A discussão a respeito do caráter nacional dos partidos surgiu, na Assembléia Nacional Constituinte, durante as reuniões de trabalho da Subcomissão do Sistema Eleitoral e Partidos Políticos. Além de aparecer em manifestações individuais de constituintes, em determinados momentos constituiu em debate mais aprofundado, com a participação dos constituintes e de convidados.
Em uma dessas discussões, o jurista João Gilberto cogitou a hipótese de aceitação de partidos regionais no país, sugerindo uma forma de limitar a criação desenfreada dessas agremiações:
“Se a nossa vontade for esta, podemos estabelecer uma vida permanente para esses partidos, e aí, para ter alguma regra que impeça a pura e simples pulverização do quadro de 200, 300 partidos a maior parte deles escritórios que agenciam aluguéis de sigla que muito se critica estabeleça um critério para o partido concorrer na eleição, ou seja, ele é livre para criar. Os partidos políticos poderão ser criados às centenas, mas para concorrer a uma eleição, o partido teria que provar uma coisa: ter 0,5% dos eleitores daquela circunscrição filiados. Então, 0,5%, no município “X”, ele pode concorrer naquele município. Meio por cento do Estado, num determinado Estado, num determinado Território, ele pode concorrer naquela circunscrição. Meio por cento do País, ele pode concorrer às eleições federais.”360
No bojo dessa discussão, o cientista político Bolivar Lamounier manifestou seu apoio à idéia dos partidos regionais como instrumento de fortalecimento da federação brasileira, apoiando a redação da Comissão Afonso Arinos, da qual foi membro. Para ele, não
360 Anais da Assembléia Nacional Constituinte, Subcomissão do Sistema Eleitoral e Partidos Políticos,
p. 79. Disponível em: <http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/anais/constituinte/4a%20- %20SUBCOMISSÃO%20DO%20SISTEMA%20ELEITORAL%20E%20PARTIDOS%20POLÍTI COS.pdf> (último acesso em 18.09.2008).
haveria mais no país o risco de oligarquização estadual da política brasileira nos moldes anteriores a 1930:
“Nessa linha, também se inscreve a minha aceitação da idéia de Partidos estaduais. Considero que o Projeto Afonso Arinos, de fato, contempla uma federalização mais efetiva do País.
[...]
Esse é um traço também da proposta da Comissão Afonso Arinos. A idéia dos Partidos nacionais acredito que era absolutamente necessária, quando estávamos construindo o poder nacional, quando a força das oligarquias regionais era uma ameaça à sobrevivência do poder público central no Brasil. Tenho a impressão de que esse não é mais o País em que vivemos.
[...]
Este é um País da população gigantesca, extremamente diversificado. O que nos cumpre é organizar bem o Poder federal e deixar que a legislação se enriqueça e admita, no nível estadual e municipal, uma variedade muito grande de expedientes. Um determinado Estado precisará de um Partido ecológico: noutro Estado, não haverá condições para esse Partido. Se submetermos esse Partido a requisitos organizatórios muito fortes, como muito bem mostrou o Dr. João Gilberto, esse Partido não existirá, porque ele não poderá existir a nível nacional. Se afrouxarmos muito os requisitos, correremos o risco de uma grave fragmentação e de uma grave instabilidade partidária na Câmara Federal.”361
Francisco Weffort, também convidado para os debates, entendia que a Constituição deveria exigir um patamar mínimo de representatividade aos partidos políticos, a ser medida eleitoralmente, mas mostrava-se favorável à possibilidade de existência de partidos de atuação regional:
“É uma questão a discutir se devemos adotar o critério dos 5%, dos 3%, dos 2%, isso é uma questão de medida a examinar. Mas parece-me que sim, é de prudência democrática que asseguremos a capacidade de representação àquelas correntes de opinião que assegurem, que garantam certa representatividade. Agora, não creio que se deva raciocinar apenas em plano da representatividade nacional, da representatividade eleitoral nacional, estadual e, inclusive, municipal. Não vejo por que se deva impedir, por exemplo, que um partido político que não alcance a representatividade em plano nacional e, eventualmente, estadual, tenha a sua representação parlamentar assegurada em plano municipal. Eu não vejo por que
361 Anais da Assembléia Nacional Constituinte, Subcomissão do Sistema Eleitoral e Partidos Políticos,
uma Constituição devesse tornar obrigatória a formação de partidos nacionais no País, embora devêssemos estimular essa formação. Penso que podemos admitir, num País com toda a diversidade brasileira, um partido com alcance regional, como, aliás, já tivemos em Minas, no Rio Grande do Sul, pequenos partidos com alcance regional, com capacidade de impacto político, especialmente, impacto ideológico, significativo em plano nacional. Agora, os Partidos que alcancem capacidade de representação parlamentar deveriam ter acesso igual aos meios de comunicação de massa no processo da eleição.
[...]
Por exemplo, creio que isto pode criar uma dificuldade, se se pensar em partidos municipais ou em partidos estaduais, porque os meios de comunicação nem sempre se limitam tecnicamente ao Município ou ao Estado, mas é uma questão técnica a ser vista depois.”362
Ao longo das discussões da subcomissão, muito se debateu sobre os critérios para a caracterização de um partido nacional. Em geral, as propostas giravam em torno da obtenção de determinado patamar de votação nacional para a Câmara dos Deputados, ou à obtenção de determinado grau de representação no Congresso Nacional, medido pelo número ou percentual de parlamentares eleitos. Contudo, é de se destacar a cogitação expressa da possibilidade de que fosse permitida a criação de partidos de âmbito regional, o que não prosperou no restante da tramitação das discussões e no texto final aprovado.