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1.4 A OBRA DE TÁCITO EM TRÊS TEMPOS

1.4.1 De que tratam as obras: conteúdo e contexto

Os Anais e as Histórias de Tácito, bem como as obras menores, trazem narrativas que se passam todas na época das dinastias júlio-claudiana e flaviana. É um recorte bastante tratado pela historiografia e pelas artes, tanto pela importância da “civilização romana” para a construção posterior do conceito de “civilização ocidental”, quanto pela narrativa do surgimento e difusão do cristianismo, que se deu nessa época e também acabou por constituir a ideia de “Ocidente”. Apresentar detalhadamente esse período ultrapassaria em muito os propósitos deste trabalho, portanto, as linhas seguintes trarão um resumo do que as duas dinastias iniciais do Império Romano representaram.

Se a visão que se consolidou sobre os imperadores dessa época é a de governantes corruptos, assassinos e lascivos, certamente os escritos de Tácito têm parte nisso. Na verdade, não só os dele, mas de muitos outros autores que escreveram após o governo desses príncipes, como Suetônio e Dião Cássio (Δίων ὁ Κάσσιος, 164 E.C. - 229). No entanto, a maioria desses escritores, incluindo Tácito, pertenceu à parcela da sociedade que mais fez oposição e que mais foi perseguida pelos príncipes em seus expurgos.

Mas o que foi o regime chamado de “Principado” pela historiografia? Rowe (2006, p. 114) o considera uma monarquia que preservou estruturas legais da República, como o senado, as assembleias populares, as magistraturas e os sacerdócios. A maioria dos historiadores concorda que o Principado teve início não com Júlio César (Gaius Iulius Caesar, 100 – 44 A.E.C), embora sua estratégia de acúmulo de poder tenha se tornado modelo para os príncipes e seu próprio nome um título, mas com Otaviano.

35 Muitas vezes o conteúdo das obras de Tácito se confunde com o contexto político da época narrada, porque nosso entendimento a respeito desse período ainda é bastante influenciado por essas obras.

Desde meados do século II A.E.C., a República romana vinha passando por diversas crises: o assassinato dos irmãos Graco36, a Guerra Social37, as revoltas de escravos38, a ditadura de Sula (Lucius Cornelius Sulla Felix), a formação do primeiro triunvirato39, a ditadura de César, o assassinato deste nos famosos “idos de março”40, o segundo triunvirato41 e finalmente a derrota dos opositores de Otaviano. Entre os últimos opositores dele, estavam Marco Antônio (Marcus Antonius) e a rainha do Egito, Cleópatra VII (Κλεοπᾰ́τρᾱ Φιλοπάτωρ), que foram derrotados na Batalha de Ácio em 31 A.E.C. Em 27 A.E.C, Otaviano recebeu do senado o título de “príncipe” e de “augusto”, fato geralmente tido como marco inicial do Principado. Tácito (Hist., I, 1) afirma que, “depois da Batalha de Ácio, foi interesse da paz que o poder se concentrasse em apenas uma mão”. De fato, esse período de relativa paz interna que se seguiu ao advento do Principado foi denominado de Pax Romana, o fim das guerras civis.

Faversani (2013), contudo, considera excessiva a ênfase dada pela historiografia contemporânea à ruptura entre República e Principado. Atribuindo essa ênfase a uma supervalorização dos apontamentos de Ronald Syme em detrimento dos de Theodor Mommsen, para Faversani (2013), a ideia de uma suposta crise da República Romana no século que antecedeu o governo de Otaviano precisa ser relativizada, já que, desde sua fundação, muito tempo antes, já havia relatos de sucessivas “crises” republicanas. Além disso, o próprio Otaviano, em sua ascensão, alegava estar restaurando a República.

As realizações do governo de Otaviano foram inúmeras: do reparo de edifícios públicos e templos às leis moralistas para estimular a taxa de natalidade e várias outras reformas administrativas. Descrevê-las exigiria muitas páginas. Diante disso, preferimos tratar principalmente dos problemas de sucessão dele e dos príncipes seguintes. Os próprios Anais de Tácito, embora tratem dos feitos dos príncipes e sobre alguns focos de revoltas nas províncias, dão bastante atenção às disputas palacianas.

