3.2 DEBATES DIRETOS ENTRE YAN E MEARSHEIMER
3.2.1 Debate de 2013
abordagem podem ser abstraídas algumas lições para os países em desenvolvimento também interessados em ascender.
vigia noturno de ordem, nenhum país realmente conhece as verdadeiras intenções de outros países e nenhum país pode ter 100% de certeza de que outros países não atacarão a si mesmo. Neste caso, a única coisa que pode ser feita é maximizar sua força relativa. Somente países fortes e poderosos podem sobreviver nesse sistema (CAN..., 2022, 4 min 46 s., tradução nossa).
O professor Mearsheimer naturaliza a iminência de uma possível guerra entre China e EUA de modo tão caricato que desperta risos da plateia. Essa exposição verbal demonstra a objetividade concisa do realismo mearsheimeriano que explora profundamente uma baixa quantidade de características da processualidade em questão.
Depois disso, o autor cita o exemplo da condição hegemônica que apenas os EUA conquistaram na ordem internacional vigente. Segundo Mearsheimer, é apenas essestatusque garante à superpotência a segurança que sente em relação ao Canadá e ao México. Maximizar capacidades materiais para ter vantagem comparativa em relação aos Estados contíguos e, de modo mais amplo, a todo o continente em que um país está inserido é a meta das relações internacionais sob uma óptica realista ofensiva. Indo mais além, um Estado que atinge essa condição de supremacia deve impedir também que concorrentes consigam fazer o mesmo nas regiões que estão inseridos, então o ator hegemônico deve equilibrar poder por fora, agindo em longa distância de maneiras diversas. Caso o hegemon não exerça sua influência em dimensão global, espera que outros hegemons que possam se consolidar deverão buscar fazê-lo e, por isso, busca evitar o surgimento de concorrentes. Sobre o caso concreto em discussão, expõe Mearsheimer:
Do ponto de vista da China, essa não é uma boa situação porque a China não está feliz ao ver que os Estados Unidos têm forças militares estacionadas em sua porta, vocês não estão felizes com o fato de que nós temos porta-aviões navegando no Mar Amarelo e no Estreito de Taiwan, aviões ao longo da costa, forças terrestres na costa. Vocês gostariam de nos ver envolvidos nos assuntos de segurança do Hemisfério Ocidental, então assim teríamos menos tempo para prestar atenção no que está ocorrendo na Ásia (CAN..., 2022, 9 min 43 s., tradução nossa).
Depois, o americano aplica a mesma lógica à perspectiva americana, que estipula que em longo prazo uma China hegemônica poderá intervir no hemisfério ocidental e, por isso, deve permanecer limitada a conflito regionais (como já acontece desde a Antiguidade, a julgar pelo histórico de conflitos da China). Os EUA precisam fomentar a existência de outras potências na Ásia, como Índia e Japão que, potencialmente, podem assumir o papel de buck-catchers por buck-passing exercido pelos EUA em um momento oportuno (MEARSHEIMER, 2001, p. 267-335).
Mearsheimer enxerga nessa correlação de forças uma condição favorável para os EUA e que deve ser aprofundada, a justificando pelo caráter anárquico do sistema de Estados que
força as potências a maximizarem poder relativo. Seguindo esse raciocínio, o estadunidense faz uma analogia engraçada: “[é necessário ser,] como costumávamos dizer em Nova York quando eu era criança, ‘o maior e mais forte cara da sala’, porque só assim ninguém se atreve a provocá-lo” (CAN..., 2022, 11 min 36 s, tradução nossa).
Seguindo, o professor faz uma aplicação histórica, classificando que expansões e conquistas são eventos comuns nas histórias dos EUA e da China. Desde a independência dos EUA em 1776 uma grande potência foi construída através da Marcha para o Oeste, pela qual o sudoeste foi anexado em uma violenta expansão militar representada pela Doutrina Monroe (1823) que visava à eliminação de influências coloniais europeias no continente americano.
De modo análogo, John Mearsheimer espera que a China fará o mesmo, caso continue obtendo poder, alcançando hegemonia regional e expulsando os EUA do continente asiático.
