênese e comunidades que tiveram mais de uma etnia predominante. Trazendo este contexto do povoamento das pequenas colônias, cabe agora entender a questão dos faxinais e de sua gênese nas comunidades, assim como as transformações que fazem com que estes se configurem da forma que se apresentam hoje, nas comunidades onde esta forma de uso da terra permanece.
As terras do município de Rio Azul entre 1870 e 1900, como pode-se observar por meio dos estudos efetuados, eram parte das “terras sem limites” (SOUZA, 2009a). Tratava-se de um sertão onde poucos habitavam, o que possibilitava a dinâmica de criação à solta na forma de faxinal com uso comum aberto. O pequeno número de pessoas que habitava tais espaços e a pequena quantidade de criações soltas permitia a existência deste modo de vida.
As primeiras penetrações de imigrantes na área de Rio Azul para a área que constituiria a pequena vila ocorrem a partir de 1895, por causa da construção da ferrovia. Depois disso, iniciou a vinda de imigrantes que se dirigiram à área rural. Tem-se assim, por volta de 1900-1910 o início dos “faxinais”, “criadores”, ou “invernadas”, como os membros das comunidades se referem a essa forma de uso do espaço.
Todas as comunidades da área rural de Roxo Roiz, tanto as da porção mais a leste como as mais a oeste, tiveram em sua gênese esta forma de uso da terra. Cabe salientar, todavia, que essas terras de criar não tinham divisas, e seus limites adentravam as fronteiras dos municípios vizinhos, como ocorria com São Mateus do Sul, Mallet, Rebouças e Irati. Isso se deu uma vez que estes municípios tiveram sua origem na mesma época que Roxo Roiz e também porque o povoamento deu-se por imigrantes de origem étnica similares.
Não há registro de que os imigrantes tenham trazido este modo de vida faxinalense de seus países de origem, provavelmente eles tenham aprendido com moradores caboclos que os precederam no lugar que vieram a ocupar (LÖWEN SAHR e CUNHA, 2005). Já os caboclos teriam conhecido este tipo de organização a partir de seu contato com índios Guaranis, que teriam aprendido uma forma parecida de utilização do solo nas Reduções Jesuítas. Esta forma pode vir sendo utilizada desde o século XVIII, uma vez que “os fragmentos de conhecimento deste sistema podem ter sobrevivido com alguns sertanejos solitários que continuaram na floresta, a utilizando como base de subsistência” (SAHR, 2005, p. 4).
No entanto, a chegada dos imigrantes cria situações distintas daquelas até então vividas nestes locais habitados pelos caboclos. O primeiro ponto diz respeito às cercas, pois os imigrantes ao chegarem já providenciam uma forma de cercar o quinhão que tinham adquirido. Isso se contrapõe à lógica ali existente vivenciada pelos caboclos. Ocorre também que muitos destes são expulsos de suas terras por
não terem documentos de comprovação de suas terras, o que os diferenciava dos imigrantes.
Com o aumento da população na área rural e com essa mistura de etnias, começam a aparecer os primeiros conflitos sobre a questão do faxinal. Esses problemas levam os então governantes do município, logo após a sua emancipação, a criarem um código de posturas, isso em 1918. Neste código havia artigos que tratavam sobre agricultura, cercas e indústria pastoril, bem como, sobre a forma de organização da terra e seus usos.
Consta na Ata de Instalação do Município de Roxo Roiz (1918, pp.10-11), quando trata do Código de Posturas que:
Art. 4. As propriedades rurais são de agricultura e de criar; as primeiras constituem matas especialmente destinadas a cultura, as segundas em faxinais e campinas para criar.
Parágrafo 1. São consideradas terras de culturas propriamente ditas as cobertas de matas em costas de serra ou margem de rio, na extensão mínima de seis quilômetros quadrados.
Art. 5. Havendo dois terrenos limítrofes, um de agricultura outro de criar, serão os seus proprietários obrigados a fechá-los de acordo com a lei de mão comum em toda a extensão que se limitarem; ao infrator pena de 30.000 de multa, além de ser a parte que tocar no fecho feito a sua custa. Parágrafo Único: Os contraventores serão responsáveis pelo logar que lhe pertencer o fecho.
Art. 6. É proibido recolher e conservar animais de qualquer espécie em terras lavradias sem serem cercadas, de forma a poder danificar plantações dos vizinhos; pena de 20.000 de multa e obrigado a pagar os danos causados.
Parágrafo Único: No caso de serem encontrados animais nas roças os donos destas poderão prendê-los e conduzi-los ao inspetor ou fiscal, para serem recolhidos à mangueira municipal.
Essas atitudes por parte do poder público começam a modificar a dinâmica de vivência naqueles pequenos núcleos de povoamento e vizinhança. Uma das adequações, como se observa, se refere à forma de uso do solo. Os colonos tinham suas terras de plantar, que se constituíam de pequenos espaços onde cultivam o arroz, milho, o feijão, a batata a mandioca, ou seja, uma agricultura de subsistência, separadas das terras de criação em comum.
Contudo, na época, as terras de plantações eram poucas, se comparadas as de criação, o que fazia com que as de planta fossem cercadas, ou separadas por uma grande vala, que impedia a entrada dos animais. Mesmo assim, havendo essas posturas, continuavam a ocorrer conflitos na área rural, o que faz com que se crie uma nova forma de organização destas comunidades, no sentido de diminuir estes problemas.
Uma das primeiras atitudes no sentido de organizar as áreas rurais após a criação do Código de Posturas, foi realizada pelo Prefeito substituto Capitão Joaquim Luiz dos Santos. Este assume o município e janeiro de 1920.
Em seu primeiro trabalho administrativo iniciou a divisão do município em quarteirões e a separação com cercas de arame das terras de cultura e criação (faxinal) e para que tudo corresse bem e sem intrigas nomeia inspetores municipais (VALASCKI e WZOREK, 1988, p. 107).
Esses quarteirões são criados, ocorrendo que, em algumas situações, uma comunidade tinha mais de um quarteirão. Na época desta divisão a área rural do município apresentava poucas comunidades, porém elas eram extensas. Assim, após essa divisão, e com o passar do tempo, cada quarteirão acaba tomando a forma de uma comunidade, uma vez que os membros que ali viviam tinham essa necessidade, devido às tarefas de manutenção das cercas, viação das estradas, além das questões familiares e das relações de compadrio.
Com o aumento da população e, com isso, dos animais criados à solta e das áreas de terra agricultável, ressurge a questão das cercas. As terras de criação acabam tomando proporções menores que as de planta. Passa-se a cercar nos quarteirões, as terras de criar. É uma nova dinâmica que vem com a finalidade de reorganizar o espaço. Essa mudança se dá de forma concomitante nas comunidades, segundo relatos dos entrevistados, principalmente entre 1940 e 1950.
Assim, surgiria a forma de faxinal com criação em comum num espaço cercado que se tem até os dias de hoje em algumas comunidades, já que na maioria delas, por causa de conflitos diversos, pelo aumento da população e dos animais no criadouro, esse passa a ser inviável. Desta forma, estas comunidades se transformam, e muitas delas hoje são comunidades que possuem apenas vestígios dos antigos criadouros, como as cercas e algumas manifestações culturais.
Uma vez apresentadas as dinâmicas que ocorrem no povoamento das comunidades, por meio das serrarias e etnias povoadoras, assim como algumas transformações desde sua gênese no que concerne a utilização do espaço, cabe agora apresentar qual é a situação das comunidades rurais de Rio Azul na atualidade.