2. CONCEITOS COMPLEMENTARES PARA UMA IGREJA-LÍQUIDA
2.1. EVANGÉLICOS COM UMA NOVA PERTENÇA RELIGIOSA E
2.1.3. Decepcionados com a graça (ROMEIRO, 2005)
Diferente do livro anterior que se propunha a “renegociar” valores, Decepcionados
com a graça busca justamente analisar alguns dos valores essenciais à fé cristã ortodoxa que
já estariam sendo negociados. Principalmente, aqui no caso, a doutrina da graça, uma das mais importantes da tradição cristã.
O livro, editado a partir da tese de doutoramento do autor, é um “olhar analítico sobre um movimento religioso que, em virtude de seu poder de mobilizar multidões, sua presença maciça na mídia e seu crescimento acelerado, exerce extraordinário impacto na sociedade brasileira.” Esse movimento seria o neopentecostalismo. O estudo de caso principal seria a Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), fundada pelo “missionário” R. R. Soares.
Romeiro enfatiza desde a introdução da obra à palavra “decepcionados”, como algo inerente ao movimento neopentecostal por ele pesquisado.
Na primeira parte ele fala da trajetória histórica do neopentecostalismo, ou do surgimento dele a partir do pentecostalismo, ainda que de forma indireta.
No capítulo 1, de início, o autor faz breves relatos acerca dos movimentos religiosos cristãos chamados por ele de “periféricos”, tais como o Montanismo, o Pietismo, o Metodismo e o Pentecostalismo, e sua influência ao longo da história da igreja.
Depois, dirigindo-se mais especificamente ao nosso país, Romeiro discorre sobre o Pentecostalismo no Brasil e a chegada da Congregação Cristã no Brasil (CCB), a Assembleia de Deus (AD), Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), O Brasil para Cristo (OBPC), a Deus é Amor (DEA) e finalmente a Igreja de Nova Vida (INV), cujo fundador Robert McAlister é qualificado como “o agente catalisador do neopentecostalismo no Brasil”. Isso provavelmente se deve ao fato de que dois dos principais líderes neopentecostais de hoje terem sido “fruto” desta igreja e deste movimento: Edir Macedo e R.R. Soares. Ele também destaca as mensagens do McAlister sobre demonologia e dinheiro como as principais doutrinas propagadas pelo fundador e líder principal, e dizendo que elas teriam apenas uma “roupagem diferente” nas igrejas neopentecostais atuais.
A seguir, ele discorre longamente sobre o surgimento do neopentecostalismo, procura defini-lo e destaca suas principais denominações procurando informar ao leitor sobre as características principais de cada uma delas, sua forma de governo e organização.
Já aqui, Romeiro destaca a estrutura de governo da IIGD, bem como sua forma característica de ministério pastoral, conforme informações que ele teria recebido do assessor do missionário R. R. Soares, Éber Cocareli.
No capítulo 3, ele relaciona os prováveis fatores que teriam contribuído para o crescimento do neopentecostalismo no Brasil, a saber: Liderança carismática, mudança no paradigma nos usos e costumes, uma liturgia mais descontraída, o fator “evasão” na Igreja Católica, e finalmente, a excelente utilização da mídia, destacando mais uma vez a forma como a IIGD utiliza esse recurso em prol de seu crescimento.
Na segunda parte ele fala dos aspectos teológicos do neopentecostalismo, e logo de início destaca a influência e importância da confissão positiva para esse grupo e relaciona alguns de seus principais e mais populares autores como Kenneth Hagin, T.L. Osborn e Benny Hinn – todos com alta vendagem de livros no país, por longo tempo.
Além disso, segundo Romeiro, esse grupo fez a opção por uma hermenêutica mais voltada para uma visão vetero-testamentária, em que os símbolos e pontos de contatos da
religião estariam mais próximos da audiência a ser buscada. Outro diferencial teria sido suas liturgias mais alegres e abertas, com menos ou nenhuma preocupação na manutenção do modelo norte-americano de culto e suas características mais formais e menos espontâneas, além dos elementos que desafiavam os cultos-afros e seus personagens que até então representavam a força que o mal teria sobre as centenas ou milhares de vidas que participavam dos cultos e libertação e de vitória na vida financeira.
No final desta parte da obra, já no capítulo 7, Romeiro fala novamente sobre “esperanças e decepções”, argumentando que muitos são os que entram como novos adeptos para esse cristianismo esperançosos e nessas igrejas se decepcionam. Para fundamentar sua argumentação e pesquisa, Romeiro ainda apresenta casos concretos de decepcionados com a IURD, a IIGD e a Renascer, com testemunhos pessoais relatados por aqueles que seriam vitimas de falsas promessas em nome de Deus.