E isso deve ser desejável para os chineses devido ao trauma histórico do século da humilhação (embora não use esse termo, faz menção a esse recorte histórico iniciado há 200 anos), que induz a conclusão sobre a necessidade de obter poder para se impor geopoliticamente e garantir a segurança nacional. É por essa razão que deve ser esperada uma “Doutrina Monroe à chinesa”. Esse raciocínio ecoa no artigo “Can China Rise Peacefully?” (com o mesmo título deste debate) publicado em 2014 noThe National Interest(MEARSHEIMER, 2014a). Nesse ponto o pensador americano é certeiro, pois a ambição de construir uma Doutrina Monroe chinesa é declarada por um dos mais proeminentes representantes do ELP, o coronel Liu Mingfu (2010), no livro “China Dream”.
É devido a essa dinâmica relacional que os EUA devem limitar o crescimento da China e, de modo implacável, entrarão em uma intensa disputa de equilíbrio de poder, assim como fizeram com o Segundo Império Alemão, com o Império Japonês, com a Alemanha Nazi e com a União Soviética. Esse é o propósito da estratégia de Pivô à Ásia. E é esperado que a RPC reaja a essa pressão na medida em que se fortaleça. O autor assume que a guerra não é inevitável, mas é muito possível, pois levará o atrito sino-americano ao fim. E o palco do conflito tende a eclodir no Estreito de Taiwan, na Península Coreana, no Mar da China Meridional ou nas Ilhas Diaoyu (CAN..., 2022, 21 min 16 s, tradução nossa).
Mearsheimer reforça o fato de que sua previsão consiste em uma análise teórica que simplifica a realidade para poder explicá-la, mas é passível de erros, pois não há teoria social que seja infalível. No caso da teorização realista estrutural, as variáveis de análise centrais são o equilíbrio de poder e a estrutura do sistema internacional, enquanto o nível de análise
doméstico é ignorado. E, como a política doméstica também pode eventualmente desempenhar um papel importante, a previsão realista ofensiva pode estar errada. Sendo otimista e educado diante da plateia chinesa, o professor conclui com expectativas pacifistas:
“as melhores teorias estão corretas em 75% do tempo e isso significa que estão erradas em 25% do tempo [...] vamos torcer para que a respeito da ascensão da China essa vai ser uma das instâncias em que minha teoria vai ser provada incorreta” (CAN..., 2022, 23 min 6 s, tradução nossa).
Encerrada a fala de Mearsheimer, o professor chinês Yan Xuetong inicia sua participação no debate declarando que, apesar do rótulo realista que é atribuído a si e ao seu colega, suas perspectivas são muito diferentes. A despeito de concordar que em um sistema anárquico as unidades precisam garantir suas defesas com o poder militar sendo o melhor meio para isso, que há incertezas sobre pretensões dos outros, e que o objetivo das relações internacionais é a sobrevivência e então se estabelece uma dinâmica de maximização constante de segurança que envolve o equilíbrio de poder sino-americano, há divergências interpretativas sobre a lógica e os fatos que fundamentam essas suposições teóricas realistas.
As diferenças lógicas e factuais são trazidas pelo autor asiático com as seguintes palavras:
Concordo com alguns argumentos do professor Mearsheimer. Considero que tanto a China quanto os Estados Unidos querem ser a potência líder no mundo. A China quer reascender através do rejuvenescimento nacional, e isso significa que quer ser o número 1 no mundo, e o presidente Obama afirmou no Congresso que os EUA nunca aceitarão ser o número 2 do mundo. Isso significa que os Estados Unidos nunca aceitarão que qualquer um seja igual a eles sendo o número dois, eles não querem dois números dois. Também, qualquer país deve se tornar um líder regional antes de se tornar um líder mundial, o que também é uma lei inevitável, não é uma teoria, é uma lei da natureza. O último apontamento é que há muitas estratégias para tanto a China como os EUA escolherem manter ou melhorar suas posições. Os EUA têm a estratégia de contenção, engajamento, equilíbrio, equilíbrio de poder pelo mar, e certamente há outras estratégias. O mesmo vale para a China, então podemos continuar em perfil discreto, ou assumir mais responsabilidades no mundo, ou optar pela guerra. Então há diversas estratégias para a China ascender uma posição de liderança (CAN..., 2022, 25 min 26 s, tradução nossa).
Basicamente, Yan introduz sua intervenção com o argumento que explora a maior dinamicidade existente em seu escopo teórico em comparação com o de Mearsheimer.