Não deixando descendentes homens, Otaviano adota Tibério (Tiberius Claudius Nero, 42 A.E.C. - 37 E.C.), enteado que era filho de sua segunda esposa Lívia Drusila (Livia Drusilla). Tibério deu continuidade a várias reformas de Otaviano e submeteu cada vez mais o senado.

36 Tiberius Sempronius Gracchus e Gaius Sempronius Gracchus, ambos tribunos da plebe, principal magistratura plebeia, foram assassinados por suas ousadas tentativas de reformar a distribuição de terras.

37 Conflito que ocorreu entre os romanos e seus aliados italianos em 91 – 87 A.E.C. e culminou com a concessão da cidadania romana à maioria deles.

38 A mais famosa delas talvez tenha sido a Revolta de Espártaco (Spartacus) entre 73 e 71 A.E.C.

39 Divisão informal do poder entre os três homens mais poderosos da República: Júlio César, Pompeu Magno (Gnaeus Pompeius Magnus) e Crasso (Marcus Licinius Crassus).

40 Idos de março era o dia 15 de março.

41 O segundo triunvirato foi um acordo formal regido pela Lex Titia entre Otáviano, Marco Antônio e Lépido (Marcus Aemilius Lepidus).

Passou seus últimos anos recluso na ilha de Capri, paranoico, possivelmente temendo conspirações contra si. Em sua ausência, suas atribuições foram dadas não ao senado, mas a Sejano (Lucius Aelius Sejanus), prefeito da Guarda Pretoriana42, que depois foi morto acusado de tentar abrir caminho como sucessor de Tibério (ROWE, 2006, p. 118). Tácito (Ann., II, 85) relata uma proibição às religiões dos judeus e egípcios na época de Tibério, mais precisamente por volta do ano 19 E.C., episódio que será abordado no próximo capítulo.

Tendo também morrido o possível herdeiro de Tibério, seu sobrinho e filho adotivo Germânico (Germanicus Julius Caesar), numa suposta conspiração, quem o sucedeu foi o filho deste, Calígula43 (Gaius Iulius Caesar Augustus Germanicus, 12 E.C. – 41). Para Rowe (2006, p. 120), Calígula testou os limites da autocracia ao humilhar senadores. Suas extravagâncias deram a ele a fama de louco e geraram dificuldades financeiras. Boatwright, Gargola e Talbert (2004, p. 328) afirmam que ele fechou os celeiros públicos causando fome e que foi morto numa conspiração que partiu da Guarda Pretoriana.

A mesma Guarda Pretoriana escolheu o tio de Calígula, Cláudio (Tiberius Claudius Nero Germanicus, 10 A.E.C – 54 E.C.), como novo príncipe. O reinado de Cláudio marcou uma retomada do expansionismo romano e a Britânia foi anexada ao império nessa época, além de outros territórios. Possivelmente, Cláudio foi morto numa conspiração de sua quarta esposa, Agripina, a Jovem (Iulia Agrippina minor) para favorecer o filho desta que havia sido adotado por Cláudio: Nero (Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus, 37 E.C – 68).

Embora bastante popular entre a camada mais pobre e no Oriente, o reinado de Nero foi marcado também por conspirações. Os primeiros anos, sob a tutela da mãe e do filósofo Sêneca, o Jovem (Lucius Annaeus Seneca), além do auxílio de Afrânio Burro (Sextus Afranius Burrus), prefeito da Guarda Pretoriana, são vistos geralmente de maneira positiva. A partir da morte dos três44, que foram assassinados provavelmente por ordens do próprio Nero, ele passa a demonstrar toda sua crueldade45. Seus gastos desmedidos e sua ampliação da cobrança de impostos incomodaram seus opositores. O incêndio de Roma46 é outro episódio bastante

42 No período imperial, a Guarda Pretoriana era responsável pela segurança pessoal do imperador. Essa instituição acabou se tornando bastante influente e foi responsável pela queda e ascensão de muitos príncipes.

43 “Calígula” era um apelido referente às suas pequenas botas militares que usava quando criança. A versão de Tácito sobre seu reinado se perdeu.

44 Boatwright, Gargola e Talbert (2004, p. 333) afirmam que Sêneca foi obrigado a cometer suicídio acusado de ter participado da conspiração fracassada de Pisão (Gaius Calpurnius Piso).

