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4 PARTICIPAÇÃO DAS COMUNIDADES NA GESTÃO DO PARQUE ESTADUAL DA ILHA DO

4.4 Como funciona o conselho – Interações e decisões

4.4.3 Decisões

As decisões tomadas durante as reuniões do conselho são embasadas nas discussões entre os participantes. Em geral, todas as questões são postas em votação. É possível notar que a busca pelo consenso é uma constante. No entanto, não sendo possível alcançar o consenso, vence o voto da maioria. A divergência ocorre em muitos casos, tornando algumas discussões bem calorosas.

Seguindo as regras do conselho gestor, apenas quem é conselheiro de fato tem voto válido nas reuniões. No entanto, mesmo os participantes que não são conselheiros têm espaço para expor suas opiniões e para entrar nas discussões. Foi possível notar que as discussões e o posicionamento dos participantes frente aos assuntos colocados são muito mais importantes do que o processo de votação em si. O conselho gestor abre espaço para essas discussões, não importando o tempo que elas durem, sendo que assuntos mais polêmicos podem durar horas de discussão. No caso das discussões a respeito da solicitação de construção de casa por uma antiga moradora (como já pontuado anteriormente), o debate durou cerca de três horas. Esse assunto, inclusive, também foi pauta de outras reuniões do conselho. Observa-se que, em muitos casos, o conselho acaba dispensando muito tempo em determinados assuntos, mesmo em casos em que a decisão já foi tomada.

Alguns conselheiros ressaltam a importância dos participantes e, em especial, dos conselheiros conhecerem de perto as comunidades, de maneira que se aproximem das realidades que estão sendo discutidas durante as reuniões. Há uma crítica a respeito de haver conselheiros que sequer conhecem as comunidades e a ilha: “como o cara vai votar uma coisa se não tem o conhecimento?”. Para Ezequiel Oliveira, morador tradicional do Marujá, trata-se de uma questão muito delicada, pois alguns assuntos discutidos e votados em reunião afetam diretamente as dinâmicas e práticas sociais das comunidades.

De acordo com entrevistada, as reuniões itinerantes propiciavam essa aproximação. A presença dos conselheiros nas comunidades, ouvindo as demandas locais e em contato com as diferentes realidades, representava, de certa maneira, uma forma de analisar todo o processo de modo mais humano. E isso é especialmente relevante se

considerarmos que as comunidades são diferentes e apresentam dinâmicas sociais diferentes.

Se inteirar mais e ter ponto de vista formado para o momento. Porque cada momento requer uma reflexão, e, se você vai passando batido, o direito do morador pode estar sendo ferido e ninguém toma uma postura. Essa postura de liderança precisava ter. Eles precisavam ter dentro do conselho uma liderança melhor formada, liderança não é uma coisa... É uma coisa meio nata a liderança, mas ou se aprimora ou ela se aniquila se não tiver uma evolução de reciclagem (Morador tradicional do Marujá, líder da comunidade, entrevista concedida em 2014).

As lideranças das comunidades, nesse contexto, assumem papel fundamental na defesa dos direitos dos moradores locais. Sobretudo nesse contexto em que nem todos os votos são embasados em conhecimento de fato, a presença de um representante que defenda a comunidade com argumentos reais pode fazer toda a diferença no momento de decisão. No entanto, quando se trata de casos de comunidades ou situações sem representação no conselho, o que vale é o bom senso dos conselheiros e, mais uma vez, seu conhecimento a respeito da situação ou local. O conhecimento da realidade, nesses casos, deveria ser pressuposto para a tomada de decisão.

Nesse contexto, há uma diferença entre as comunidades que é notável nas reuniões do conselho. O Marujá possui liderança forte e posicionamento firme sobre quase todas as questões. Ainda que o posicionamento da AMOMAR não seja unânime em toda a comunidade, ele representa a voz da comunidade em relação à gestão do parque. As outras duas comunidades possuem dinâmicas diferentes. A AMOIP tem uma gestão mais descentralizada, sendo que não há uma liderança, e sim várias. O voto nas reuniões é centralizado na AMOIP, mas nos processos de argumentação sempre há várias vozes com argumentos diversos. Já a Enseada da Baleia tem participação menos constante nos processos de discussão no conselho e argumenta mais quando se trata de assuntos relacionados mais diretamente à sua comunidade. Apresentam uma gestão também mais descentralizada, mas tendendo a focar na atuação de sua atual liderança, ao menos no que se refere à gestão do parque.

Alguns conselheiros salientam que nem todas as decisões entre a gestão e as comunidades são tomadas dentro do conselho gestor. Em algumas situações, ainda que a decisão final se dê durante a reunião do conselho gestor, diversas ações são feitas fora das reuniões. Há interações que ocorrem a todo o momento entre as comunidades, entre

as comunidades e o gestor e que envolvem também participantes e pessoas externas ao conselho. Tais interações são de suma importância, pois representam essa aproximação dos atores em prol de interesses coletivos ou que venham a beneficiar comunidades não representadas no conselho.

Essas articulações podem ocorrer também como complemento ao próprio conselho gestor, a exemplo das Câmaras Temáticas ou dos Grupos de Trabalho formados para debater temas específicos. Nesses grupos, não apenas ocorrem as reuniões fora do conselho gestor, mas demandam em geral articulações que extrapolam o tempo e os limites das reuniões. São de fundamental importância para aproximar as comunidades da gestão e dos processos decisórios.

Além disso, podemos considerar também as próprias associações comunitárias como espaços de decisão e acordos que extrapolam o âmbito do conselho gestor. Muitas das decisões não são, inclusive, repassadas ao conselho gestor, nos casos em que não afetam o parque diretamente. Assuntos específicos do âmbito da comunidade, alguns assuntos de uso público e turismo e assuntos que envolvem as normas de convivência da comunidade são decididos pelas próprias comunidades. As decisões que afetam diretamente a unidade de conservação ou a gestão do parque em si são repassadas ao gestor ou durante as reuniões do conselho.

Alguns conselheiros ainda reforçam que há decisões “de cima para baixo”, tomadas pelas instâncias superiores de gestão, que não são discutidas em conselho, a exemplo das obras de reforma do Núcleo Perequê, que acabaram gerando uma série de transtornos e que não foram informadas ou debatidas em conselho, de acordo com os conselheiros. Esse tipo de decisão acaba atrapalhando as dinâmicas que geralmente ocorrem no conselho e entre os atores. Como consequência, temos, muitas vezes, decisões arbitrárias que acabam influenciando todo o processo de interação e confiança conquistado.