Enquanto o autor americano restringe sua análise a meios de equilíbrio mais diretos e restritos à área militar, com foco em balancing e buck-passing, o professor chinês demonstra a flexibilidade existente no pensamento internacional chinês determinado pela ausência de um princípio ordenador em sua grande estratégia. Diplomacia, comércio exterior e estratégias de defesa encontram interseções maleáveis e projetadas, nesse sentido (LAYNE, 2006;
CARRIÇO, 2013a; WANG, 2011; LIU M., 2010). O argumento sobre a multiplicidade
estratégica é encontrado no segundo capítulo de “Leadership and the Rise of Great Powers”, denominado “Liderança e preferências estratégicas” (tradução nossa), onde o professor Yan (2019, p. 25-53) correlaciona tipos de liderança política e distintas estratégias internacionais.
Tal capítulo deriva de uma adaptação do artigo “From keeping a low profile to striving for achievement” (YAN, 2014b).
Prosseguindo no debate, Xuetong explora mais as diferenças entre os realismos moral e ofensivo. Yan compara as formas de disputa entre Grã-Bretanha e França durante o período colonial e entre EUA e URSS durante a Guerra Fria. No primeiro caso havia uma competição por colônias. No recorte histórico seguinte os EUA e a URSS não participaram da dinâmica imposta pelas potências anteriormente reinantes e apostaram em uma abordagem diferente baseada em busca por aliados. Seguindo o progresso da história, a RPC e os EUA já não podem seguir os padrões relacionais da Guerra Fria. Compreendendo que, apesar da desconfiança mútua, EUA e RPC compartilham interesses comuns, uma performance de cooperação bilateral amistosa e ativa pode ser traçada. No tocante às divergências, devem ser tratadas por medidas de prevenção estratégica. Esse raciocínio transparece na retórica governamental, por exemplo, no discurso “Avançar sem esquecer a aspiração inicial” de 1º de julho de 2016: “A China defende a comunidade de futuro compartilhado para a humanidade e opõe-se à mentalidade da Guerra Fria e ao jogo de soma zero” (XI, 2019b, p. 47).
O escopo da política externa de Xi Jinping (2019a; 2019b), que dá primazia à construção de um ambiente diplomático positivo com os países vizinhos, prepara um terreno para que a ascensão pacífica concatenada com a concretização das duas metas centenárias52 seja aceita pelos países da circunvizinhança do País do Meio. A nova condução é diferente da política externa discreta que prestava atenção principalmente na qualidade das relações sino-americanas para garantir crescimento econômico com segurança e estabilidade. A transição equivale a um reequilíbrio de poder porque altera o foco de prioridades relacionais, então anula a chance de neutralidade chinesa em caso de atrito entre algum país asiático aliado e os EUA. De modo mais incisivo, propõe, ainda, cooperação nas áreas de economia e de segurança, mesmo o fazendo por uma proposta multidimensional e, portanto, pretensiosamente ainda branda. Nesse momento, Yan sistematiza o estabelecimento de zonas de cooperação alinhadas com o escopo daBelt and Road Initiative:
52As metas fazem referência ao aniversário do centenário do PCCh e da fundação da RPC em 2021 e 2049. A primeira meta é baseada em dobrar o PIB e o PIB per capita em 2020 em relação ao de 2010 (já foi consolidada), e a segunda é de tornar a China “um país moderno socialista próspero, poderoso, democrático, culturalmente avançado e harmonioso, concretizando assim o sonho chinês da grande revitalização nacional” (XI, 2019a, p.
398).
O escopo geral [dessa estratégia diplomática] é o estabelecimento de três zonas de cooperação econômica sub-regionais e aprofundar cooperação de segurança com vizinhos. Isso é muito diferente de antes. Agora vamos tentar estabelecer a Rota da Seda no Oriente Médio, a Rota da Seda Marítima do sudeste da China e o Corredor Econômico China-Índia-Mianmar-Bangladesh [no sul da Ásia] [...] Xi Jinping sugere que deveríamos aprofundar nossa cooperação de segurança com nossos vizinhos [...] a abordagem de trabalho é muito variada. O objetivo de trabalho é, primeiramente, procurar interesses compartilhados, que é melhor do que buscar confiança mútua [...] porque nós nunca confiamos uns nos outros, como disse o senhor Mearsheimer (CAN..., 2022, 30 min 36 s, tradução nossa).
