Fonte: acervo pessoal da família Souza Santos – 1955 21.
O documento acima permite ver que a reivindicação de Souza Santos foi parcialmente atendida, uma vez que, do total de nomes indicados pelo reivindicante (número desconhecido), apenas dois foram incluídos no júri de Rio Claro: Amaro Faria, incluído como jurado por decisão da comarca, era ferroviário (assim como Souza Santos e, possivelmente, José Valério da Silva) e destacado militante do movimento negro rioclarense (seu nome será novamente mencionado, adiante).
Na ausência de depoentes ou matérias jornalísticas que informassem sobre a mobilização negra no âmbito jurídico local, partimos do pressuposto de que essa luta destinava-se a combater desigualdades de raça, especificamente no tocante às sentenças proferidas pelo tribunal do júri de Rio Claro. Esta hipótese foi praticamente confirmada quando encontramos, em acervo pessoal, outro texto de autoria de Aristides Souza Santos:
“Justiça de Moiro”
Pela publicação neste jornal, resultante da primeira Sessão do Juri local, vimos que o indiciado Horácio Malaquias, preto co-autor de um crime hediondo de homicidio e sadismo, que impressionou a nossa população, devido a natureza e perversidades reveladas pelos autores, principalmente o famigerado “Palito”, que tão estupidamente roubou a vida a um inocente menor. Os jurados condenaram Horácio Malaquias, com a (Justiça de Moiro) pena de vinte e nove anos e seis meses de prisão. Se fosse nos Estados Unidos da America do Norte, talvêz o Malaquias pagasse com a vida, na cadeira elétrica, como pagam com a pena de “Talião” todos os criminosos que cometem assassínios que demonstram instintos de perversidade.
A mesma justiça rigorosa, que sentencearia Horácio Malaquias, provavelmente puniria o Benedito Moreira de Carvalho, vulgo “diabo-louro”, que na Capital do Estado, praticou mais de uma dezena de crimes do mesmo jaez, do que foi praticado por “Palito” e seu parceiro Malaquias, CRIMINOSO INDIRECTO. No entanto Benedito Moreira vai ser posto em liberdade, em virtudes dos peritos terem conseguido provar num laudo a insanidade mental e incapacidade de auto-determinação do acusado. Crimes os que foram perpetrados por Benedito Moreira de Carvalho, só podem ser praticados por um tarado imbecil, ou louco. E um louco poderá andar solto? Mormente quando esse louco assassinou várias jovens e menores com as mais alucinantes crueldades.
A justiça é representada por uma mulher de olhos vendados, por isso dizemos que a justiça é cega, com a sua cegueira ela vê tudo negro, exceto o Benedito Moreira de Carvalho, que é branco... (Acervo pessoal da família Souza Santos – anos 1950).
Nesse texto (certamente ou do Diário do Rio Claro, ou do Cidade de Rio
Claro, não encontrado no acervo do arquivo público local), Aristides Souza
Santos denuncia o fato de que a justiça institucional havia sentenciado muito mais pesadamente o preto Horácio Malaquias, criminoso indireto em Rio Claro, do que o branco Benedito Moreira de Carvalho (vulgo “diabo-louro”), criminoso praticante direto de crimes em série na capital paulista. Por meio dessa comparação, Souza Santos objetivava chamar a atenção para a seguinte constatação empírica: em termos relacionais, subsistia maior rigidez nas sentenças proferidas para pretos, do que nas sentenças proferidas para brancos. Tudo indica que essa constatação inflamou os atores da classe média negra rioclarense que, para além da revolta e da denúncia, conseguiram mobilizar-se até a inserção efetiva de negros no corpo de jurados do tribunal de Rio Claro. Ainda que não tenhamos tido acesso aos resultados dessa inclusão, tal mobilização negra significou uma contestação direta ao comportamento desigual dispensado pelo poder local aos patrícios da raça.
