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De torcedor à atleta: o sonho de ser profissional e o convívio com o

4 A RELAÇÃO ENTRE PAIXÃO E PROFISSÃO NO MUNDO DO

4.1 De torcedor à atleta: o sonho de ser profissional e o convívio com o

Tal como observado por Damo (2007), os sujeitos entrevistados começaram a treinar com o intuito de serem jogadores profissionais com idade entre 13 e 16 anos,

configurando assim, um longo envolvimento com a dimensão profissional do futebol e um conflito precoce com sua dimensão simbólica.

Entretanto, o ideal da profissão se sobrepõe à predileção ou identidade clubística. Perguntados a respeito do clube pelo qual torciam na infância e se buscaram iniciar suas carreiras nesse clube, todos eles destacaram que apesar de torcer por um determinado clube quando criança este fato não interferiu na tentativa de se tornar atleta profissional, como podemos observar na fala de Alberto: “[...] eu busquei na verdade iniciar a carreira independente do clube. Eu queria jogar futebol independente do clube que fosse. Tanto que eu fiz teste no Atlético, fiz teste no Cruzeiro e no América e não passei.” O que fica claro na fala dos atletas, acima de tudo, é o desejo de jogar profissionalmente por um clube de expressão no cenário nacional. “[...] acho que na infância todo mundo tem um sonho e o meu sonho antes era jogar numa equipe grande, então, graças a Deus, eu consegui jogar numa equipe grande”. (ANDRÉ).

Ao contrário do que acontece entre torcedores e, provavelmente, entre os especialistas, a predileção clubística, além de não ser fator levado em consideração na busca de se tornar atleta profissional, parece ser algo fluido na vida dos jogadores. Este é um achado que merece destaque. A literatura tem afirmado com clareza que aos jogadores é dado o direito de trocar de time, algo que, por oposição, é extremamente problemático ou negativo entre torcedores. Todavia, esta permissão aos profissionais deve ser entendida em sua dimensão mesma. Ou seja, quem pode mudar é o profissional e não o torcedor que se esconde por trás dele. Como vimos anteriormente, pouco se sabe como se estruturam e operam as relações de pertencimento clubístico entre jogadores profissionais. Nesta investigação, reunimos dados que nos permitem qualificar estas relações em um plano inédito. Temos elementos para pensar que a relação que um jogador profissional de futebol constrói com aquilo que o homem comum chama de “clube do coração”, ganha uma fluidez, passando a ser mediada por elementos próprios da profissão.

Um elemento interveniente neste processo reside no próprio processo de formação do pé de obra. Uma vez que buscam a iniciação profissional relativamente cedo, o clube da infância e da adolescência, muitas vezes, dá lugar ao clube da formação. Quando perguntado sobre o clube que torcia inicialmente, Pedro afirmou ser torcedor do Fluminense. Porém, por ter chegado ao Vasco ainda muito jovem e ter jogado por muito tempo neste clube, ele destaca que passou a torcer pelo

mesmo: “A partir do momento que eu comecei a jogar no Vasco. Você começa a ter contato com os profissionais, você começa a jogar pelo clube. Acho que não tem como... ainda mais que eu fui com 14 anos”.

O fato de jogadores torcerem por um determinado clube ou terem, como eles mesmos dizem, uma maior identificação com determinado clube em relação a outro, não quer dizer que haja uma preocupação por parte dos clubes neste sentido. O fator preponderante responsável pela permanência do jogador ou pela sua contratação é o seu rendimento esportivo, ou seja, a lógica profissional (racional– instrumental). Logicamente, este fato se estende às categorias de base. Nela, os atletas são avaliados levando-se em conta os atributos necessários à prática do futebol em alto nível (DAMO, 2007). Sendo assim, o pertencimento clubístico não é critério de recrutamento. Este fato é destacado pelos jogadores entrevistados, como podemos notar na fala de Alberto quando questionado sobre o assunto: “Não há mais... os clubes não se preocupam com a formação de ídolos, pelo contrário, os clubes hoje se preocupam em formar jogador pra vender. Somente isso.”

Na visão da maioria dos entrevistados o gostar de um clube é normal, porém não é alvo de investimento dos clubes pelos quais atuaram. Nesse sentido, o sentimento de afeto que um jogador possa sentir por um clube é algo que surge de outra maneira, estando principalmente relacionada à permanência prolongada em um determinado clube, principalmente em suas categorias de base.

[...] normalmente você acaba mudando porque você convive muito dentro do clube, entendeu? Por exemplo, se o menino que hoje tá lá no Vasco, ele estuda de manhã no Vasco, dentro do Vasco, ele já sai do estudo e já vai, ou seja, o garoto vive o dia inteiro no clube, né? (PEDRO).

