Este núcleo de significação, tirado das próprias palavras de Amanda, parece resumir com propriedade o que ela, nas duas entrevistas, tentava passar do que sentia e pensava sobre ela mesma. Amanda coloca inúmeras razões e motivos para se dizer diferente dos descendentes japoneses e pode-se dizer que esse sentimento se compôs como linha de argumentação para Amanda se autodefinir. Parece também que este sentimento é o mais consciente e claro para ela neste momento de sua vida.
Porém, como dito anteriormente, seu discurso não é linear. Conforme o desenrolar da entrevista e talvez sem se dar conta do que dizia, Amanda também começava a reconhecer elementos japoneses nela mesma. A partir de suas experiências familiares, escolares e até amorosas, Amanda ora refutava ora assumia componentes que julgava serem da cultura japonesa. Lembrou das relações familiares dentro de sua própria casa e refutava o que considerava ser machismo e hierarquia mantidos principalmente por seus avós. Pode-se afirmar que estas vivências são peculiares às famílias japonesas, mas a história familiar de Amanda apresenta também contornos específicos. Assim diz ter aprendido, através de sua mãe, exemplos que não se devem seguir. A submissão da mulher não pode ser aceita e o exemplo da vida de sua avó é usado como referência.
“(...) Acho que é por isso, pelo exemplo negativo que elas tiveram assim, a minha mãe falava que tipo assim: ‘Sua avó era submissa, olha agora, o marido judiou tanto, sabe, que ela ficou louca assim.’ Por ele ter judiado dela e como todo mundo assim, minhas tias viam que ele era meio assim, só queria se aproveitar, pegar o dinheiro dela e a minha avó era super ativa, ia no ‘Seicho-no- iê’ (religião japonesa), saía pra rezar, toda semana era salão de beleza e ele foi cortando. Ela não pode sair e nem pra poder ver as filhas, sabe. Então a minha mãe usa isso como exemplo.”
Sobre a questão da hierarquia.
“(...) O meu avô tem dessas que o mais velho por mais que não tenha razão, o mais novo tem que obedecer e acho que não é tão assim. Tinha época que eu ficava chorando, porque ele ficava me mandando lá, me escravisando, tipo, baixa lá, faz isso: ‘Vai ajudar não si quem!’ (...) Eu ficava brava com isso e a minha mãe também falava que não tava certo e que não sei quê e tal. Acho que foi isso que fiquei mais esperta assim e comecei a sei lá, enfrentar mais assim. (...) então os mais velhos têm mais responsabilidade que os mais novos sabe assim. Isso eu não acho certo assim, por isso que antes eu ficava quieta, mas agora não tenho mais medo (...)”
Os modos culturais japoneses relacionados com norteadores como os da cultura ocidental, os tempos modernos e a história familiar específica de Amanda dão os subsídios de reflexão para o que a entrevistada relata e conclui: “Tímida, mas submissa não!”. Esse olhar se extende não só em seu âmbito familiar, mas também em suas relações com os meninos japoneses, os quais Amanda também considera como mandões e machistas. Se até este momento o seu discurso permanece de modo coerente, é a partir do seu relato das experiências de uma
relação amorosa e do convívio com amigos ocidentais, que Amanda demonstra carregar também traços que considera japoneses.
Neste contexto a boa educação (ser educado) é associada ao japonês e aparece como componente diferenciador e positivo. É também um aspecto que a faz distinguir do que é certo ou errado e acredita que é seu lado oriental que predomina quando age com bom senso.
“(...)Eu acho, sei lá, quando eu ouço o meu bom senso assim, acho que é meu lado oriental que predomina, sabe. Sei lá, quando você está prestes a fazer alguma coisa errada e você ouve a sua mãe falando assim, então eu acho uma coisa mais oriental. Sabe uma educação meio assim, se eu desobedecer, meus pais vão me castigar. Então, sei lá, se meus pais falassem e eu nem estivesse nem aí, seria, eu acho, pra mim o lado brasileiro. Sabe, não se importar, é meu pai mas o problema é dele! Acho que sei lá, é uma questão de respeito com os pais, eu acho.”
A educação japonesa associa-se com outros sentidos que Amanda valoriza, de respeito ao próximo, humildade, auto-superação, enfim, como ela mesma define, um “senso de
humanidade”. Esclarece que em meio aos ocidentais, essa educação mais “rígida” lhe dava parâmetros para saber até onde podia chegar. Assim, dentre eles, era a mais “chatinha”, porque não bebia e não fumava. É a partir desse aspecto também que Amanda relata algumas diferenças sentidas com suas amigas ocidentais e pela primeira vez não se inclui no grupo, chamando-as de elas, “as brasileiras”. Recorda que quando saía com este grupo, no tempo em que morava no Rio de Janeiro, sempre acabava ficando sozinha porque o comportamento entre elas era diferente. Amanda coloca como sendo a sua educação o motivo pelo qual não ultrapassava certos limites que julgava corretos. Dessa forma, ficava sozinha nas festas, mas com a “consciência
tranqüila”.
