Capítulo 1: Esquema analítico e conceitos na pesquisa
1.4 Debate sobre a relação centro-periferia: o poder local
Ao destacar instituições no que concerne os estudos sobre política, o poder local foi visto ou como exótico, caracterizado como uma política paroquial ou sem especifi- cidade com relação à política nacional21, tornando-se apenas uma expressão na política mais englobadora, situada acima dela: "creio que há mais na contraposição entre 'políti- ca local' e 'política nacional' do que as fronteiras entre aldeia e nação" (PALMEIRA, 2006, p. 138).
Nesse sentido, Moacir Palmeira alerta para a necessidade de superação de algu- mas ideias que tem norteado os estudos sobre “política local”, considerando a política como uma “dualidade”, ou seja, “feita de relações institucionais e relações pessoais em todos os níveis, do local ao nacional” (PALMEIRA, 2006, p. 139). O autor esboça al- guns traços da política feita em nível local. Dentre os mais destacados, sobressai-se o fato que
quando o que está em jogo não são, como num ideal campo de disputas de- mocrático, grupos que, defrontando-se e conformando-se na elaboração de seus interesses, disputam o poder, mas sim a regulação das relações de partes da sociedade com um poder localizado fora dela, o que há é a elaboração de uma distância que, em torno de um líder, produz facções, quase-grupos que se enfrentam no tempo da política, onde a política é identificada com a pró- pria disputa. Fora do tempo da política, a política se confunde com a ativida- de política da facção dominante (PALMEIRA, 2006, p. 141).
Sobre a questão do poder local, ao se estudar eleições municipais, precisa-se levar em conta as clivagens existentes entre os diferentes espaços políticos. A política está comumente associada ao Estado ou algo relacionado a ele como os partidos políti- cos. Alguns pesquisadores, no entanto, voltaram atenção para a política local, ou seja, aquela relacionada a municipalidade, onde em muitas vezes os traços recorrentes em estudos políticos não são percebidos por uma série de nuances. Dentre os trabalhos, destaca-se A análise localizada do político (1989), onde Jean-Louis Briquet e Frédéric Sawicki expõem em traços gerais algumas prerrogativas de estudo que pretendem traba- lhar o poder local, tais como 1) a emergência da questão local nos estudos sobre a polí-
21 Tal ideia não fica restrita ao caso brasileiro. Em Os amigos dos meus amigos... Registros da mobiliza- ção política na Córsega rural (1990), de Jean-Louis Briquet, o autor afirma que "a política local, e mais ainda a política no meio rural, é sempre lembrada como uma atividade 'apolítica', quer dizer, estranha aos conflitos políticos nacionais e aos sistemas ideológicos que os sustentam ou preenchidos sobre a materia- lidade das disputas locais, não tendo sentido senão no pequeno quadro da localidade onde o jogo aconte- ce" (p. 23).
tica, 2) o espaço político local enquanto um objeto de estudo ainda em construção e 3) as relações entre a política em nível "local" e "nacional".
Antes, porém, de evidenciar esses pontos, faz-se necessário destacar que os auto- res asseveram que, o que se acostumou chamar de "análise do local", não trata-se de um conjunto homogêneo de trabalho, com a mesma perspectiva, mas sim um aglomerado heterogêneo de pesquisas, com objetos e metodologias diferentes e que os mesmos sur- gem tanto na Sociologia como na Ciência Política quase que ao acaso e não por um de- sejo de se estudar o local. A partir desse ponto de vista, trabalham com algumas ques- tões, tais como "o local deve simplesmente ser concebido como um lugar de verifica- ções de observações gerais contatadas sob um plano nacional? Ou deve-se partir do ca- ráter necessariamente situado espacialmente de relações sociais e de representações so- ciais que delas resultam, afim de construir o objeto local como um objeto de pesquisa?" (p. 6).
Sem responder de início as questões, afirmam que precisa-se levar em conta ca- da contexto analisado, tentando entender a especificidade de cada um, atentando para não se cair em extremos, tais como resumir o local a um lugar de pesquisa ou a condu- ção da diluição do nacional em pequenos espaços autônomos, ou seja, "o estudo dos espaços políticos locais deve ser acompanhado de uma reflexão sobre as formas que podem dar conta das relações entre o 'central' e o 'periférico' concebidos sobre os modos de imbricação dos espaços e dos recursos" (p. 6).
Sobre os pontos mencionados acima, o primeiro, sobre a emergência da questão da política local nos estudos de política, em um primeiro momento, tais estudos não tinham o intuito de abordar o local propriamente dito, mas sim o funcionamento do Es- tado em espaços periféricos, destacando a relação de dependência entre o local e o cen- tro do poder. Briquet e Sawicki afirmam que o local não pode ser concebido apenas como um reflexo do que é construído em nível nacional, haja visto que aquele tem sua densidade e dimensão próprias, sendo "o resultado de uma história local particular" (p. 8) ou seja, precisa-se avaliar o funcionamento do poder local/municipal, suas lutas, ins- tituições, espaços, etc., levando em conta as nuances que cabem a cada caso em especí- fico. Nos dizeres dos autores, "o espaço local não pode ser considerado como um sim- ples lugar de pesquisa, mas como um objeto socialmente construído por práticas locali- zadas, por uma história própria, por um conjunto de relações sociais mais ou menos organizadas" (p. 8).
