6.4 MANDADO MONITÓRIO
6.4.2 DECISÃO QUE DEFERE OU INDEFERE A EXPEDIÇÃO DO MANDADO
Conforme mencionado no item 6.1.9, feito o juízo de admissibilidade, se o juiz reputar inviável a concessão do mandado injuntivo, deverá dar a oportunidade para o autor apresentar novos documentos que eventualmente ajudem na formação
192 Importante salientar que, na apelação, poderá ser discutido tudo aquilo que o juiz de primeira instância poderia ter averiguado em sua cognição sumária para a expedição do mandado monitório. Porém, não será possível o amplo contraditório (com análise do negócio jurídico subjacente à prova documental), que somente teria sido viabilizado se o réu tivesse oferecido embargos monitórios. Destaca-se que a possibilidade ou impossibilidade de se discutir a causa subjacente da ação monitória em sede de apelação (a depender da instauração ou não do amplo contraditório pela oposição de embargos monitórios), irá influenciar na competência para julgamento do recurso no Tribunal, pois, a depender da matéria a ser analisada, a competência será de Câmaras distintas. Nesse sentido:
“Conflito (21ª x 27ª Câmaras) Monitória de cheques prescritos Inadmissibilidade de pinçar a causa da emissão como parâmetro da definição da competência interna Apesar de a emissão das cártulas derivar de pagamento de comissão de corretagem imobiliária em negócio que está sub-judice em ação da qual o portador não participa, a questão é de confirmação da exigibilidade de título de crédito extrajudicial, situando-se na competência do Direito Privado II (Provimento 7/2007) Conflito procedente, declarada a competência da 21ª Câmara”. (BRASIL, TJSP,
Conflito de competência cível 0039573-94.2013.8.26.0000, Rel. Des. Enio Zuliani, Órgão Julgador: Grupo Especial da Seção do Direito Privado, Foro de São Bernardo do Campo - 5ª. Vara Cível, Data do Julgamento: 04/04/2013, Data de Publicação: 09/04/2013).
do convencimento do juiz ou, não havendo novos documentos a juntar, emendar sua inicial, optando pelo processo comum de conhecimento.
Porém, se o autor não emendar a petição inicial, ou se a inicial estiver maculada com algum defeito insanável, como por exemplo litispendência, o juiz proferirá sentença extinguindo o processo monitório. Destaque-se que tal sentença extintiva não faz coisa julgada material, pois, nesse primeiro momento do procedimento, a análise feita pelo magistrado resume-se à análise dos requisitos da petição inicial e à análise do cabimento da prova documental apresentada pelo autor, sem que se tenha examinado o negócio jurídico subjacente.
Contra a sentença de indeferimento do mandado monitório e consequente extinção da ação monitória caberá a oposição de embargos de declaração, no prazo de 5 (cinco) dias contados da intimação da decisão (art. 1.023 do CPC/15), para esclarecer obscuridade; eliminar contradição; suprir omissão de ponto ou questão sobre o qual devia se pronunciar o juiz; ou corrigir erro material (art. 1.022 do CPC/15). Também será cabível o recurso de apelação, no prazo de 15 (quinze) dias contados da intimação da decisão (art. 1.003, § 5º do CPC/15), nos termos do art. 1.009 do CPC/15.
Por outro lado, na hipótese de expedição de mandado monitório parcial, o autor poderá opor embargos de declaração (arts. 1.022 e 1023 do CPC/15) e/ou interpor de agravo de instrumento (art. 1.015, II e 1.003, § 5º do CPC/15), para que possa pleitear ao tribunal a integralidade de sua pretensão. Nessa hipótese, o prazo para a interposição dos recursos contra a decisão que expede o mandado monitório parcial terá início também a partir da publicação da decisão, equiparando-se à situação na qual se recorre contra decisão parcial de mérito (art. 356, § 5º do CPC/15). Se for expedido o mandado liminar, o réu poderá se defender via embargos monitórios, no prazo de 15 (quinze) dias (arts. 701 e 702 do CPC/15), sendo este o mesmo prazo que teria para cumpri-lo, nos termos do art. 701, caput do CPC/15.
A decisão que admite a petição inicial e expede o mandado monitório não comporta recurso por parte do réu. Segundo Marcos Vinicius Rios Gonçalves193,
193 GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Novo curso de direito processual civil, volume 2: processo de conhecimento (2a parte) e procedimentos especiais. 13ª ed., São Paulo: Saraiva, 2017, p. 303.
independentemente da natureza jurídica que se atribua à expedição do mandado monitório, “não se há de admitir a interposição de recurso contra a decisão inicial, por
faltar ao réu interesse de agir, ante a possibilidade de embargos, que retiram do mandado sua eficácia inicial, do que não lhe resultará nenhum gravame”. Assim, o
fato de os embargos monitórios constituir meio para neutralizar a eficácia do mandado monitório, faz com que desapareça qualquer interesse recursal.
