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Debate sobre o Risorgimento nas notas carcerárias

No documento O nacional-popular em Antonio Gramsci (páginas 103-111)

Como se sabe, o tema do Risorgimento é elaborado de modo profundo nos Quaderni

del Carcere, no “caderno especial” de número 19 (1934-35), cuja questão central é o

processo de unificação italiana, finalizado no final do século XIX. Esse movimento marcou: 1) a unidade político-administrativa do Estado, a partir da qual se definiu, em termos formais, a própria nação italiana; 2) a diminuição relativa do poder do Vaticano; 3) a expulsão das forças estrangeiras, com destaque para a Áustria; entre outros. Em termos de datação, considera-se que o processo de constituição da Itália moderna tenha iniciado em 1815 e terminado em 1870.

Devido à complexa abordagem gramsciana sobre o tema – na qual ele se encontra em intensa interlocução com diversos grupos de intelectuais – a seguir, serão discutidos somente os pontos que trazem uma compreensão melhor da questão nacional italiana.

Sobre a raiz do processo de unificação da península, Gramsci afirma que ela deveria ser vista do seguinte modo:

...as origens do movimento do Risorgimento, isto é, do processo de formação das condições e das relações internacionais que permitirão à Itália unir-se em nação e às forças nacionais desenvolverem-se e expandirem-se, não devem ser buscadas neste ou naquele evento concreto registrado numa ou noutra data, mas precisamente no mesmo processo histórico pelo qual o conjunto do sistema europeu se transforma. Mas este processo não é independente dos eventos internos da península e das forças que nela se localizam. (Q.19, 2001, p. 1963)

Então, para o autor, a unidade italiana deve ser compreendida tanto a partir dos acontecimentos internos, quanto dos externos. A principal influência internacional que atuou sobre o processo italiano, correspondeu à revolução social francesa de 1789. Tal relação entre o nacional e o internacional, coloca-se como fundamental para o pensamento gramsciano, pois, para ele, não é possível entender os acontecimentos de uma nação fora de um contexto mundial.

Na verdade, Gramsci trata o tema do Risorgimento no interior de um amplo e complexo debate no qual são apresentadas inúmeras interpretações. Diversos autores tanto da própria Itália quanto de outros países da Europa, com destaque para as produções francesas, transformaram o Risorgimento num acontecimento gerador de profundas polêmicas. No entanto, era possível afirmar que em geral “o significado do conjunto destas interpretações é de caráter político imediato e ideológico, e não histórico.” (Q. 19, 2001, pp. 1974-75)

Grande parte das divergências, giravam em torno da seguinte questão: qual o lugar e a importância da história italiana no contexto europeu? A partir disso, tinham os defensores da hipótese de que o movimento político-social, chamado Risorgimento, teve início somente com as forças nacionais italianas, isto é, afirmavam a completa autonomia da Itália em relação aos acontecimentos internacionais, como por exemplo, a Revolução Francesa – na verdade, entendida por eles como a responsável pelo desvio da tradição do país. Completamente contrários a essa versão, existiam os que acreditavam justamente na ligação e na dependência do movimento nacional italiano, em relação à revolução burguesa da França.

Para Gramsci, muitas vezes o conflito entre essas duas visões impedia o desenvolvimento do conhecimento, pois a luta político-ideológica enfraquecia o rigor

teórico referente ao tema. Como argumenta, as investigações sobre as “origens do movimento nacional do Risorgimento são quase sempre viciadas pela tendenciosidade política imediata, não só por parte dos escritores italianos, mas também por parte dos estrangeiros, especialmente franceses (ou sob influência da cultura francesa).” (Q. 19, 2001, p. 1964)

Assim, o autor registra a sua insatisfação com grande parte das produções dirigidas ao Risorgimento, ainda que, como será observado, tenda a se aproximar da segunda corrente interpretativa. O que, certamente, não significa uma negação da existência de setores ativos e particulares da Itália, mesmo sendo eles conservadores.