Em se tratando da construção dos espaços políticos locais enquanto objeto de estudo, deve-se levar em conta as limitações da ideia de local, dada as múltiplas formas de se construir os espaços, não reduzindo o local aos limites seja da cidade, da vila, da região, etc., sob o risco de reduzir o local a um conjunto de articulações, tais como cul- tural, econômica, etc. Briquet e Sawicki alertam que o local não pode a isso se resumir e que a metáfora espacial na sociologia vai além dessa perspectiva: "ela remete a um es- paço abstrato de relações sociais privilegiadas entre certos grupos de agentes mais ou menos organizados, em concorrência por recursos raros, materiais e simbólicos" (p. 9- 10). Além disso, completam afirmando que o local é constituído por um conjunto de redes22 que só fazem sentido levando em conta o pressuposto anteriormente exposto, que cada local deve ser estudado levando em conta suas especificidades e suas articula- ções com o centro.
Ponto que merece destaque na análise dos pesquisadores é a importância dada por eles à multiposicionalidade de determinados personagens nos jogos locais, seja polí- tico, econômico, sociocultural, etc. Tal característica, a inserção de alguém em vários espaços é fundamental para se entender, no caso da política, o que faz com que uma pessoa tenha mais sucesso que outro nas disputas locais. Tal perspectiva remete-nos a pensar o espaço político local "como lugar de memória e de formação de identidades e de práticas políticas específicas. A história, inscrita no espaço e instituições, se inscre- vem no corpo daqueles que a habitam" (p. 10).
Por fim, deve-se levar em conta a articulação entre o local e o nacional. Desta- cam os autores que o local não deve ser considerado um lugar fechado em si mesmo e nem apenas dependente do nacional, mas que ambos constituem um sistema de interde- pendência. Afirmam que os estudos que fazem essa articulação permitem entender o poder nacional não como algo homogêneo, mas sim como "um quadro estruturado de
22 O conceito de rede usado pelos autores é apropriado de Degenne: "o conjunto de 'círculos sociais' pré- constituídos e mais ou menos estruturados ao qual pertence um indivíduo (família, localidade, local de trabalho, pertencimento a uma administração, uma nação, etc.). Em consequência, 'as redes mais comple- xas, a hierarquia de uma instituição, de uma localidade, de uma comunidade (...) se define por um recorte pertinente no conjunto de todos os círculos sociais que tem a ver com a questão estudada' e pela forma de sua articulação: 'pensar rede é uma forma de abordar os grupos sociais localizados'" (p. 10). A. J. Barnes em seu texto Redes sociais e processo político (2010) concebe a estrutura da rede como ilimitada: “a imagem que tenho é a de um conjunto de pontos, alguns dos quais estão unidos por linhas. Os pontos da imagem são pessoas, às vezes grupos, e as linhas indicam quais as pessoas que interagem entre si [...] Uma rede desse tipo não possui nenhum limite externo” (BARNES, 2010). Já Carl Landé (1977) trabalha o termo facção para caracterizar a união de pessoas em torno de um líder, onde seus membros não tem ideologias em comum e que não tem interesses coletivos, senão aquele para o qual estão unido naquele momento (por exemplo, vencer uma eleição). Dessa forma, segundo o autor, são os "grupos diádicos não- corporados" que chama-se de facção.
espaços heterogêneos" e que, mesmo que tenha suas regras próprias, não é autônomo, que está em constante transformação por conta das intensas articulações com os espaços locais. Com relação a esse poder local, reforçam a ideia de interdependência com o na- cional, sendo o mesmo um espaço de interações de diferentes relações e que é necessá- rio se questionar sobre as formas como alguns elementos provenientes do 'nacional' (re- cursos, ideias, políticas, etc.) ganham efeito e sentido na municipalidade ou região:
o local não é um lugar fechado no interior do qual se limitam as relações de poder, mas um lugar de interações e de transações entre os atores dispondo de recursos diferentes (e desiguais), também bens locais (herança familiar, pres- tígio social, responsabilidade em organizações locais, etc.) e nacionais (per- tencimento a direção de um partido, posição de poder no aparelho de Estado, capital social ou cultural garantido por uma instituição, etc.) (p. 13).
Outros estudos também destacaram o poder local em suas pesquisas. Em Uma releitura crítica do poder periférico (1989) Philippe Corcuff e Claudette Lafaye debru- çam-se sobre a obra O poder periférico23 de Pierre Grémion, na qual é estudada a "rela- ção problemática" entre o centro e a periferia a partir da criação de instituições regionais em 1964 na França, tentando perceber a dinâmica existente entre os eleitos locais e agentes administrativos do poder central. A ambição de Grémion é a de
substituir 'uma problemática de desenvolvimento por uma problemática de aplicação' levando em conta 'as capacidades de resposta dos atores locais (funcionários, eleitos locais e nacionais, responsáveis econômicos) a uma ini- ciativa central', a mobilização periférica se operando 'sob critérios diferentes daqueles pertencentes a coalizões oriundas do centro (p. 36).