Amanda diz que em meio aos orientais se percebeu mais ocidental, mas que em meio a ocidentais, também é diferente. Apesar de falar que a diferença sentida no seu relacionamento com os ocidentais não a incomode tanto, nota-se que uma certa inconformidade também se sustenta, seja no modo de se comportar, de se vestir ou até mesmo no modo como enxerga o seu próprio corpo. Há sim uma grande identificação com os brasileiros, assim como um sentimento de diferença que apesar de Amanda senti-lo, ela não o reconhece. Parece ser a comparação (entre ela e os ocidentais) e nesse sentimento de diferença que a direciona para parecer igual aos brasileiros, ao mesmo tempo em que não é e nem pode ser. Existe uma procura incessante de quem ela seja, e hoje, Amanda parece negar sua identidade étnica; isso em seu discurso pareceu o mais significativo. Mas também houve momentos em que não era só brasileira, era também japonesa ou a mistura dos dois. Vê-se que dependendo da pergunta e do momento, Amanda
explora diversas referências e que mesmo possuindo uma linha de argumentação, esta não pode ser considerada estática e nem definitiva.
Carla
Carla tem 16 anos, é sanssei, tem um irmão gêmeo e possui também mais um casal de irmãos mais velhos, do primeiro casamento do pai. Ao ser convidada a participar das entrevistas, ficou surpresa e bastante interessada dizendo que esta seria uma experiência nova. Durante os encontros, Carla mostrou-se comunicativa, bem articulada, colocando com clareza seus pensamentos, idéias e opiniões. Estuda no colégio contatado pela pesquisadora desde a pré- escola e hoje cursa o 2° ano do Ensino Médio. Considera seu contato com ocidentais recente e estes são, em sua maioria, amigos dos amigos japoneses que já saíram da escola (quando terminam o Ensino Fundamental, parcela dos estudantes vão para outras escolas). Apesar desse pouco tempo de convivência com os ocidentais, sente-se mais identificada com eles. Tanto dentro da escola como fora, prefere se relacionar com eles.
Os pontos de referência que Carla articulou para falar sobre o ter e ser um corpo japonês centram-se principalmente na estrutura familiar, os relacionamentos na escola e os amigos fora dela. Estes três aspectos parecem desvelar a forma como Carla enxerga os nikkeis, como ela própria se vê e como isso talvez culmine num certo incômodo em relação ao seu corpo. Discorrer sobre essas questões é compreender a construção subjetiva que Carla compõe em relação a sua corporeidade. Nesse sentido, é válido salientar que quando se fala em corporeidade, define-se um processo de humanização em que o corpo humano não é visto apenas em seus aspectos biológicos, genéticos e fisiológicos. Kolyniak (2002) ressalta que a corporeidade contém e é contida por tais determinantes, mas que o homem na sua relação sócio- cultural os supera, sai da sua simples condição animal para ser essencialmente histórico e cultural, isto é, humanizado. “O indivíduo, ao se constituir historicamente como pessoa,
incorpora cultura e sociedade, construindo sua corporeidade” (Kolyniak, 2002, p. 27).
Assim, só existe sentido em conceber a corporeidade quando se tenta abranger as formas em como os indivíduos vão significando seus corpos, e isto está intrinsecamente relacionado ao momento histórico, social e cultural dos homens. Aliado a isso, no caso de Carla, a maneira como configura o ambiente familiar, os relacionamentos na escola e os amigos fora dela contribuem para um maior entendimento em como ela vai construindo sentidos e significados ao seu corpo. Estes determinantes são constitutivos e ao mesmo tempo constituintes da corporeidade de Carla.
Carla nunca fez cirurgia plástica, mas gostaria de fazê-lo no nariz e bochechas. Considera-se gorda a ponto de avaliar a hipótese de uma cirurgia de redução no estômago. É válido ressaltar que através do seu discurso, Carla se coloca com um tamanho corporal que é
muito maior do que realmente se apresenta. Aos olhos da pesquisadora, Carla não necessitaria passar por tal intervenção. Entre os adolescentes, ela não se destacaria por ser gorda da forma como enfatiza. Os processos de significação que Carla vai compondo sobre sua corporeidade que possuem intrínsecas relações com os três aspectos mencionados acima, aprofundam a compreensão dessa inconformidade expressa no seu desejo de intervenções cirúrgicas.
A partir de duas entrevistas realizadas com Carla e diversas leituras do material transcrito, foram levantados 21 pré-indicadores, entre eles: estrutura familiar, relações de gênero na família, identificação com os ocidentais, ocidentais e orientais, adolescentes japoneses num mundo fechado, “brincadeiras” evidenciam etnia, valorização das meninas orientais, Carla em relação ao próprio corpo, etc. Da aglutinação desses temas, foram identificados 7 indicadores: família, relação entre ocidentais e orientais, os japoneses para Carla, ser sempre considerada turista, estereótipos japoneses, identidade étnica e nacional e corpo.
A articulação desses indicadores resultou em 4 núcleos de significação: “uma ovelha
negra na família”, que delineia a estrutura e valores culturais japoneses na família de Carla e o
seu processo de distanciamento com eles, “o descendente japonês e ser japonesa”, que mostra a forma como Carla configura o adolescente japonês e a ela mesma, “viver sempre o meio
termo”, que envolve a integração de aspectos japoneses na subjetividade de Carla e como ela
acredita que esses elementos são vistos na sociedade brasileira, e “corpo como marca da
ambiguidade”, que mostra como o corpo de Carla revela todas as significações de sua vivência
em nunca encontrar um lugar de pertencimento.