Continuando a análise sobre o governo recém-constituído de Xi Jinping, Yan avalia que sua retórica propõe falar sobre amizade e moralidade ao conferir importância às relações fronteiriças para criar um ambiente estratégico útil ao desenvolvimento da China e de seus parceiros. Nesse sentido, a diplomacia que não faz distinção entre aliados e rivais, inerente ao Tāo guāng yǎng huì de Deng Xiaoping, chegou a um limite, pois a Comunidade de Destino Comum alinhada com a Nova Rota da Seda possui um corpo geográfico centrado na Ásia. O professor chinês faz uma analogia cômica sobre isso: “se você é igualmente amigável para todas as mulheres, então você não tem uma esposa” (CAN..., 2022, 32 min 43 s, tradução nossa).
A China agora enfatiza que pretende exportar seu desenvolvimento econômico aos países vizinhos, o que diferencia a promoção de relações de igualdade que a China enfatizava no passado – agora há uma proposta inclusiva pelo reconhecimento de um estatuto praticamente hierárquico. No entanto, Yan opina que alianças de segurança deveriam ser mais exploradas por Xi para obter maior nível de confiança por parte dos vizinhos. As oportunidades trazidas pela Comunidade de Destino Comum são potencialmente muito mais profundas e abrangentes do que parcerias estritamente comerciais anteriormente construídas.
O grau de integração se dará em vários campos, como política, cultura, educação e segurança.
No texto “Melhorar nossa capacidade de participar da governança global”, de 27 de setembro de 2016, sobre isso explana Xi:
Desde o 18º Congresso Nacional do Partido, exigimos que seja posto em prática o correto conceito de justiça e interesses, impulsionamos o estabelecimento de um novo modelo de relacionamento internacional que tem como núcleo a cooperação ganha-ganha e a criação de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade e de uma rede de parceiros que conecte todas as partes do mundo, assim como promovemos o conceito de segurança comum, integral cooperativa e sustentável (2019b, p. 555).
O professor Yan Xuetong identifica que somente através da moralidade e do fornecimento de benefícios pragmáticos para a periferia geográfica chinesa o rejuvenescimento nacional pode ser alcançado. E é essa uma diferença entre os realismos moral e ofensivo: o primeiro reconhece relevância em características domésticas dos Estados
para constituir poder; o segundo não. Um atributo interno caro para Yan é a moralidade como um meio tático para aumentar a força nacional através do aprofundamento de relações amistosas com os países vizinhos, que trazem benefícios estratégicos, políticos e comerciais.
Para o realismo ofensivo, o poder militar é a base do poder de um Estado; para o realismo moral, a liderança política é a base do poder nacional.
Como a moralidade é entendida em diversos níveis que variam desde o universal até o individual, que é relativo, diferentes líderes também adotam distintas estratégias diplomáticas.
Por exemplo, as escolhas de Bush e Clinton são diferentes, assim como as de Deng Xiaoping e Mao Tsé-Tung também não são iguais, então Xi Jinping deve adotar uma estratégia diplomática diferente de Hu Jintao. Aqui é apresentada a base do raciocínio que aparece mais tarde no primeiro capítulo de Leadership and The Rise of Great Powers, denominado
“Moralidade, poder e autoridade” (tradução nossa) (YAN, 2019, p. 1-24).
Depois de expor os argumentos relacionados com a variabilidade estratégica e com a importância da moralidade na definição da força abrangente de um país, Yan retorna ao tópico do debate: como a China pode se erguer pacificamente? Como realista, afirma que não há garantia de que a China não será arrastada para a guerra no processo de sua ascensão. É certamente por essa razão que Xi Jinping enfatiza o aprofundamento dos preparativos para a luta militar. Não obstante, afirma Yan: “Não sou tão pessimista quanto o professor Mearsheimer no que diz respeito ao perigo de guerra entre a China e os Estados Unidos. Eu acredito que é muito improvável” (CAN..., 2022, 38 min 15 s, tradução nossa). Há duas razões para sustentar o argumento: 1) a dissuasão nuclear, assim como na época da Guerra Fria, impedirá um conflito direto entre grandes potências; e 2) a globalização contemporânea trouxe uma interdependência econômica mais sensível e menos vulnerável do que em momentos anteriores da história53.