No final deste capítulo, Romeiro entra no assunto “nômade da fé”, que é o tema que nos interessa mais objetivamente nesta pesquisa, ligando esse nomadismo a decepções, e lembrando que no passado, quando o fiel se sentia decepcionado, ele aguardava a ação de Deus de forma resignada, em vez da opção atual de mudar de grupo. Romeiro (p.159) ainda destaca que “existe hoje no Brasil um contingente significativo de evangélicos, principalmente nos grandes centros urbanos, que estão sempre circulando de igreja em igreja”. E ainda completa dizendo que “a preferência de muitos é visitar grandes igrejas e diluir-se na multidão”.
Ao que parece, Romeiro foi, talvez, o primeiro autor definidamente pastor e evangélico a alertar sobre um certo desigrejamento em sua obra publicada por uma editora não acadêmica, e a utilizar o conceito de “nomadismo religioso”, algo até então pouco falado dentro das igrejas evangélicas, até por conta do momento triunfante devido ao aumento do percentual dos evangélicos que impressionou a muitos no Censo 2000.
Ele ainda destaca (p.160) que “a igreja midiática (leia-se aqui neopentecostal) alimenta o trânsito religioso. É ela quem gera os mecanismos para convencer os fiéis, logo transformados em consumidores, a ocupar um assento dentro de seus templos”.
Na terceira parte da obra, ele foca sua pesquisa na IIGD e logo no capítulo 8 expõe de forma breve, para situar o leitor, a doutrina da Graça. Fala o que ela é, como se evidencia na vida dos filhos de Deus. Fala sobre as bênçãos de Deus, de como Jesus a via, apesar de não haver na Bíblia registro de ele ter pronunciado esta palavra [graça], e de como ela é surpreendente.
No capítulo 9, Romeiro fala do sofrimento e da esperança segundo a Bíblia e a contribuição de Jurgen Moltmann para o desenvolvimento do tema esperança a partir da Segunda Guerra Mundial e finalmente diz que “o alvo da sociedade moderna é alcançar a felicidade sem passar por sofrimentos.”
Neste mesmo capítulo ainda, o autor discorre sobre o tema da “oração não atendida”, apontando as incoerências de Kenneth Hagin e sua literatura, e do próprio R.R. Soares, em contraposição aos ensinos de Moltmann. E por fim, utiliza a primeira carta de Pedro como fundamentação em sua argumentação conectando a esperança do cristão como o sofrimento, a ressurreição e o amor, sendo este, segundo ele, o sentimento que motiva os cristãos a voluntariamente enfrentarem suas dificuldades.
No último capítulo, para mais uma vez criticar a forma como o neopentecostalismo encara e ensina sobre o sofrimento, o autor destaca como contraponto a contribuição de Casiano Floristán, que é defensor do que ele chama de uma “teologia prática especial”, a qual ele apresenta, sob cinco ângulos, como deveria ser a ação da igreja: kerigma (missão),
didaskalia (catequese), leitourgia (liturgia e homilética), koinonia (comunidade) e diakonia
(serviço).
Depois de comentar cada um dos ângulos e a forma como o neopentecostalismo se esquiva e se opõe a eles, Romeiro propõe “caminhos” práticos para a igreja exercer uma ação pastoral de restauração e acolhimento.
Por fim, ele destaca ainda as fortes e contundentes palavras de Floristán, quando este diz que “o objetivo da evangelização é a conversão, que produz ao mesmo tempo uma mudança no cristão e na sociedade. A evangelização suscita fé e conversão pessoais, eclesiais e sociais. Ela pretende dar sentido e direção cristã à totalidade da existência”.
Em suas considerações finais, Romeiro (p. 230) destaca que “A pregação triunfalista sustentada nos testemunhos [...] de cura e prosperidade de seus adeptos são vitais para atrair novos membros e dar autenticidade à mensagem.” Mas, deixa claro sobre o neopentecostalismo que “há decepções, perdas, lutos e lágrimas no movimento”, mas que “no movimento neopentecostal só tem voz quem tem uma história de sucesso para contar”.
Romeiro tenta, portanto, em sua obra, voltar ao antigo e não apenas ir desesperadamente em busca do novo. Sua obra tem o tom de reforma, mas sem derrubar, ao contrário de outros que propõem uma demolição quase que total da igreja e a reconstrução a partir do nada.
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