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Debates Insubmissos: Assentando as Bases da Interseccionalidade

O ​éthos e ​devir 66 ​das Relações Internacionais instigam e pulverizam debates, muito frequentemente por seu caráter interdisciplinar. Isso, no entanto, não isenta essa disciplina também de sedimentar pilares de saber – como já dito anteriormente, atribuídos a uma pretensão científica autodeclarada. Ela pretende deter certo monopólio teórico sobre o Internacional, trazendo para si o atributo racionalista de ​mito fundacional​(SMITH, 2000), ou seja, antever os caminhos mais próximos a cernes e primórdios com propósitos de legitimação. Entrementes, o debate das Relações Internacionais talvez implicasse num exercício quase obrigatório de ​alteridade​, já que de uma forma ou de outra, não se restringe a um único território e, teoricamente, se pretende holístico. Muito pelo contrário é o que ocorre, no entanto, já que não só há uma ênfase exacerbada no papel dos Estados como, frequentemente, a própria teoria está a serviço dessas instituições e, quando não, há a personificação do ser racional e competitivo dentro do marco civilizacional da burguesia [o fruto imediato das revoluções francesa e americana], ou simplesmente, a da brancura e masculinidade hegemônica (CONNELL, 2005).

Assim, pôr em evidência gênero, raça e classe no emaranhado teórico das relações internacionais não é apenas de cunho político, na tentativa de resgatar, ao menos, alguma parcela de estudos fora dos domínios eurocêntricos, classistas e sexistas, mas de trazê-la com um engajamento meta-teórico. Meta-teórico ​crítico​, compreendendo que a elaboração das bases da interseccionalidade existe com propósito – não só a exegese da teoria pela teoria, e que essas unidades estão em constante diálogo com outros paradigmas, sobretudo do Feminismo. Não que esse, por outro lado, tenha pacificamente abraçado a especificidade das mulheres negras, interseccionadas ainda a outros marcadores sociais – sexualidade, faixa etária, etnia, condição físico-mental, cis ou transgeneridade, orientação sexual, já que o próprio Feminismo foi e é terreno de disputas das mais diversas. A razão de ser das RI nasce dos interesses do homem de Estado, quase inequivocamente branco.

As bases para análise aqui adotadas, aliás, os pressupostos, apesar da multiplicidade teórica que estudar gênero, raça e classe pode acarretar , serão os do Feminismo Interseccional. E 67

66 Ser e dever ser.

67 Como já enumerado no decorrer de todo capítulo, prescrevendo a Pós-Colonialismo, Marxismo,

mesmo esse é muito amplo, cheio de vicissitudes e especificidades, e contemporaneamente já ultrapassa as questões putativas ao Feminismo Negro. A ​interseccionalidade acabou sendo bastante útil para formular novas estratégias de compreensão de mundo, não só para militância de mulheres negras. Compreender que o gênero não opera apartado de outras opressões é um eixo que, além de fundamental, é estratégico.

Muitas pesquisas acadêmicas dentro do Feminismo não só são recheados com questões de lugares de fala, mas se propõem a discuti-las, endereçá-las – quer seja ao Patriarcado, ao Sistema de Reprodução ou Sistema Sexo/Gênero, no âmbito macrossocial, quer seja à análise da produção acadêmica feminista em si. Ao que parece, a pesquisa que se direciona aos estudos de gênero, de alguma forma, traz consigo uma imprecisão, de tão diversa, e não busca os meios de pôr fim às perguntas, mas explorar o potencial crítico que reside nelas. Ademais, esse lugar, apesar da multiplicidade de abordagens e cobertura de temas, também desvenda nuances epistemológicas de forma que gênero, apesar de ser bloco essencial para análise, não restringe o campo de estudo – pois gênero se refere, sobretudo, a disparidades socialmente construídas (não biologicamente produzidas), significados historicamente contestados de que ambos homens e mulheres prescrevem à masculinidade e feminilidade (ENOLE, 2007) e de que a primeira não só se pretende como experiência universal, mas também como neutra acima de qualquer prerrogativa. Essas disparidades, como reiterado no decorrer desse capítulo, duvidosamente são exclusivas a gênero.

Em tempo, teorias coerentes num mundo obviamente incoerente são ou tolas e desinteressantes, ou opressivas e problemáticas, dependendo de qual grau de hegemonia elas manejam alcançar, como bem nos memora Sandra Harding, e que teorias coerentes num mundo aparentemente coerente podem até ser mais perigosas, para o mundo sempre muito mais complexo do que infelizmente muitas teorias hegemônicas podem alcançar (HARDING, 1986). Ou seja, teorias imperfeitas me são muito mais interessantes para auxiliar na compreensão de um mundo repleto de contradições. Mesmo que as preocupações em torno68 de Gênero, Raça e Classe estejam distribuídas numa profusão de correntes, há certa dificuldade em reuni-las e embalsamá-las numa única teoria, ou mesmo num único texto. Mas essa urgência surge não somente pela necessidade teórica, mas pelo quadro cada dia

68Sempre parcial, no sentido que acredito em tentativas de imparcialidade, mas nunca numa imparcialidade pura

e acima de prerrogativas, como também numa compreensão que não é completa, já que há diversas lacunas num mundo crescentemente complicado as quais não manejo nem alcançar, que dirá integralmente entender.

mais dramático dos movimentos sociais transnacionais, ou das conjunturas contemporâneas como as enxergo – reformas sociais com drásticas guinadas ao individualismo e neoliberalismo, recrudescimento de práticas racistas, misóginas, homofóbicas, lesbofóbicas, transfóbicas, classistas. Enfim, como bem pontua Achille Mbembe,

É certo que a ligação entre os dispositivos do mercado e os dispositivos de Estado não é absoluta. Mas, nas circunstâncias contemporâneas, ela tem como efeito facilitar a transformação do Estado liberal numa potência de guerra, numa altura em que, bem o sabemos, o capital não só nunca pôs termo à fase de acumulação primitiva, como sempre foi recorrendo a subsídios raciais para executar (MBEMBE, 2014).

Compreender essa potência de guerra que se tornou o Estado liberal, aludindo também à sua construção histórica, aos tentáculos que ele maneja alcançar dentro de setores da sociedade civil e movimentos sociais, é parte essencial para o entendimento das resistências a serem aqui trabalhadas. A elaboração conceitual de se atentar para um estado quase permanente de guerra que, por outro lado, não esteja à serviço das instituições , sobretudo quando essa 69 guerra envolve luta de populações inteiras por sobrevivência, é se atentar também para um fato: enquanto assimetrias estruturais de gênero, raça e classe persistirem, haverá contestação, haverá conflito.