Porém, ainda que não haja possibilidade de recurso, a decisão que expede o mandado injuntivo poderá ser impugnada mediante embargos monitórios, que desempenham, o papel de defesa e impedem a imediata formação do título executivo judicial. Ainda que os embargos monitórios tenham natureza de defesa, estes garantem a neutralização da eficácia do mandado monitório, da mesma forma que os recursos dotados de efeito suspensivo, que neutralizam a eficácia da decisão combatida194.
A única possibilidade de recurso do réu contra a decisão que expede o mandado monitório ocorre no caso em que o deferimento é feito juntamente com o deferimento de tutela de urgência, que permitirá a interposição de agravo de instrumento, conforme determina o art. 1.015, I do CPC/15.
Findo o prazo de 15 (quinze) dias para cumprimento da obrigação ou apresentação de embargos monitórios, não sendo opostos os referidos embargos, o mandado monitório será convertido em título executivo judicial, conversão esta materializada através de sentença que não poderá alterar o conteúdo os embargos, mas apenas atestar a convolação e permitir o acesso do réu ao duplo grau de jurisdição, através da interposição do recurso de apelação (art. 1.009 do CPC/15).
194 “Seria recorrível a decisão que defere o mandado de pagamento, de entrega da coisa certa e de cumprimento
da obrigação? A resposta é negativa, não pela natureza do ato judicial, mas pela falta de interesse do réu para justificar o manejo do agravo, visto que a consequência imediata da citação é a abertura, para o destinatário, da faculdade de defender-se amplamente por meio de embargos. Ademais, nos termos do art. 1.015 do NCPC, não se trata de decisão oponível por agravo de instrumento” (THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito
Processual Civil – Procedimentos especiais - vol. II – 50ª ed. rev., atual. e ampl. - Rio de Janeiro: Forense, 2016, pp. 397 e 398).
Após o trânsito em julgado da ação monitória, o único meio de defesa que restará ao devedor será eventual impugnação ao cumprimento de sentença195, na qual poderão ser alegadas apenas as matérias do §1º do art. 525 do CPC/15.
Por fim, interessante mencionar o posicionamento de José Rogério Cruz e Tucci196, no que se refere a possibilidade de audiência de justificação, antes da expedição do mandado monitório, em caso de dúvida. Segundo o autor:
Entendendo o juiz que, apesar de satisfatória a prova pré-constituída apresentada, resulta ainda duvidoso algum aspecto fático emergente da narração deduzida pelo autor, nada obsta que seja designada audiência de justificação, convocando-se o demandante, com arrimo no art. 342 do Código de Processo Civil, a prestar ao magistrado o necessário esclarecimento. Porém, discordamos de tal posicionamento, pois a realização de audiência de justificação desnatura o procedimento especial da ação monitória; procedimento este que pressupõe a contundente probabilidade do direito do autor, consubstanciada na prova escrita apresentada por ele. Se a prova escrita não for suficiente para a expedição do mandado monitório, descabe a designação de audiência de justificação, pois conforme já foi defendido no presente trabalho, a causa de pedir da ação monitória é a simples informação da dívida, na forma como está na prova escrita que a instrumentaliza, sendo certo que a menção da causa subjacente ao título injuntivo não é um requisito de admissibilidade da via monitória.
Além disso, o rito diferenciado da ação monitória visa, justamente, garantir de maneira célere a satisfação do direito do autor, com a formação do título executivo judicial; de forma que, qualquer ato que torne este procedimento mais devagar e dilatório, não se mostra condizente com a sua finalidade.
Assim, seria mais acertado que o juiz, caso entenda que a prova escrita apresentada pelo autor não é suficiente para a sua convicção, atue conforme
195 “A análise de matérias de mérito, ainda que conhecíveis de ofício, é obstada nas hipóteses de inércia do
devedor no procedimento monitório. Isso porque a ausência de abertura do processo de conhecimento impossibilita a produção de contraprovas pelo autor monitório, essenciais ao exercício do direito fundamental de defesa, inviabilizando o aprofundamento do conhecimento da causa pelo Poder Judiciário” (BRASIL, STJ, REsp
1432982/ES, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, 3ª T., Data de julgamento: 17/11/2015, Data de publicação: 26/11/2015).
196 TUCCI, José Rogério Cruz e. Ação monitória: Lei 9.079, de 14.07.1995 – 3ª ed. rev. atual. e ampl. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2001, p. 80.
determina o § 5º do art. 700 do CPC/15, mandando intimar o autor para que, querendo, emende a petição inicial, adaptando-a ao procedimento comum.