2. A DISCRIMINAÇÃO DE GÊNERO NO DIREITO DO TRABALHO E A
2.3. Jurisprudência dos tribunais brasileiros sobre a discriminação de gênero
2.3.5. Decisões do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região
O Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região segue a mesma linha de raciocínio defendida por nossa pesquisa na aplicação do direito, no sentido de evitar discriminação potencial por benefícios estipulados apenas para as mulheres, julgando, em determinados casos, os privilégios previstos na lei como inconstitucionais, como na decisão a seguir reproduzida:
PROCESSO TRT 15ª REGIÃO N.º 01952-07.2007.5.15.0082
RECURSO ORDINÁRIO - RITO ORDINÁRIO - 6ª TURMA - 12ª CÂMARA
1º RECORRENTE: DENIZE APARECIDA NICÉSIO BORTOLOZO 2ª RECORRENTE: BRINK’S – SEGURANÇA E TRANSPORTE DE VALORES LTDA.
ORIGEM: 3ª VARA DO TRABALHO DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO (Juíza Sentenciante: Sandra Maria Zirondi)
INTERVALO PARA DESCANSO, DE 15 MINUTOS, EM CASO DE PRORROGAÇÃO DO HORÁRIO NORMAL, PREVISTO NO ART. 384 DA CLT. PROTEÇÃO À MULHER. DISTINÇÃO DE CONDIÇÕES DE TRABALHO ENTRE HOMENS E MULHERES. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DA IGUALDADE INSCULPIDO NO ART. 5º, I, DA CF. Preceitua o art. 5º, I, da CF, que “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”. Já o art. 7º, XXX, da Constituição Federal, no capítulo que trata dos direitos sociais ao trabalhador, proíbe expressamente “diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil”. Obviamente, tratar a mulher com distinção de condições de trabalho, concedendo privilégios, desestimulando o tratamento igualitário entre homens e mulheres, fará o empregador preterir o sexo feminino,
prestigiando a contratação dos homens, permitindo ainda mais a ocorrência de discriminação no mercado de trabalho. Interpretação diversa incorrerá em violação ao aludido art. 7º, inciso XXX, da Constituição Federal. Presente uma nova ordem constitucional, insculpida pela já vintenária Constituição Cidadã, há que se consagrar o princípio da igualdade, em detrimento a qualquer tipo desarrazoado de proteção, até mesmo de dispositivos que supõem um escopo protetivo, porém detêm, no fundo, um ranço de segregação da mulher, empedernido no seio de nossa sociedade há séculos, mas que, com as conquistas das liberdades, fazem com que, ao passar dos anos, se esvaiam pelas mãos dos agressores, trazendo à lume uma nova ordem social, visando equalizar, com o amadurecimento social, as condições dos aparentemente desiguais. (Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região)326.
A única diferença, em nossa concepção, é que a melhor maneira para igualizar direitos é elastecê-los e não meramente suprimí-los, como já salientado nas linhas acima.
Em outra oportunidade, o Tribunal reprimiu o assédio moral perpetrado por empresa em face de transexual, arbitrando indenização em virtude da violação da dignidade da pessoa humana e dos preceitos constitucionais de vedação a práticas discriminatórias, o que, antes de repelir, confirma a igualdade de gênero e a defesa da opção sexual dos indivíduos:
5ª CÂMARA (TERCEIRA TURMA)
0078000-40.2008.5.15.0018 RO - RECURSO ORDINÁRIO VARA DO TRABALHO DE ITU
RECORRENTE: NILSON PEREIRA DA SILVA RECORRIDO: MUNICÍPIO DE ITU
JUIZ SENTENCIANTE LUIS MARTINS JUNIOR
DANO MORAL. TRABALHADOR QUE ASSUME SUA
TRANSEXUALIDADE. DISCRIMINAÇÃO VELADA. TRABALHADOR MANTIDO EM OCIOSIDADE. ASSÉDIO MORAL CONFIGURADO. INDENIZAÇÃO DEVIDA. A discriminação é a negação do princípio da igualdade, eis que discriminar é fazer distinção. Em matéria trabalhista, discriminação, segundo a Convenção 111 da OIT, é toda distinção, exclusão ou preferência que tenha por fim alterar a igualdade de oportunidade ou tratamento em matéria de emprego ou profissão. Em nosso ordenamento jurídico a proibição da discriminação tem base constitucional, eis que, em seu art. 3º, foi estabelecido como um dos objetivos da República Federativa do Brasil, "promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação", e, em seu art. 5º, foi assegurado que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo- se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
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TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO. 15ª Região. Disponível em: <http://consulta.trt15.jus.br/consulta/owa/wPesquisaJurisprudencia>. Acesso em: 07 jan. 2012.
propriedade...". E, para o caso específico da discriminação no ambiente de trabalho aplica-se também o disposto no art. 1º da Lei 9.029/95. Ocorre que a discriminação do trabalhador é externada muitas vezes através de comportamentos que se configuram como assédio moral. No presente caso, a prova oral demonstrou que o trabalhador, após assumir sua transexualidade, foi afastado do trabalho pelo seu superior hierárquico, sem que houvesse justificativa convincente para isso, eis que a própria testemunha patronal admitiu que no setor de ambulâncias não faltava serviços e que existem uma ou duas ambulâncias reservas. Ora, o fato do empregador deixar o empregado na ociosidade, sem qualquer função, marginalizando-o no ambiente de trabalho, constitui inequivocamente assédio moral. E, na hipótese, o assédio moral é decorrente da discriminação de que o autor foi vítima, discriminação essa que sequer foi declarada, mas, sim, velada, que é aquela que é mais difícil de ser comprovada, porque não se caracteriza por comportamento visível a todos. Neste contexto, a conduta do superior hierárquico violou o princípio da dignidade como pessoa humana, adotado como fundamento de nossa república (art. 1º, III e IV, da CF), sendo devida ao obreiro a reparação civil pelo dano moral sofrido mediante a condenação do reclamado ao pagamento de indenização. Recurso ordinário provido. (Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região)327
Após a análise das decisões supracitadas, percebe-se uma evolução no entendimento dos Tribunais, apesar do conservadorismo reinante no Tribunal Superior do Trabalho, demonstrando que estudos acerca da igualdade de gênero, em todos os sentidos são bem vindos no meio jurídico, sendo salutar também uma breve exposição sobre a situação do sexo feminino no universo de outros países e acerca das normas internacionais então vigentes para uma melhor compreensão de sua condição real na era contemporânea.
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TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO. 15ª Região. Disponível em: <http://consulta.trt15.jus.br/consulta/owa/wPesquisaJurisprudencia>. Acesso em: 07 jan. 2012.