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1. Dimensão epistêmica do processo: verdade, prova e necessidade de um

1.3. Processo justo, decisão justa e a necessidade de um procedimento

1.3.1. Decisão justa e processo justo

Já foi salientado pela doutrina que não é possível eleger-se um único critério idôneo para avaliar a justiça da decisão153. Entende, portanto, TARUFFO que seriam

necessários pelo menos três critérios, todos necessários, mas nenhum, sozinho, suficiente para garantir a justiça da decisão154.

Os critérios são os seguintes155: (a) correta escolha e interpretação da regra jurídica; (b) apuração adequada dos fatos relevantes do caso; (c) emprego de um procedimento válido e justo para chegar à decisão. Para o escopo do presente trabalho será importante avaliar os itens (b) e (c), ficando o item (a) fora do escopo da pesquisa.

Como se pode verificar, portanto, tal concepção a respeito da decisão justa contém duas informações bastante importantes: a primeira, já constatada ao longo de todo o presente estudo, no sentido de que a verdade é o standard de correção de uma decisão156. Isto é, sendo o Direito merit-based157, é necessário que as normas

jurídicas sejam aplicadas a fatos que efetivamente ocorreram, sob pena de que a decisão seja injusta158.

A segunda, que passará a ser enfrentada a partir de agora, no sentido de que não basta, para a obtenção da decisão justa, que o processo tenha seguido “as regras do jogo”.

Na Constituição de nossa República o “processo justo” vem previsto no art. 5o. LIV da CRFB. A nomenclatura utilizada, entretanto, “devido processo legal”, vem criticada pela doutrina por duas questões159: em primeiro lugar, por remeter “ao contexto cultural do Estado de Direito (...), em que o processo era concebido

153 TARUFFO, Michele. “Idee per una Teoria della Decisione Giusta”. In: Sui Confini – Scritti Sulla

Giustizia Civile. Bologna: Il Mulino, 2002, pp. 219-234, esp. p. 224.

154 TARUFFO, Michele. “Idee per una Teoria della Decisione Giusta”, cit., p. 224. 155 TARUFFO, Michele. “Idee per una Teoria della Decisione Giusta”, cit., p. 224. 156 HO, Hock Lai. A Philosophy of Evidence Law, cit., p. 106.

157 GOLDMAN, Alvin I. Knowledge in a Social World, cit., p. 280. 158 TARUFFO, Michele. Uma Simples Verdade, cit., p. 142.

159 As críticas são de SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de

unicamente como um anteparo ao arbítrio estatal”160. “O Estado constitucional é

‘mais’ do que Estado de direito”161. Em segundo lugar, porque no direito brasileiro não há espaço para a dimensão substancial162 do due process estadunidense, à qual naturalmente a expressão devido processo remete163.

O justo processo possui fundamentalidade tanto formal (entendida como quando os direitos se “beneficiam da positivação constitucional”164) quanto material (entendida como quando um direito “é decisivamente constitutivo das estruturas básicas do Estado e da sociedade”165).

A formal encontra-se no já mencionado art. 5o. LIV da CRFB. A material, por sua vez, vem constatada pelo fato de que o processo justo “é o que impede a

degradação de qualquer pessoa à condição de mero objeto de procedimentos e decisões estatais, de modo geral, ou de procedimentos e decisões judiciais, de modo particular166.

Além disso, configura-se como direito a prestações em sentido amplo167, mais

especificamente como direito à participação na organização e procedimento168,

acarretando um verdadeiro dever par o legislador de efetivamente organizar um processo idôneo à tutela dos direitos169 ( o que, por óbvio, deve incluir uma apuração

adequada dos fatos da causa).

Note-se o ponto: não é suficiente que o legislador organize “algum” processo; é necessário que esse seja organizado de modo a estar em sintonia com as exigências do Estado Constitucional, o que, como mencionado, deve incluir a tutela adequada dos direitos.

160 SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional, cit., p. 616.

161 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7a. Ed. Coimbra: Edições Almedina, 2003, p. 100.

162 ÁVILA, Humberto. “O que é ‘devido processo legal’?”. In: Revista de Processo, vol. 163, Setembro de 2008, pp. 50-59,

163 SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional, cit., p. 616.

164 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7a. Ed. Coimbra: Edições Almedina, 2003, p. 406.

165 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, cit., p. 379. 166 MATTOS, Sérgio Luís Wetzel de. Devido Processo Legal e Proteção de Direitos. Porto Alegre: Livraria do Advogado Ed., 2009, p. 144.

167 A classificação é de SARLET, Ingo. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. 7a. Ed. Rev. e Ampl.

Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. Pp. 195-196.

168 SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional, cit., p. 616

169 SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional, cit., p. 616

Mesmo destacando que definição em abstrato de uma conformação cabal do direito ao processo justo é tarefa impossível170, traçam SARLET,MARINONI e MITIDIERO

um perfil mínimo para o justo processo:

“O juiz é paritário no diálogo e assimétrico no momento da imposição de suas

decisões. Em segundo lugar, constitui processo capaz de prestar tutela jurisdicional adequada e efetiva, em que as partes participam em pé de igualdade e com paridade de armas, em, contraditório, com ampla defesa, com direito à prova, perante juiz natural, em que todos os seus pronunciamentos

são previsíveis, confiáveis e motivados, em procedimento público, com duração

razoável e, sendo o caso, com direito à assistência jurídica integral e formação de coisa julgada”171.

MATTOS, em sentido análogo, sintetiza assim:

“[O] direito fundamental a um processo justo, como princípio jurídico-constitucional, compreende o direito a um processo legal e informado por direitos fundamentais, celebrado em clima de boa-fé e lealdade de todos aqueles que de qualquer forma dele participam, adequado ao direito material e às exigências do caso concreto, e, enfim, voltado para a obtenção de uma proteção judicial efetiva”172.

Não obstante, como salienta a doutrina, o “processo não se presta tão- somente para a elaboração de uma decisão, nem esta se legitima só por ter sido imposta segundo os cânones do rito (...)”173; “(...) a observância do procedimento não garante necessariamente a produção de um resultado justo”174.

Seguir as regras do jogo certamente é uma condição importante para a justiça da decisão, mas por si só insuficiente. A “procedural justice”, portanto, que vê o próprio processo como uma garantia suficiente para a justiça da decisão, não pode mais ser aceita; daí porque para que o processo seja realmente justo, é necessário

170 SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional, cit., p. 618.

171 SARLET, Ingo; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito Constitucional, cit., p. 619.

172 MATTOS, Sérgio Luís Wetzel de. Devido Processo Legal e Proteção de Direitos, cit. p. 253. 173 ALVARO DE OLIVEIRA, Carlos Alberto. Do Formalismo no Processo Civil, cit., p. 219.

174 MATTOS, Sérgio Luís Wetzel de. Devido Processo Legal e Proteção de Direitos. Porto Alegre: Livraria do Advogado Ed., 2009, p. 181.

que esse seja arquitetado para a tendencial obtenção de decisões justas175, o que

encontra como um de seus critérios, como mencionado, uma adequada busca da