Quando Yan evoca essas duas variáveis está respondendo às formulações de Mearsheimer (2001, p. 130-133; 371) emThe Tragedy of Great Power Politicsem que afirma que mesmo perante as pressões da dissuasão nuclear e da interdependência as guerras são possíveis. No caso do cenário de destruição mútua assegurada, há uma concessão por Mearsheimer, que avalia que de fato reduz as chances de um grande conflito, mas enxerga um papel ainda ativo nas forças terrestres, e no caso da interdependência econômica o autor refere à incapacidade desta dinâmica relacional frear guerras entre grandes potências no século XX.
53As categorias de vulnerabilidade e sensibilidade dialogam com a obra de Nye e Keohave (2012),Power and Interdependence.
Em relação à dissuasão nuclear, há consenso parcial entre Mearsheimer e Yan, enquanto a verdadeira contestação ganha no lugar na questão de a globalização ter reforçado a capacidade pacificadora da economia internacional.
Indo além, Yan estima que o multilateralismo global instaurado na década de 1990 abre portas para que não haja tanta dependência entre mercados de países específicos, então a variação de alternativas fornece possibilidades de resistência a sanções, embargos, tarifas etc.
e avalia que isso se aplica à relação sino-americana. Trata-se de uma afirmação forte, mas que também foi confirmada pela realidade. Dados da balança comercial chinesa desde 2009 até 2019 indicam os EUA permanecem entre os parceiros comerciais mais importantes, mas não figuram mais entre as três maiores fontes de importação provavelmente por conta da política externa multilateral da China simultânea à ofensiva da guerra comercial travada ao longo do governo de Donald Trump (2017-2020), enquanto a complexidade econômica aumentou de 0,66 para 0,97 (OBSERVATORY OF ECONOMIC COMPLEXITY, 2019). E o crescimento econômico continuou comparativamente expressivo mesmo com relativa redução em seu ritmo – a China tinha um PIB de US$ 5,1 trilhões em 2009 e US$ 14,28 trilhões em 2019 (WORLD BANK, 2020a).
Sintetizando, Yan Xuetong reitera que a possibilidade de guerra direta entre RPC e EUA é muito pequena, mas uma guerra por procuração pode ser induzida. No caso de indução de uma guerra terceirizada a estratégia ascensão pacífica tem como diretriz não iniciar as agressões. Entretanto, caso a China seja atacada, deverá revidar, pois buscar a ascensão pacífica não significa não se defender.
Antes de encerrar sua fala, Yan acrescenta que ele e Mearsheimer preveem datas diferentes para a ascensão chinesa, tomando como ponto de partida a data do evento acadêmico (2013): Mearsheimer previa a ascensão da China até 2033 ou 2043, e Yan estipulava que a data limite seria 2023. Em termos de PPC, a superação econômica dos EUA já aconteceu, mas em taxas de câmbio de dólar ainda falta a RPC crescer aproximadamente US$ 6 trilhões (WORLD BANK, 2020).
John Mearsheimer, então, começa sua segunda participação no debate para treplicar os argumentos de Yan Xuetong. Primeiramente, discute a estratégia do governo de Xi Jinping baseada no desenvolvimento de cooperação profunda nas áreas de economia e segurança com países vizinhos para reduzir chances de conflito e consolidar sua ascensão. Ele considera uma tentativa inteligente, mas fadada ao fracasso por três razões: 1) O que realmente assusta os
vizinhos de Beijing e Washington são as capacidades materiais que a potência ascendente vem acumulando, independentemente do teor e do discurso de sua política externa. 2) Os vizinhos da China causarão problemas nesta fase do processo de ascensão (com ajuda dos EUA), antes que seja tarde demais para tentar impedi-la, e é por isso que Filipinas, Vietnã e Japão causaram problemas durante o trâmite da ascensão pacífica. No entanto, a China preferiu manter a calma porque o tempo está ao seu lado. Com o passar do tempo, se tornará cada vez mais forte e, eventualmente, terá o mesmo poder que o “Godzilla” (Mearsheimer realmente faz essa comparação). Quando tiver esse poder, poderá governar o mundo, então apenas precisa de tempo. E 3) não adianta tentar ser benevolente se todos sabem que a China não está satisfeita com sua atual situação de segurança frente às vulnerabilidades geopolíticas causadas pela questão de Taiwan, pelas disputas das Ilhas Diaoyu e do Mar do Sul da China e pela demarcação da fronteira sino-indiana em Aksai Chin. Quando a China estiver mais forte, consequentemente terá capacidade para mudar essas regras e garantir maior segurança (CAN, 2022, 43 min).