Outro fator mediador é o grau de sucesso profissional obtido. Sendo assim, obtivemos depoimentos de atletas que passaram a torcer por outro clube, diferente do que torciam na infância, após se tornarem profissionais, em virtude do sucesso obtido e dos títulos alcançados. Porém, ao contrário do “verdadeiro torcedor”, parece ser possível e aceitável uma identificação com diferentes clubes importantes. Isto pode ser notado na fala de Alberto:

Na minha infância eu... assim, admirava muito o Atlético Mineiro pela torcida, né? Então por tudo aquilo que você via as coisas acontecerem pelo torcedor, a massa atleticana. E isso fez com que eu pudesse ter uma admiração pelo Atlético. E também tive um carinho pelo América pelo fato

de ter tido um primo que jogou no América e acompanhava bastante o América. Então eu fiquei com esses dois clubes assim como praticamente torcedor. [...] Com o Palmeiras e o Vasco também eu tenho uma identificação muito grande. [...]. No Palmeiras pelos títulos conquistados, a Libertadores, né? Então você... onde você passa e que você conquista tem uma identificação. Além de você permanecer um bom tempo no clube, você conquistou objetivos e objetivos importantes e marcantes pra vida do clube. [...]. Então, passa momentos, sai momentos, passam momentos e você tá sempre sendo lembrado por alguma coisa que acontece. No Vasco a mesma coisa. Formamos um time que foi a base da seleção brasileira das eliminatórias de 2000, né? [...]. Então, basicamente essa identificação são os momentos... são os times, né? Que se formam e é marcado nos clubes e nos torcedores quanto os títulos também.

O depoimento de Alberto também é útil para identificarmos outro traço comum, e bastante importante, nas falas dos entrevistados que é o uso cuidadoso das expressões de afeto em relação aos clubes. Enquanto torcedores “torcem”, são apaixonados, “doentes”, “roxos” por suas equipes “do coração”, os jogadores se “identificam”, têm “carinho” ou uma “admiração” muito grande pelos clubes. Ou seja, seu léxico específico é bem mais contido e controlado. Outro exemplo dessa situação refere-se ao depoimento de Diogo:

[...] eu tenho um carinho pelo Santos [...]. [...] tive duas passagens pelo Santos que marcaram muito minha trajetória profissional. [...]. Eu tenho assim... determinadas equipes que eu passei, que eu joguei eu sempre tenho carinho. No sul, o Grêmio. Eu joguei pelo Grêmio. Atlético Mineiro em Minas. Na Bahia, no Bahia, né? Pô, tenho muito carinho. Aquela torcida é maravilhosa.

Não temos elementos para explicações conclusivas aqui, mas podemos pensar que tal atitude pode estar relacionada ao rodar da carreira que, de fato, enseja a construção de ligações afetivas mais sutis entre atleta e clubes37 a um

ethos profissional específico que desencoraja manifestações mais cordiais ou a

percepção mercadológica de que ligações efetivas com um clube podem prejudicar a possibilidade de contratos com outros. Augusto destaca que a partir do momento que se tornou jogador profissional, o lado torcedor passou a ser menos importante. “[...] Depois que você começa a jogar mais profissionalmente [...] você acaba sendo profissional e torcendo pelo time que você joga”. Todavia, ao contrário do torcedor comum, Augusto declara que depois que parou de jogar profissionalmente passou a

37Embora atletas já aposentados, por vezes, falem das camisas de seus clubes preferidos como sua

torcer pelos clubes em que conquistou títulos – Vasco, Botafogo e Flamengo – mesmo estes sendo grandes rivais entre si.

Este ethos profissional é algo que se forma desde cedo. Os atletas em formação são orientados a agirem de forma profissional em todos os sentidos, como destaca Henrique: “Na minha época acho que era mais o profissionalismo mesmo. Começa desde cedo. A diretoria passa pra gente isso... é o profissionalismo. E o gostar, o gostar a gente fica gostando é com o tempo que a gente vai ficando”.

Estes dados deixam claro que não há preocupação ou não é a intenção principal dos clubes formarem jogadores que se identifiquem intimamente com o clube, como é característico do modelo endógeno de formação (DAMO, 2007). O principal objetivo destacado nas falas dos sujeitos entrevistados diz respeito à possibilidade de lucro que a formação de atletas pode proporcionar ao clube formador, principalmente através da “venda” de jogadores, o que se caracteriza ou se aproxima, segundo Damo (2007), dos modelos exógeno e híbrido de formação.

4.2 Salário, condições de trabalho e visibilidade: fatores determinantes na assinatura