O conceito desenvolvido no livro é o de "sistema político-administrativo local", ou seja,
'uma rede de interação' e como 'uma forma de poder' situada no ponto de in- terseção 'do aparelho burocrático do Estado e das instancias de representa- ções locais'. Essa rede, que constitui o fundamento prático do 'poder' dividido pelos eleitos locais e os agentes administrativos apela a uma maior solidarie- dade e até mesmo 'a cumplicidade' que o antagonismo. Daí 'a existência de uma capacidade de ação local suficiente para se opor à vontade do centro' (p. 36).
Exposta a teoria central de Grémion, Corcuff e Lafaye tecem críticas aos pressu- postos do pesquisador. Um dos pontos mencionado é a "conotação biologista" da obra,
que usa termos como "sistema", "função", "regulação", "integração", "equilíbrio", etc. Porém, os dois maiores problemas citados são 1) os usos dos termos "estratégia" e "re- de", que na obra "tende a pressupor uma comparabilidade e uma compatibilidade auto- mática entre os recursos de natureza diferente" e 2) a escrita do livro, havendo uma se- paração entre as partes, além da pouca visualização do material empírico e de alguns exames (p. 38).
Apesar das críticas, afirmam que O Poder periférico percebe
a existência de lógicas locais específicas, de critérios próprios aos espaços lo- cais. Daí sua recusa da atitude tradicional que investe o centro de 'racionali- dade' e o local estando regulado na 'irracionalidade' [...] o olhar muda com re- lação aos usos clássicos que opõem centro e periferia: ele não se interessa somente ao eixo vertical das relações, mas também ao eixo horizontal consti- tuído pelas relações entre os funcionários e os eleitos locais (p. 39).
Entretanto, ressaltam que há uma valorização do binômio centro-periferia e que isso tende a conferir homogeneidade a cada um dos polos, asseverando que precisa-se "ir além nas análises das especificidades das lógicas locais e ser menos unilateral na forma de analisar os modos de relação com as formas nacionais" (p. 39).
Tentando dar uma alternativa ao modelo proposto por Grémion, os autores citam Frederick Bailey e o conceito de "encaixe" para explicar as relações entre os diferentes níveis de análise na política. Segundo os autores, a ideia de Bailey "permite destacar a existência de níveis diferentes de totalização de informação e sobre a autonomia das 'estruturas encaixadas'", além de possibilitar uma visualização das estruturas de forma mais flexível que a proposta por Bourdieu com a noção de campo, na qual as disputas no local tendem a ser sobredeterminadas ou vinculadas a um espaço maior através de uma "relação de interdependência causal". Ressaltam ainda Corcuff e Lafaye que tal noção permite observar não apenas as relações entre o nacional e o local, mas também os pontos de intersecção entre ambos, os "intermediários", ou seja, "papéis que surgem para suprir as lacunas na comunicação entre as grandes e pequenas estruturas". Porém, alertam os autores que a análise, normalmente, recai sobre um eixo, o que predetermina as análises. Dessa forma, asseveram que a ideia de encaixe revela questões interessan- tes, mas ainda é restritivo (p. 39).
Nessa relação entre centro e periferia, importante destacar a presença de media- dores, ou seja, pessoas que se estabelecem entre o local e o nacional. Tal como diz Eric Wolf em Aspectos das relações de grupos em uma sociedade complexa (2003), tais in-
divíduos tem uma dupla face, uma voltada para a comunidade e outra para a nação. Sua função é mediar, resolver as questões entre esses espaços. Estudos que levam em conta o intermediário tendem a revelar como se dão processos mais complexos, tal como a integração entre diferentes sistemas. O objetivo é resolver problemas, porém, os media- dores não o fazem na plenitude, uma vez que, se os problemas todos forem soluciona- dos, sua razão de existir perde sentido. Eles agem amortecendo tensões de diferentes interesses mantendo-as, para que sua função continue existindo:
Eles não teriam motivos para existir se não houvesse tensões entre os grupos orientados para a comunidade e os orientados para a nação. Contudo, eles precisam também manter um domínio dessas tensões, para que o conflito não saia de seu controle, e mediadores melhores tomem seus lugares (WOLF, 2003, p. 88).
Daniel Gaxie e Patrick Lehingue (1984) também abordam a questão da relação entre centro e periferia, discutindo como principal característica a integração entre o “campo político central” e “campos políticos periféricos”. Para eles, sobre os campos periféricos, deve-se atentar para sua diversidade, relações cultivadas com o campo cen- tral, assim como o grau de integração com níveis superiores. Assim, eleições municipais apresentam particularidades, algumas totalmente ou em boa parte articuladas ao centro, porém, a maioria, não é associada à lógica mais ampla.
O nível de integração da periferia ao centro político faz-se sentir nas característi- cas das eleições, pois, quanto menos vinculados os campos, mais as pessoas se interes- sam pelas eleições, mais conhecem os políticos e menos critérios políticos são aciona- dos por elas (p. 22-23).