Dessa forma, não havia o interesse de pesquisar sobre o tema partindo de um novo e original ponto de partida, ou seja, desconsiderar toda a produção já existente. Dentro disso, a sua leitura parte de autores que afirmam o seguinte:

Se no decorrer do século XVIII começam a aparecer e a se consolidar as condições objetivas, internacionais e nacionais, que fazem da unificação nacional uma tarefa historicamente concreta (isto é, não só possível, mas necessária), é certo que só depois de 1789 esta tarefa se torna consciente em grupos de cidadãos dispostos à luta e ao sacrifício. Ou seja, a Revolução Francesa é um dos acontecimentos europeus que operam com mais intensidade para aprofundar um movimento já iniciado nas ‘coisas’, reforçando as condições positivas (objetivas e subjetivas) do movimento mesmo e funcionando como elemento de agregação e centralização das forças humanas dispersas em toda a península e que, de outro modo, teriam tardado mais a ‘concentrarem-se’ e a entenderem-se entre si. (Q. 19, 2001, pp. 1968-67)

Portanto, a Revolução Francesa era compreendida como um acontecimento fundamental para a formação do Risorgimento, o que não significa uma completa subordinação e passividade deste em relação aquela. Os franceses não construíram a unificação italiana, o que fizeram foi apenas impulsionar e organizar uma energia política e social já operante na península. Na verdade, o autor está indicando que a partir de um certo momento em diante, a história humana é iluminada por uma dialética específica e essencial

entre o nacional e o internacional. Fazendo uma analogia com o passado, quando a Itália deixou de ativar suas energias sociais embrionariamente nacionais, a Revolução da França representou ao Risorgimento, o que a Reforma protestante representou ao Renascimento – claro respeitando as diferenças específicas dos dois momentos históricos. Afinal, enquanto a experiência francesa teve um profundo impacto na Itália, os reformadores não, pelo menos em termos progressistas.

Então, a contribuição político-cultural do acontecimento francês foi decisiva para o avanço das forças já existentes na península. Mesmo não defendendo uma relação de dependência completa do nacional ao internacional, para Gramsci, nos países em que predomina a herança histórico-nacional conservadora, a penetração, em sua vida particular, de um movimento progressista externo é indispensável para impulsionar um processo contrário a tal tradição.

Para exemplificar o aspecto conservador da história italiana, o autor volta ao passado e argumenta que a Monarquia Absoluta européia foi uma derivação política da Era do mercantilismo, anunciando um novo momento e a moderna “civilização” nacional. E ai, então, ele questiona: “na Itália terá havido uma era do mercantilismo como fenômeno nacional?” Sua resposta se dá do seguinte modo: se na península o desenvolvimento mercantil tivesse sido orgânico entre os italianos, ele, ao contrário dos outros países da Europa, teria tornado ainda mais profundas, e talvez definitivas, as divisões entre os Estados regionais. Desse modo, o “estado informe e inorgânico em que as diversas partes da Itália se encontravam do ponto de vista econômico, a não-formação de fortes interesses constituídos em torno de um forte sistema mercantilista-estatal acabaram permitindo ou facilitando a unificação da Era do Risorgimento.” (Q. 19, 2001, p. 1961) Em outras palavras, se for para identificar um legado histórico-nacional italiano, transmitido ao seu

processo de unificação, isto é, ao Risorgimento, este é paradoxalmente o desligamento do seu mundo social em relação às forças progressistas internacionais e a sua pouca coesão político-cultural interna. A fragmentação e a postura econômico-corporativa na península era tão forte que caso o mercantilismo, compreendido como fenômeno não só italiano, tivesse se consolidado em suas estruturas sociais, os diversos Estados teriam criado raízes profundas impedindo, assim, a frágil mas necessária unidade nacional da península.

Justamente devido a essa tradição, pouco nacional, que Gramsci vai recorrer aos elementos progressistas externos, como forma de visualizar os fatores impulsionadores do

Risorgimento.

