• Nenhum resultado encontrado

3. COLLORGATE: O PRIMEIRO GRANDE CASO

3.3 O JULGAMENTO CRIMINAL NO SUPREMO: AÇÃO PENAL Nº 307

3.3.2 O DEBATE SOBRE A PROVA DO NEXO DE CAUSALIDADE ENTRE

Um dos fundamentos da decisão estava relacionado à pessoalidade das relações políticas e sociais estabelecidas entre os acusados. No caso, a defesa sustentou que o ex-Presidente não teria realizado nomeações de cargo em razão de vantagens indevidas, mas por reconhecer a competência de "amigos próximos" para o desenvolvimento das funções de determinados cargos. A maioria dos ministros sustentou que não haveria provas nos autos de que tais relações pessoais indicassem uma relação de mercado ou troca sobre o sagrado, ou seja, de recebimento de um ato de ofício feito por receber ou sobre a promessa de perceber uma vantagem indevida.

O argumento jurídico do Ministro relator Ilmar Galvão é centrado na necessidade de nexo de causalidade entre a conduta do funcionário público de receber, solicitar ou aceitar promessa de vantagem com a realização ou omissão do ato funcional de sua competência. Ou seja, não seria necessário que praticasse o ato, mas que fosse de sua competência aquele ato e que se provasse que recebeu a vantagem ou a receberia para fazer ou deixar de fazer aquele ato.

Nenhum dos depoimentos, todavia, fazia menção a Fernando Collor saber das propostas que Paulo Cesar Farias fazia aos depoentes, seja por dizerem que havia solicitado favorecimento no contrato sem oferecer qualquer vantagem, seja por meramente reportar que seria de interesse do Planalto. Os depoimentos foram concluídos como insubsistentes para prova que o ex-Presidente havia feito ou deixado de fazer qualquer ato ofício para receber uma vantagem indevida. O voto revisor do Ministro Moreira Alves igualmente suscitou que os depoimentos não indicavam claramente o conhecimento do acusado Fernando Collor das tratativas feitas por Paulo César Farias ou pelo Embaixador Marcos Coimbra. Dessa forma, não havia provas substantivas de prática delitiva por parte do ex- Presidente.

Fernando Collor, em seu depoimento, afirmou que conhecia o empresário Wagner Canhedo havia vinte anos e que, por isso, havia solicitando a ele apoio junto à Petrobras. Acreditou ser uma operação regular, pois já tinha sido feita em relação a outras empresas como VARIG e TAM. Não teria cobrado qualquer vantagem para realizar esse favor e que o havia feito por reconhecer que Canhedo era um "homem esforçado e lutador". Afirmou que favoreceu a empresa VASP, mas sem somar a elementar de receber vantagem em razão disso. São razões comuns dentro do discurso político, pois recorre à pessoalidade como fator motivador de sua decisão. Essa justificativa, por exemplo, foi anotada por Bezerra (1995) ao estudar os casos Valença, Capemi e Coroa-Brastel, assim como Abreu (2006) destacou em relação ao caso Mensalão que será estudado a seguir.

O que se destaca desse depoimento é que, ao olhar do direito, não há um espaço para pensar que a pessoalidade e os indícios indicavam que se fazia um ato de ofício como Presidente da República em contrariedade expressa à normatividade ou que desrespeitava a finalidade, ou seja, os princípios gerais da criação de uma série de regras para o sistema jurídico quanto ao tema. Também não, contrariava os princípios constitucionais que já mencionamos da moralidade e da probidade administrativa constantes no art. 37, caput e §4º, da CF/88. Tal conduta poderia não ter sido considerada atípica, mas sim como crime de

prevaricação (art. 319 do CP).67 A interpretação eleita das normativas, todavia, foi

escolhida de forma a ler a conduta como um “desvio” ao invés de um “crime”. Poderíamos considerar algumas razões para tanto.

Como inicialmente trabalhado no segundo capítulo, a pessoalidade em si não é vista pela política como elementar de relação corrupta, pois ela se faz presente em uma forma de fazer política que permite o controle das parcialidades. A decisão da Corte, assim, aparenta refletir essa visão do campo político, já que não considera a pessoalidade das relações como elementar de suspeita. A decisão justamente afirma a falta de provas de que tais relações de pessoalidade consideradas legítimas tenham extrapolado os limites do sagrado do que poderia ou não ser trocado, bem como sobre uma troca que se colocasse de forma mercantil. Outro motivo, também, seria que a possibilidade de se desclassificar a conduta de corrupção passiva para prevaricação poderia, igualmente, recair no debate sobre a ausência de provas, visto que não havia provas de um ato de ofício relacionado ao interesse pessoal. Ao fim, desse modo, em razão do princípio do in dubio pro reo, não haveria possibilidade de condenar quando há dúvida sobre a autoria e materialidade do crime. O acusado seria absolvido pela ausência de provas sobre sua suposta conduta.

A responsabilidade criminal não recairia sobre os agentes públicos até estar provado que houve uma relação mercantil ou que estabelecesse uma troca sobre um sagrado, ou seja, algo que não poderia ser trocado dentro das relações políticas. O apoio político em uma transação junto à Administração Pública estaria em uma zona cinzenta, na medida em que não viola expressamente nenhuma previsão legal e não se tem provas do recebimento de qualquer vantagem em razão dela. Não haveria provas, assim, de que o interesse particular estaria acima do público. A questão é que, como relatado no tópico anterior, caso fossem consideradas válidas as gravações telefônicas, a Corte poderia ter considerado que havia prova de atos de ofício feitos pelo ex-Presidente e o resultado do julgamento poderia ter sido concluído de forma diversa.

67 Código Penal de 1940, art. 319: “Art. 319 - Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de

ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa”.

3.4 GARANTIAS CONSTITUCIONAIS E AS DIFERENÇAS ENTRE A