45 Alguns estudos recentes têm procurado recuperar a imagem de Nero ao afirmar que ele sofreu uma danação da memória. Nos novos escritos, ele não aparece como cruel e sim como apaziguador. Há, no entanto, uma tradição que remonta à Antiguidade de enfatizar os aspectos negativos de Nero.

46 O relato de Tácito (Ann., XV, 38 - 44) coloca sob suspeita o próprio Nero e afirma que este culpou os cristãos pelo incêndio. Este trecho da obra foi bastante estudado por ser uma citação de um autor pagão a respeito de um

lembrado. Algumas importantes conspirações fracassadas aconteceram no final de seu governo. As principais foram a de Pisão e a de Víndice (Gaius Julius Vindex). Outro acontecimento importante foi a revolta que começou na província da Judeia em 66 E.C. Em 68, o senado declarou Nero inimigo público e ele cometeu suicídio, o que gerou o fim da dinastia Júlio- claudiana e mergulhou o império numa nova crise (BOATWRIGHT, GARGOLA, TALBERT, 2004, p. 335).

Diante desse quadro de crise de sucessão, as legiões espalhadas pelas províncias escolheram, cada uma, seu príncipe, o que fez o ano 68/69 ficar conhecido como “ano dos quatro imperadores”. Galba (Servius Sulpicius Galba, 3 A.E.C – 69 E.C.), governador da província Terraconense, Oto (Marcus Salvius Otho, 32 E.C. – 69), antigo governador da Lusitânia que subornou a Guarda Pretoriana, Vitélio (Aulus Vitellius Germanicus, 15 E.C. – 69), aclamado pelas legiões da Germânia Inferior e Superior47; e Vespasiano (Titus Flavius Vespasianus, 9 E.C. – 79), aclamado pelas legiões do Egito, da Judeia e apoiado pelas da Síria e Panônia. Nessa sequência, um derrotou o outro, o que culminou com a vitória de Vespasiano e o estabelecimento da dinastia flaviana (69 E.C. – 96).

A grande mudança ocasionada por essa guerra civil foi bem resumida por Tácito na seguinte passagem das Histórias: “pois se havia divulgado um segredo do império: era possível que um príncipe fosse escolhido em outro lugar além de Roma” (Hist., I, 4). O que sugere a importância cada vez maior da influência das legiões na escolha do príncipe.

Vespasiano, antes enviado por Nero para controlar a revolta na Judeia (GOODMAN, 1997, p. 62), delegou esta tarefa a seu filho e futuro príncipe: Tito (Titus Flavius Vespasianus, 39 E.C. – 81). O cerco e destruição de Jerusalém em 70 E.C. é um dos eventos mais dramáticos desse período48. O saque proveniente da destruição dessa cidade e de seu rico templo foram suficientes para a construção de um dos maiores símbolos de Roma: o Anfiteatro Flávio, mais conhecido como Coliseu49.

Tito reinou por pouco tempo e sua época foi marcada por duas grandes catástrofes: a erupção do Vesúvio em 7950 e um importante incêndio em Roma, em 80. Domiciano, também

evento ocorrido em uma época bastante precoce para aparecer referências à figura de Jesus Cristo e a uma comunidade de seguidores dele em Roma. Há, inclusive, quem duvide da autenticidade do trecho.

47 Boatwright, Gargola e Talbert (2004, p. 360) afirmam que as províncias da Germânia Superior e Inferior só foram realmente separadas da Gália Bélgica no governo de Domiciano (Titus Flavius Caesar Domitianus

Augustus, 51 E.C – 96).

48 Sobre o cerco e destruição de Jerusalém nas Histórias de Tácito, ver a interessante monografia de Lima (2013), que em muito inspirou este trabalho.

49 Boatwright, Gargola e Talbert (2004, p. 358) afirmam que há uma inscrição indicando que escravos judeus foram utilizados para a construção do Coliseu.

50 Erupção que ceifou a vida de milhares de pessoas em pelo menos quatro cidades: Pompeia, Herculano, Estábia e Oplontis. Uma das vítimas foi Plínio, o Velho.

filho de Vespasiano, reinou depois de seu irmão. Em 89, Saturnino (Lucius Antonius Saturninus), comandante das tropas da Germânia Superior, conspirou contra ele e foi reprimido por ninguém menos que Trajano (Marcus Ulpius Traianus, 53 – 117), que depois se tornou príncipe. Depois desse episódio, as relações com o senado se deterioraram. Após 95, sua paranoia o fez se voltar contra membros da própria família. Por essa razão, Domícia Longina (Domitia Longina), sua esposa, e possivelmente dois prefeitos do pretório se envolveram numa conspiração que terminou com a morte de Domiciano em 96, o que pôs fim à dinastia flaviana (BOATWRIGHT, GARGOLA, TALBERT, 2004, p. 364).

Como já foi dito, grande parte dessa narrativa chegou até nós pelas obras de Tácito. Os Anais, embora tenham sido escritos por último, trazem, ou ao menos deveriam trazer se estivessem completos, as narrativas imediatamente anteriores às da obra Histórias, começando, como dito antes, em 14 E.C. até 68. Infelizmente a obra não chegou inteira aos dias de hoje, de modo que a narrativa termina em 66 E.C. Supõe-se, pela sequência, que as partes perdidas continham todo o reinado de Calígula e a maior parte do de Cláudio, além dos últimos anos de Nero. Tradicionalmente foi dividida em 16 livros, sendo que o livro V é incompleto e do VI há apenas fragmentos. Os livros VII, VIII, IX e o X se perderam. Foram preservadas parte do XI até metade do XVI.51

Já a obra Histórias, que originalmente era composta por 14 livros, narraria, se completa estivesse, do ano 68 a 96. Porém, apenas os quatro primeiros livros e o início do quinto sobreviveram, de modo que são narrados os eventos de 68 até 70. Portanto, a maior parte das narrativas taciteanas sobre o reinado dos flavianos também se perdeu.

Além de tratar das já citadas disputas palacianas, os Anais se destacam pela construção das personagens e as Histórias pela desenfreada sucessão de fatos (MARQUES, 2012, p. 99). Nesta última, embora o foco de Tácito esteja sobre Roma e sobre o poder imperial, há também uma preocupação em descrever o quadro provincial e a situação dos exércitos estacionados nas províncias (JOLY, 2014, p. 46).

Quanto às obras menores, Vida de Agrícola conta a história do sogro de Tácito, Júlio Agrícola, que foi governador da Britânia entre 78 E.C. e 85 e expandiu o domínio romano sobre a região. Tido como modelo de virtude, Júlio Agrícola é o contraponto de Domiciano. Este

51 São Jerônimo (Comm. in Zach., III, 14) afirma que Tácito escreveu a vida dos césares em 30 livros, sugerindo que Anais e Histórias juntas somavam 30 livros. Ronald Syme (1997) propõe uma divisão diferente da obra em 18 livros para os Anais e 12 para as Histórias.

último foi considerado um tirano pelo senado e sofreu a “condenação da memória”52. Tácito resume bem o que pensa sobre seu sogro e sobre Domiciano na seguinte passagem: “saibam aqueles acostumados a admirar o que é proibido, que pode haver grandes homens até sob maus príncipes” (Agri., 42, 4).

Embora Agrícola traga um pouco de descrição dos habitantes da Britânia, o maior exercício de etnografia de Tácito é mesmo o da obra Germânia. Nela as terras e os povos germânicos são descritos e comparados aos romanos. Quem lê a passagem do capítulo 7 pode perceber que há uma crítica velada ao Principado entre os romanos: “Eles escolhem seus reis entre a nobreza e seus generais por seu valor. O poder para os reis não é ilimitado nem arbitrário; os generais, mais com exemplo que com ordens, são os mais admirados se estão preparados ou vão na vanguarda” (Germ., 7). Embora Marques (2007) afirme que Tácito não era exatamente contrário ao Principado, há, para alguns, uma espécie de nostalgia dos tempos da República em seus escritos. Além disso, ao apresentar os germânicos como um povo simples e livre das corrupções citadinas, há o objetivo de “conclamar indiretamente os romanos a uma volta aos costumes virtuosos do passado” (MARQUES, 2012, p. 91).

Em Diálogo Sobre os Oradores, obra cuja datação e mesmo a autoria foram objetos de dúvida para alguns estudiosos53, a temática é o declínio da eloquência. Trata-se de um diálogo em estilo ciceroniano entre quatro personagens reais que aconteceu por volta do ano 75 E.C. Para Joly (2009, p. 21-22), o objetivo da obra é descartar o topos de que o passado é superior ao presente, contido na ideia do “declínio da eloquência” e isso representa uma oposição entre sistemas políticos: a República e o Principado.

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