Tal maneira de compreender a história da Itália pôde ser percebida já quando o autor esteve em plena atividade política no PCI (Partido Comunista da Itália). Naquele momento, como foi possível notar no Capitulo 1, a principal referência era a Rússia soviética. E foi a partir dessa relação, entre o internacional e o nacional que ele pensou o conceito de “tradução”. Definido, não apenas mas também, em sua carta de 1932, dirigida à Julia Schucht, como sendo a capacidade de “conhecer criticamente duas civilizações e ser capaz de conhecer ambas utilizando a linguagem historicamente determinada da civilização na qual o material informativo será inserido”. (Cartas do Cárcere, 2005, p. 238)

Para demonstrar, de modo claro, como o autor estabelece o vínculo nação/mundo, basta ressaltar um diálogo entre ele e o intelectual Gioacchino Volpe. Gramsci o critica por ele defender a idéia de que apesar da Revolução Francesa ter sido fundamental para a concretização do Risorgimento, a Itália, na verdade, já tinha suas “tradições próprias”, sua “mentalidade própria”, seus “problemas próprios” e suas “soluções próprias”, todos responsáveis pela verdadeira raiz do movimento de unificação.

Estas observações de Volpe nem sempre são exatas: como se pode falar de “tradições, mentalidades, problemas, soluções” próprios da Itália? Ou, pelo menos, o que isto significa concretamente? As tradições, as mentalidades, os problemas, as soluções eram múltiplos, contraditórios, de natureza muitas vezes apenas individual e arbitrária, e não eram então nunca vistos unitariamente. As forças tendentes à unidade eram escassíssimas, dispersas, sem nexo entre si e sem capacidade de suscitar laços recíprocos, e isto não só no século XVIII mas, pode-se dizer, até 1848. Ao contrário, as forças opostas às unitárias (ou melhor, tendêncialmente unitárias) eram poderosíssimas, coesas, e, especialmente como a Igreja, absorviam a maior parte das capacidades e energias individuais que poderiam constituir um novo pessoal dirigente nacional, dando-lhes uma orientação e uma educação cosmopolita-clerical. Os fatores internacionais, e especialmente a Revolução Francesa, enfraquecendo estas forças reacionárias e desgastando-as, fortalecem por conseqüência as forças nacionais em si mesmas escassas e insuficientes. É esta a contribuição mais importante da Revolução Francesa, muito difícil de avaliar e definir, mas que se intui como de peso decisivo na preparação do movimento do Risorgimento. (Q. 19, 2001, pp. 1971-72)

Em outras palavras, o momento imediatamente pré-Risorgimento estava caracterizado pelo predomínio de forças conservadoras e cosmopolitas – somente enfraquecidas a partir de fora da península. Este é um importante exemplo de como o internacional pode contribuir para o fortalecimento do nacional, mostrando, ao mesmo tempo, como o nacionalismo pode ser anti-nacional. Ao que parece, é justamente a conjuntura interna das forças políticas, sociais e culturais, de uma dada “nacionalidade”, a responsável pelo caráter histórico-cultural da influência e penetração dos princípios morais e intelectuais de uma experiência estrangeira.

Aqui, também, estão em disputa diferentes visões interpretativas tanto sobre a história italiana, em geral, quanto sobre o Risorgimento, em particular. De qualquer modo, mesmo sendo importante para a unificação italiana, a penetração da onda revolucionária vinda da França se transformou na península na chamada “revolução passiva”, isto é, numa ação anti-popular. Seguindo esse caminho do enfrentamento teórico, Gramsci questiona a idéia naturalista e a-histórica de que a unidade nacional na Itália é algo existente desde o

Império Romano. Para ele, tal leitura era fruto de convicções fundadas no fanatismo nacionalista que buscam ofuscar as reais fraquezas de uma vida nacional italiana pouco coesa.