O segundo contra-argumento de Mearsheimer diz respeito à moralidade. Segundo o autor americano, essa retórica torna a China ainda mais perigosa. Essa é uma característica que vai igualizar a RPC aos EUA, que são o país mais moralista do mundo e subordinam esses valores às suas ambições expansionistas. A forma ideológica moral dos americanos é o liberalismo, que justifica uma missão excepcionalista de “catequizar” os outros Estados levando democracia e liberdade a eles. Os integrantes do establishmentamericano, inclusive, entendem que têm a obrigação de ensinar a China a respeitar os princípios morais básicos e os direitos humanos. Diante disso, o dever dos realistas é evitar o senso de moralidade e pretensões de expansão global porque o valor verdadeiramente mais precioso na política internacional é evitar a guerra. Para Mearsheimer, os verdadeiros realistas devem se opor à invasão dos EUA no Vietnã, no Iraque etc., enquanto os liberais costumam fazer guerras em nome da ideologia. E é por essa razão que ele declara que quando viu que a China está interessada agora no realismo moral “ficou apavorado” (CAN..., 2022, 49 min).
A última resposta a Yan é baseada em armas nucleares e globalização. Mearsheimer admite que esses dois fatores são a refutação mais poderosa de sua teoria realista ofensiva.
Todavia, compartilha suas percepções sobre esses pontos. Sobre armas nucleares, durante a Guerra Fria, tanto os EUA quanto a URSS possuíam armas nucleares para se destruírem mutuamente, o que trouxe maior pacificação na configuração internacional bipolar, mas um outro cenário exemplar mostra uma situação em que os conflitos não deixam de ocorrer por
isso: tanto a Índia quanto o Paquistão possuem armas nucleares, mas isso não diminuiu o nível de tensão entre ambas, que permanecem numa corrida armamentista. Sendo assim, as armas nucleares parecem intensificar processos de equilíbrio de poder em nível regional que não envolva as maiores potências do sistema. Na atualidade, se a China e os Estados Unidos (através de aliados asiáticos) lutarem por disputas regionais, esta terá escala limitada.
Um fator que reforça a chance de uma guerra na China é o ambiente geográfico da Ásia e os simultâneos interesses de múltiplos atores para construí-la. As brechas nos Mares do Sul e do Leste, no estreito de Taiwan, a tensão teoricamente persistente entre as Coreias e o território ainda disputado na fronteira com a Índia são todos passíveis de abrigar guerras, conforme já foi visto na história. As localidades logisticamente adequadas para guerrear no contexto de ascensão da China são comparativamente mais diversas do que as que existiam na URSS durante a Guerra Fria. Um cenário de guerra entre EUA e URSS seria provavelmente a Alemanha através de uma ofensiva da OTAN, mas seria excessivamente custoso e logisticamente arriscado para os dois lados. No caso da China, as condições geográficas são mais seguras e diversificadas para os EUA. Esse é um argumento detalhadamente inserido no artigoCan China Rise Peacefully?(MEARSHEIMER, 2014a).
Sobre interdependência econômica e globalização, Mearsheimer reproduz um argumento que aparece em mais de um artigo, emThe Tragedy of Great Power Politicse em The Great Delusion. Um exemplo sólido que ele traz nesse debate é a questão de Taiwan, que deve provar que interesses políticos estão sobrepostos aos econômicos porque mesmo que a prioridade da estratégia chinesa tenha sido o crescimento e o desenvolvimento, declara desde seus períodos de maior atraso que declararia guerra à ilha em caso de declaração de independência desta. Depois o professor americano indaga se China e Japão entrariam em um consenso sobre as Ilhas Diaoyu, e antecipa que isso é impossível devido à primazia da política. Para finalizar, repete o exemplo presente em seus livros sobre como antes da Primeira Guerra Mundial havia contestações sobre a chance de guerra devido à suposta primazia da economia.
Sobre a questão das Ilhas Diaoyu, foram praticamente retomadas pela China em 2016 não por um consenso diplomático, mas através de uma alteração no equilíbrio de poder com o Japão (BOUGON, 2018, p. 184). De fato, houve primazia da geopolítica nesse desdobramento. Mearsheimer foi certeiro sobre isso. Entretanto, ao tentar reduzir a importância das relações econômicas globais para dissuadir conflitos o americano insistiu em