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Capítulo 4 – Decisões proferidas pelo Supremo nas Adins entre

4.2. Estrutura Conceitual

4.2.3. Decisões baseadas na forma e decisões baseadas no pedido

ser complementada pela avaliação do ciclo de cumprimento do processo decisório. Como as decisões de mérito representam apenas uma parcela limitada das decisões – e, portanto, das situações em que o Supremo esteve implicado no jogo político – é preciso levar em conta a totalidade das Adins julgadas.

Dentro do conjunto limitado das questões com decisão de mérito, é feita a adoção de uma análise mais específica, ao verificar não só se houve decisão a favor ou contra o dispositivo questionado, mas também o impacto territorial /pessoal das leis declaradas inconstitucionais.

Mas por que o estudo das decisões baseadas no pedido sugere uma restrição no conteúdo e, portanto, no comprometimento da análise política sobre a atuação da Corte?

Porque as decisões baseadas no pedido compõem apenas uma parcela do conjunto de decisões proferidas pela Corte, tanto nas liminares quanto no mérito.

Quando o STF (e isso ocorre em todo o Judiciário) julga uma ação, ele verifica preliminarmente se a ação atende a alguns requisitos formais, denominados “condições da ação”, necessários para que ela se encontre apta a receber o julgamento de Mérito. A ação é julgada, portanto, em dois momentos subseqüentes: a análise dos requisitos formais e, caso tenham sido preenchidos, o julgamento do mérito do pedido propriamente dito.

É o que mostra a figura a seguir:

Figura 2 - Requisitos formais da ação

Não atendidos Atendidos

Julgamento da Forma Julgamento do Pedido

Decisão baseada na forma Decisão baseada no pedido

Não conhecimento da ação Favorável Desfavorável

Negado seguimento Procedente Improcedente

Prejudicada Procedente em parte

Extinto o processo sem o julgamento do mérito

Para compreender as decisões tomadas quando os requisitos formais não são atendidos, é preciso olhar com mais cuidado as condições da ação. Um pedido será analisado no seu mérito se reunir um mínimo de condições que tornem possível sua solução. Tais condições são a possibilidade jurídica do pedido, a legitimidade de agir e o interesse de agir. Um pedido é considerado possível juridicamente quando a situação afirmada pelo autor esteja, em tese, protegida pelo ordenamento jurídico estatal. A legitimidade para agir consiste em verificar se ambas as partes (requerente e requerido) são titulares da ação. E, por fim, o interesse de agir, traduzido na necessidade de se recorrer ao Estado para que ele proteja um direito violado ou ameaçado de violação. Quando o Tribunal julga que uma dessas condições é considerada descumprida por uma das partes, o Tribunal ou juiz fica impedido de pronunciar-se sobre o problema que lhe é colocado pelo autor. Em tais situações, o Tribunal toma uma decisão desfavorável para o requerente.

Porém, a extinção do processo sem julgamento do mérito não é considerada conceitualmente como uma decisão desfavorável na medida em que o Tribunal põe fim à relação processual, sem dar uma resposta (positiva ou negativa) ao pedido do autor. A extinção é aplicada nos casos em que uma das situações dispostas no art. 267, do Código de

Processo Civil128 (CPC), ocorre como, por exemplo, o indeferimento da inicial ou o abandono da causa pelo autor.

O que se pretende sugerir neste momento do trabalho é que as decisões baseadas em critérios formais também precisam ser consideradas na análise política. E que, para além disso, compõem, em conjunto com as decisões baseadas no pedido, uma estratégia política da Corte que, ao basear-se em critérios formais, não só retira destes novos legitimados ativos a possibilidade de utilizar-se deste novo instrumento, como também significa a formação da agenda do Supremo. Significa, ainda, no contexto posterior a 1988, a estruturação pelo STF das regras do jogo e a atualização na concepção dos papéis dos Poderes do Estado, das suas relações e das funções políticas dos juízes. Ao deixar de julgar o mérito de questões de grande impacto territorial e os indivíduos, o STF mantém abertas as possibilidades de decisões futuras e também as escolhas políticas das coalizões governamentais.

Porém, se considerado do ponto de vista da teoria constitucional, tanto liberal como dirigente, esse padrão de tomada de decisão tem efeitos desiguais para as partes. Isso porque os direitos fundamentais e os instrumentos de controle da constitucionalidade têm como objetivo central a enumeração das formas admissíveis de ação para todos os sujeitos e a limitação dos objetivos e efeitos danosos para outrem que as ações possam provocar. Esses efeitos desiguais são especialmente nítidos se consideramos as diferenças de recursos entre, por um lado, a coalizão governamental e os setores social e economicamente dominantes que a apóiam, e, por outro lado, os grupos sociais, associações e partidos minoritários que procuram a efetivação.

128 Art. 267, CPC: “Extingue-se o processo, sem julgamento do mérito: I – quando o juiz indeferir a petição inicial; II –

quando ficar parado durante mais de 1 (um) ano por negligencia das partes; III – quando, por não promover os atos e diligencias que lhe competir, o autor abandonar a causa por mais de 30 (trinta) dias; IV – quando se verificar a ausência de pressupostos de constituição e de desenvolvimento valido e regular do processo; V – quando o juiz acolher a alegação de perempção, litispendência ou de coisa julgada; VI – quando não concorrer qualquer das condições da ação, como a possibilidade jurídica, a legitimidade e o interesse processual; VII – pelo compromisso arbitral; VIII – quando o autor desistir da ação; IX – quando a ação for considerada intransmissível por disposição legal; X – quando ocorrer confusão entre autor e réu; XI – nos demais casos prescritos neste Código.”