3.4 HIPÓTESES DE INAPLICABILIDADE
3.4.4 Decisão de inconstitucionalidade com base em precedente do Supremo Tribunal
O parágrafo único do art. 949 do Código de Processo Civil dispensa a cláusula de reserva de plenário na hipótese de já haver pronunciamento do STF ou do próprio Tribunal sobre a questão constitucional.141
Igualmente, o art. 932, V, do Código de Processo Civil estabelece que o Relator do Tribunal pode negar ou dar provimento ao recurso que esteja em harmonia com a jurisprudência do STF, aplicando-se também em arguições de inconstitucionalidade142.
Essas exceções consistem na positivação da jurisprudência dos Tribunais Superiores, à época do Código de Processo Civil de 1973, com o fito de racionalizar a jurisdição constitucional e reduzir o número de processos a serem julgados, conforme a exposição de motivos do Projeto de Lei nº 4.070/1998143.
141 “Art. 949. Parágrafo único. Os órgãos fracionários dos tribunais não submeterão ao plenário ou ao órgão
especial a arguição de inconstitucionalidade quando já houver pronunciamento destes ou do plenário do Supremo Tribunal Federal sobre a questão.” BRASIL. Lei nº 13.105 de 2015. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em 10 de maio de 2018. Não paginado.
142 “Art. 932. Incumbe ao relator:
IV - negar provimento a recurso que for contrário a:
a) súmula do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça ou do próprio tribunal;
b) acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos;
c) entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; V - depois de facultada a apresentação de contrarrazões, dar provimento ao recurso se a decisão recorrida for contrária a:
a) súmula do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça ou do próprio tribunal;
b) acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos;
c) entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência;”
Idem, ibidem. Não paginado.
143 A Exposição de motivos do Projeto de Lei nº 4.070/98 expressou que se tratava de jurisprudência consolidada.
BRASIL. Exposição de motivos do Projeto de Lei nº 4.070/1998. Diário da Câmara dos Deputados de 15 de janeiro de 1998, p. 837-840.
Gilmar Mendes observa que se trata de uma forma de equiparar os efeitos das decisões em sede de controle abstrato-concentrado e concreto-difuso de constitucionalidade, bem como otimizar a uniformidade das decisões judiciais144.
Teori Zavascki também entendia que isso importa na vinculação da decisão do STF em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário145.
Similarmente, José Levi Mello do Amaral Jr. assevera que o julgamento do incidente de inconstitucionalidade por Tribunal se torna paradigma para casos semelhantes. A exceção à cláusula de reserva de plenário seria, pois, uma questão de bom senso e economia processual146. Com base nesses dispositivos legais, STF tem a concepção de que o relator pode dar provimento ao recurso extraordinário interposto contra decisão de Tribunal de Justiça em sede de controle abstrato-concentrado de constitucionalidade contrária à sua jurisprudência.
Isto é, o Ministro Relator do STF pode decretar a inconstitucionalidade de uma lei por meio de decisão monocrática.
Registro que a Rcl nº 383/SP foi o leading case para a admissão de recurso extraordinário contra decisão de Tribunal de Justiça em sede de controle abstrato-concentrado de constitucionalidade sobre normas de reprodução obrigatória, a fim de garantir a autoridade da STF na interpretação destas. Além disso, decidiu-se que a interposição do recurso não esvazia a natureza objetiva do processo147.
O julgamento dos RE nº 376.440/DF ED (conhecidos como agravo regimental) é representativo dessa problemática, posto que foi o único que tive acesso ao inteiro teor dos debates pelo meio eletrônico, mesmo com uma grande quantidade de julgados nesse sentido.
Fixou-se que essa dispensa da cláusula de reserva de plenário tem os mesmos fundamentos que a dispensa no controle concreto-difuso de constitucionalidade, com o propósito de modernização jurisdicional148.
144 BRANCO, Paulo Gustavo Gonet; MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de Direito Constitucional. 10ª ed. São
Paulo: 2015, p. 1113-1114.
145 ZAVASCKI, Teori Albino. Eficácia das sentenças na jurisdição constitucional. 3ª ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2013, p. 33.
146 AMARAL JR., José Levi Mello do. Incidente de arguição de inconstitucionalidade: Comentários ao art. 97 da Constituição e aos arts. 480 a 482 do Código de Processo Civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 77-
78.
147 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Plenário. Acórdão da Rcl nº 383/SP. Rel. Min. Moreira Alves. DJ de 21
de maio de 1993. Disponível em:
<http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=86809>. Acesso em 26 de maio de 2018.
148 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Plenário. Acórdão dos RE nº 376.440 ED/DF. Rel. Min. Dias Toffoli.
DJe nº 224, publicado em 14 de novembro de 2014. Disponível em:
<http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=7236152>. Acesso em 17 de maio de 2018.
Dirley da Cunha Jr. critica este posicionamento do STF, argumentando que o respeito à cláusula de reserva de plenário é imprescindível nos processos objetivos149 – entendimento com
o qual eu me alinho.
Não há identidade de fundamentos nas hipóteses de dispensa do art. 97 da Constituição. O controle abstrato-concentrado de constitucionalidade não contribui para o aumento excessivo de processos no STF, mas tem a consequência oposta devido ao efeito vinculante e eficácia erga omnes.
Aliás, hoje há uma tendência de abstrativização do controle concreto-difuso de constitucionalidade, que visa justamente equiparar os atributos de suas decisões para racionalizar a jurisdição constitucional.
Malgrado o status de cláusula pétrea, o federalismo é mitigado, assumindo um caráter centralizador e cooperativo, implícito nos objetivos da República e na repartição de competências constitucionais entre os entes federativos150.
O STF, ao dispensar a cláusula de reserva de plenário em processos objetivos, torna evidente a assimetria do Estado federal brasileiro: caso uma lei estadual ou distrital seja questionada por meio de ADI, não haveria meios legais, muito menos jurisprudenciais, para uma decisão monocrática decretá-la inconstitucional.
Desta forma, a questão seria apreciada pelo Plenário, independentemente da solidez da jurisprudência fixada pela corte151 – enquanto uma decisão colegiada de um Tribunal de Justiça
do Estado pode ser cassada pelo Relator do processo.