Uma Proposta de Emenda Constitucional – PEC sustenta-se, presumivelmente, em sólidas premissas, vez que necessita de quórum privilegiado para aprovação e que representa uma alteração de deter- minada “concertação” em certo momento histórico. Considerando que a grande mídia empresarial não tem construído reportagens de maior fundamentação, compreendemos que a análise dessa Proposta de Emenda Constitucional poderia vir a trazer bases sólidas para a defesa da redução da maioridade. Dessa maneira, a PEC n° 171/93 traz alguns elementos em sua justificativa sobre os quais nos debruçaremos a partir de agora.
Para o autor da proposta, parlamentar Benedito Domingos, no tocante à inimputabilidade, “o critério adotado para essa
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avaliação atualmente é o biológico” (Brasil, 1993, p. 23062). Prossegue na Justificativa ao projeto, argumentando que
Observadas através dos tempos, resta evidente que a idade cronológica não corresponde à idade mental. O menor de dezoito anos, considerado irresponsável e, consequente- mente, inimputável, sob o prisma do ordenamento penal brasileiro vigente desde 1940, quando foi editado o Estatuto Criminal, possuía um desenvolvimento mental inferior aos jovens de hoje da mesma idade.
O parlamentar partira de falsa premissa para chegar a uma con- clusão sem fundamento. A partir dessa questão, ele questiona o porquê de um adolescente poder votar ou trabalhar antes dos 18 anos – segundo ele, a partir de uma avaliação também biológica – e não responder cri- minalmente por seus atos, donde conclui que “hoje, um menino de 12 anos compreende situações de vida que há algum tempo atrás um jovenzinho de 16 anos ou mais nem sonhava explicar” (Brasil, 1993, p. 23063).
Apesar do estabelecimento da maioridade em dezoito anos, tal determinação não se funda apenas no elemento biológico, mas em todos os aspectos envolvidos nessa fase do ciclo de desenvolvimento. É verdade que o adolescente com 16 anos pode votar; mas também é proibido de comprar bebidas alcoólicas ou cigarro. Ele pode vir a tra- balhar, mas é vedado o seu labor em condições insalubres, perigosas ou trabalho noturno, dentre outras restrições. A redução da maioridade implicaria a imputabilidade penal a todos, aí sim, em um critério mera- mente biológico que, como se percebe de rápida análise anterior, não foi o único critério considerado para regular tais situações.
Prossegue, pois, argumentando que “o noticiário da imprensa diariamente publica que a maioria dos crimes de assalto, de roubo, de estupro, de assassinato e de latrocínio, são praticados por menores de dezoito anos, quase sempre, aliciados por adultos” (Brasil, 1993, p. 23063), a partir do que conclui:
Com isto, o que está ocorrendo é o aumento considerável da criminalidade por parte de menores de dezoito anos de idade que delinquem e que, carentes de institutos adequa- dos ao seu recolhimento para reeducação ou correção de comportamento, após curto afastamento do meio social em estabelecimentos reformatórios voltam inevitavelmente às práticas criminosas.
Ora, tal discurso se constrói sem nenhuma base sólida, de fácil desconstrução, como veremos adiante. Na realidade, parte-se do senso comum (se aumentou, em que proporção? quais crimes? em que condi- ções? a partir de que condições objetivas e com que objetivos se propõe tal emenda à constituição?) para se embasar uma justificativa que exige argumentos sérios e rigorosos, técnica e politicamente. Ao final de sua argumentação, todavia, percebe-se, para além do senso comum, o que move tal proposta e sua tentativa de embasamento. O proponente argu- menta que
o moço hoje entende perfeitamente o que faz e sabe o cami- nho que escolhe. Deve ser, portanto, responsabilizado por suas opções. Dar-lhe esta condição é uma ajuda que as leis praticarão. Antes de qualquer cometimento, o moço estará habilitado a calcular o desfecho que suas atitudes terão. A uma certa altura, no Velho Testamento, o profeta Ezequiel nos dá a perfeita dimensão do que seja a responsabilidade pessoal. Não se cogita nem sequer de idade: “A alma que pecar, essa morrerá (Ez, 18)”. A partir da capacidade de cometer o erro, de violar a lei surge a implicação: pode tam- bém receber a admoestação proporcional ao delito – o cas- tigo (p. 23063).
E, por fim,
Enquanto não se ajuda o jovem com mais de dezesseis anos a entender a vida como ela realmente é, dando-lhe
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oportunidade de discernir o que é a liberdade de conduta e a disciplinar os seus limites a prostituição infantil continu- ará prosperando, os filhos da delinquência continuarão a ser uma realidade crescente (p. 23063).O discurso, então, está nu. Para além do achismo, do senso
comum, da resposta demagógica e eleitoreira a uma cobertura jorna-
lística empresarial de péssimo conteúdo e profundidade, vê-se o mora- lismo e o sectarismo que fundaram o Código de Menores aflorarem sem pudores. A laicidade do Estado é atingida e a Bíblia aparece como justi- ficadora da redução da maioridade penal. O debate sai da esfera pública, da política, e deságua no campo da moral, uma moral que, sabemos – tendo em vista quais setores são pinçados na seletividade do direito penal – apresenta classe e cor e aspira a isolar tal juventude em “estabe- lecimentos reformatórios”.
Da justificativa desta proposta de emenda constitucional, por- tanto, não encontramos nenhum embasamento técnico nem político que dê pujança à ideia da redução. Ao contrário, aparecem indícios de elementos para além do senso comum e da demagogia, atrelados ao campo da moral, que esvaziam o campo da política e, aparentemente, vinculam-se a interesses conservadores.