A recusa, ao longo da história, dos grupos de intelectuais em contribuírem para a criação de um “bloco nacional-popular”, originou a seguinte forma de ação político-social na Itália:

É neste terreno que a adesão orgânica das massas nacional-populares ao Estado é substituída por uma seleção de ‘voluntários’ da ‘nação’ concebida abstratamente. Ninguém pensou, precisamente, que o problema posto por Maquiavel, ao proclamar a necessidade de substituir os mercenários adventícios e indignos de confiança por milícias nacionais, só será resolvido quando também o ‘voluntarismo’ for superado pelo fato ‘popular-nacional’ de massa, uma vez que o voluntarismo é solução intermediária, equívoca, tão perigosa quanto o mercenarismo. (Q. 19, 2001, p. 1980)

Nesta passagem, o autor, além de recolocar a importância e atualidade das idéias de Maquiavel para se pensar um movimento progressista e nacional, também direciona sua crítica ao modo como certos movimentos atuam sobre a realidade. No entanto, além do “voluntarismo”, toda e qualquer ação caracterizada por atos heróicos deveria ser negada. Por exemplo, no Risorgimento, Garibaldi foi um claro representante do heroísmo como força histórica. Se um movimento político-social determinado estiver baseado em “personagens abstratos” e “mitológicos” e não na “vontade coletiva nacional-popular”, poderia certamente ser definido como “fetichista”. (Q. 19, 2001)

Mesmo apresentado significativas debilidades, o Risorgimento foi uma das únicas tentativas sérias, ao longo da história italiana, disposta a “nacionalizar” as massas populares. (Q. 19, 2001) Neste caso, não teve êxito por não ter atendido a principal exigência da maioria da população: a reforma agrária.

Sobre a idéia de que a Itália sempre foi historicamente uma nação, concepção bastante enraizada nas massas populares, Gramsci se mostra preocupado. Devido a difusão de tais idéias, tornava-se difícil fazer o “senso comum” compreender que a Itália formada em 1870, nunca havia existido antes e nem poderia existir. Em sua opinião, o “senso comum” estava sendo levado a acreditar que aquilo construído no final do século XIX, sempre existiu. Em outras palavras, estavam aceitando o argumento segundo o qual a Itália sempre se caracterizou como uma nação unitária, porém devido às forças estrangeiras teria sido sufocada. “Numerosas ideologias contribuíram para reforçar esta crença, alimentada pelo desejo de aparecer como herdeira do mundo antigo, etc; estas ideologias, de resto, tiveram um papel notável como terreno de organização política e cultural, etc.” (Q. 6, 2001, p. 744) Talvez, o fascismo possa ser um exemplo.

Diante disso, era preciso desmistificar tal ideologia junto às classes populares, pois a clareza sobre o seu passado histórico era uma condição elementar para a construção do “bloco nacional-popular”.

O que existiu na Itália há muitos séculos, foi uma espécie de “unidade cultural” entre os intelectuais italianos, mais especificamente desde 1200, isto é, “a partir de quando se desenvolveu uma língua literária unificada (o vulgar ilustre de Dante): mas este é um elemento sem eficácia direta sobre os acontecimentos históricos, embora seja o mais explorado pela retórica patriótica, e, de resto, não coincide nem expressa um sentimento nacional concreto e operante”, ou seja, “popular-nacional”. Um outro elemento importante e antigo, presente na realidade da Itália, corresponde à consciência da necessidade da independência da península italiana em relação à “influência estrangeira, muito menos difundido do que o primeiro, mas, por certo, politicamente mais importante e historicamente mais fecundo em termos de resultados práticos; mas também, deste

elemento, não deve ser exagerada a importância e o significado e, especialmente, a difusão e a profundidade.” Sintetizando, “estes dois elementos foram próprios de pequenas minorias de grandes intelectuais e jamais se manifestaram como expressão de uma difusa e compacta consciência nacional unitária.” (Q. 6, pp. 745-46, 2001) O nacional, portanto, fica restrito a pequenos círculos das elites político-culturais. O que existia aqui era um certo “nacional-elitismo”.

No documento O nacional-popular em Antonio Gramsci (páginas 103-111)