Destaque-se que o crime de “Palito”, ocorrido em Rio Claro no ano de 1953, teve um desdobramento negativo para os negros rioclarenses como um todo. “Palito” era negro e, a vítima, um menor branco. O crime revoltou intensamente a população em geral, pela crueldade com a qual o menor foi assassinado. Acompanhemos um depoimento sobre o caso:
Teve um crime aqui em Rio Claro, que um escurinho, um pretinho matou um branquinho, né? (...) E a gente mesmo, eu fiquei uns 2 meses sem ir pra escola, eu fiquei. Tinha uns 13 anos. Eu não ia pra escola porque a turma chegava xingando a gente, sabe? E xingava mesmo, desfazia da gente nas escola, e a professora defendia os branquinhos, sabe? Imagine como é que é... Mas eles continuavam xingando a gente de negro-saci, matador. Então peguei e fiquei quase um mês sem ir pra escola, quase perdi o ano (...) Aquele tempo era bem pior do que agora, né? Agora é fácil, agora xingou tem como apelar, né? Aquele tempo não tinha, né? Aquele tempo não tinha. Um tempo atrás era pior, eu vou falar pra você... Sujeito quando fazia alguma
ia deixar, se fosse preto ia sofrer mesmo. Isso eu falo pra você, eu me lembro disso aí: negro era mal visto em Rio Claro, nós fomos bem mal vistos... (Entrevista com Arlindo Aparecido dos Santos).
Importa frisar que todos os espaços nos quais a coletividade negra rioclarense exerceu suas atividades, até 1967, foram o que designamos por espaços intermitentes da raça. O caráter provisório do espaço era reflexo direto da fragilidade econômica que acometia, particularmente, os negros em Rio Claro. As afirmações de Davids são úteis para pensar, de modo relacional, essa debilidade:
A cidade tornou-se desde logo um pólo de atração, quer pelo comércio, indústria extrativa ou mesmo pelos transportes. Já em 1887 havia 300 casas de comércio e várias oficinas mecânicas, cuja principal era a da própria Companhia de Estradas de Ferro, a Oficina Mecânica da Companhia Rioclarense, a qual, já nesta época, empregava 307 pessoas. Antes para o imigrante que para o liberto, ou mesmo para os trabalhadores rurais, estas oportunidades de trabalho eram atrativos que os traziam para a cidade.
Os imigrantes, especialmente, desempenharam um duplo papel nas transformações neste período: de um lado, promoveram mudança na economia agrícola da região, adquirindo os pequenos lotes em que se fracionaram várias fazendas de café, substituindo aquela cultura por cereais; e de outro, diversificaram e ampliaram as atividades comerciais e industriais do centro urbano e mesmo nelas se integraram como mão-de-obra.
O negro percorreu o caminho que lhe destinou a sociedade brasileira de brancos “sem preconceitos” (...) Inserindo-se na sociedade de classes, não ultrapassou em regra geral, o estágio de vendedor de fôrça de trabalho. Até hoje, reside meio afastado da cidade, [e] freqüenta clubes exclusivos...
(Davids, 1968, p.48).
Esses clubes exclusivos a que se refere Davids (Davids, 1968), no final dos anos 1960 pertenciam às sociedades José do Patrocínio e Tamoio de Rio Claro. As duas associações eram, na prática, uma continuação remodelada das organizações negras rioclarenses dos anos 1930. Como já mostrado no capítulo anterior, as associações negras locais da década de 1930 chegaram a 1945 “morrendo à míngua”, golpeadas pelas externalidades desfavoráveis já apontadas no capítulo anterior. Contudo, essas associações resistiram e se reestruturaram por meio da José do Patrocínio e do Tamoio, entre fins dos anos
1940 e os anos 1950. A instauração dessas duas sociedades marca, efetivamente, o ressurgimento da mobilização negra de Rio Claro nos anos 1950 e 1960. Iniciamos, a partir daqui, a análise sobre as duas instituições.
A Sociedade Dançante Familiar José do Patrocínio foi fundada em 25 de setembro de 1948 – e reorganizada como beneficente em 1960 (Estatuto da Sociedade Beneficente e Recreativa José do Patrocínio [Rio Claro-SP], de 15 de outubro de 1967).
Mesmo não tendo acesso ao primeiro estatuto da organização (que datava do início dos anos 1940, de acordo com o entrevistado Durval Augusto [Pereira, 2004, p.74]), parece coerente dizer que a finalidade estatutária da Sociedade Dançante
Familiar José do Patrocínio consistia, basicamente, em oferecer às famílias associadas entretenimento dançante e recreativo. Presidida por José de Andrade (possivelmente até sua morte, em 1953), a organização dançante possuía um cordão carnavalesco e também desenvolvia uma série de bailes ao longo do ano. O material fotográfico, conforme segue, mostra o cordão da José do Patrocínio realizando seu desfile carnavalesco na primeira metade dos anos 1950: