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3 DO DIREITO CONTRATUAL: CONCEITO E FINALIDADE DO

4.2 FINALIDADE DO CONTRATO DE NAMORO

4.2.2 Decisões dos tribunais

O reconhecimento jurídico do contrato de namoro também é um tema recente em meio às decisões dos tribunais, além da discussão doutrinária acerca da validade do contrato de namoro, há dissenso entre os julgadores. Contudo, há algo em que a jurisprudência é uníssona, de que namoro não se confunde com a união estável.

Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça, em decisão de Agravo de Instrumento, reformou sentença não reconhecendo união estável, mas sim simples namoro, pelo fato de não haver qualquer comprovação de residência no mesmo endereço, tendo em vista a alegação de domicílio comum ter sido utilizada como reforço argumentativo. Assim, destacou o Superior Tribunal de Justiça:

AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1.501.295 - DF (2019/0113319-3) RELATOR: MINISTRO PRESIDENTE DO STJ AGRAVANTE: R L V

ADVOGADO : DEFENSORIA PÚBLICA DO DISTRITO FEDERAL

AGRAVADO : E M DE S AGRAVADO : M A G DE O ADVOGADO : DEFENSORIA PÚBLICA DO DISTRITO FEDERAL DECISÃO Trata-se de agravo apresentado por R L V, contra a decisão que não admitiu seu recurso especial. O apelo nobre, fundamentado no art. 105, inciso III, alínea a, da CF/88, visa reformar acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS, assim resumido: APELAÇÃO CÍVEL. RECONHECIMENTO E DISSOLUÇÃO POST MORTEM DE UNIÃO ESTÁVEL. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA. 1. PARA SE CONFIGURAR A UNIÃO

ESTÁVEL, REVELA-SE NECESSÁRIO O PREENCHIMENTO DOS

REQUISITOS ELENCADOS NO ART. 1.723 DO CÓDIGO CIVIL, QUAIS SEJAM: CONVIVÊNCIA PÚBLICA; CONTÍNUA E DURADOURA; E COM O OBJETIVO DE CONSTITUIÇÃO DE FAMÍLIA. 2. A JURISPRUDÊNCIA DO STJ É UNÍSSONA NO SENTIDO DE QUE RELACIONAMENTO DE NAMORO NÃO SE CONFUNDE COM UNIÃO ESTÁVEL. 3. SE A PROVA COLACIONADA NÃO SE REVELAR SUFICIENTE PARA ATESTAR A CONVIVÊNCIA PÚBLICA, CONTÍNUA, DURADOURA E COM ÂNIMO DE CONSTITUIR FAMÍLIA, ALIADA AO FATO DE NÃO HAVER QUALQUER COMPROVAÇÃO DE RESIDÊNCIA NO MESMO ENDEREÇO, APESAR DE A ALEGAÇÃO DE DOMICÍLIO COMUM TER SIDO UTILIZADA COMO REFORÇO ARGUMENTATIVO, A IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO DE RECONHECIMENTO DE UNIÃO ESTÁVEL É MEDIDA IMPOSITIVA. 4. APELAÇÃO CONHECIDA E PROVIDA (fl. 290) [...]. (BRASIL, 2019) (grifo nosso).

No que concerne ao reconhecimento jurídico do contrato de namoro, a 3ª câmara de direito privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em 2016, negou provimento da Apelação que pleiteava a ação de reconhecimento e dissolução do contrato de namoro, bem como a doação de um imóvel para a requerente. O referido tribunal justificou seu voto em virtude da pretensão não possuir amparo no ordenamento jurídico, não podendo ser posto em juízo para solução pelo Poder Judiciário.

AÇÃO DE RECONHECIMENTO E DISSOLUÇÃO DE CONTRATO DE NAMORO CONSENSUAL. Falta de interesse de agir e impossibilidade jurídica do pedido. Inicial Indeferida. Processo Julgado Extinto. Sentença mantida. RECURSO DESPROVIDO. (BRASIL, 2016).

Além disso, enfatizou o Relator Beretta da Silveira que o referido recurso não comporta acolhimento, pois “o interesse de agir, previsto no inciso VI, do artigo 267, do CPC, localiza-se na necessidade do processo como remédio apto à aplicação do direito objetivo ao caso concreto, requer, pois, a presença de dois requisitos cumulativos, quais sejam: a necessidade e a adequação”. Por esse motivo, não há necessidade de o autor ajuizar uma ação para doar um imóvel para a requerente, ocorrendo a falta de interesse de agir. Quanto ao desprovimento do recurso pela impossibilidade jurídica do objeto, este se deu em virtude da ausência de previsão legal que reconheça o contrato de namoro.

A 7ª câmara do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, no ano de 2004, em recurso de Apelação contra decisão que declarou união estável de um relacionamento que durou nove anos, acatou o recurso por falta das características que pressupõem união estável, visto que o apelante não pretendia que o relacionamento fosse tão público, restando configurado um namoro. Ainda, o Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos recomendou “só reconhecer a união estável em situações em que ela esteja palpitante na prova dos autos, nunca em situações dúbias, contraditórias ou que a prova se mostre dívida”. (BRASIL, 2004).

No mencionado julgado, pronunciou ainda o Desembargador sobre contrato em comento: “esses abortos jurídicos que andam surgindo por aí, que são nada mais que o receio de que um namoro espontâneo, simples e singelo, resultante de um afeto puro, acaba se transformando em uma união com todos os efeitos patrimoniais indesejados ao início”. (BRASIL, 2004).

Recentemente, a 8ª câmara cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul improcedeu recurso de Apelação, reconhecendo a caracterização da união estável por analisar presente todos os requisitos do artigo 1.723 do Código Civil. Ademais, o tribunal restou claro a não necessidade de prole para a configuração da união estável, visto a possibilidade de família ser composta por duas pessoas, conforme depreende-se pela leitura do julgado a seguir colacionado:

APELAÇÃO CÍVEL. UNIÃO ESTÁVEL CARACTERIZADA. Requisitos configuradores da união estável, conforme o artigo 1.723 do Código Civil: ser entre homem e mulher (embora decisões recentes a admitam entre pessoas do mesmo sexo), ser pública, contínua, duradora e com o objetivo de constituição de uma família, além da fidelidade (incluído pela jurisprudência). Há respaldo probatório para ambas as versões. Assim, o contexto probatório mostra que o de cujus considerava a relação com a apelada mais do que um simples namoro. Observa-se que no apartamento do de cujus havia contas no nome da apelada, e que ele deixava cheques em branco e

assinados para que ela pagasse as despesas da casa, e que acompanhou ele quando de sua internação no hospital. Ainda, levavam os animais de estimação juntos no veterinário, frequentavam a mesma academia e, ainda, fizeram terapia de casal. Dessa maneira, restaram comprovados os requisitos que a lei exige para a configuração de união estável: affectio societatis familiar, participação em esforços posse do estado de casado, continuidade da relação e, de forma relativizada, a fidelidade. Ficou claro nos autos que o de cujus não desejava ter filhos, o que não indica inexistência do elemento subjetivo, pois é bem possível que a família seja composta por apenas... duas pessoas. APELO IMPROVIDO. UNÂNIME. (BRASIL, 2018) (grifo nosso). Destarte, infere-se que o Desembargador Ivan Leomar Bruxel, ao deferir seu voto, destacou como alternativa a formalização do contrato de namoro para que fosse afastada a hipótese de que os parceiros estivessem vivendo em união estável:

Destaco que tampouco se desincumbiu o falecido de evitar mal entendidos acerca de seu relacionamento com a autora, o que poderia ter feito, por exemplo, formalizando um contrato de namoro, que afastasse a hipótese de que estivesse vivendo em união estável. (BRASIL, 2018) (grifo nosso).

No mesmo intento, a 9ª câmara de direito privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo negou provimento do recurso de Apelação, concordando no não reconhecimento de união estável pela falta do requisito do objetivo de entidade familiar. Além disso, as partes haviam firmado contrato de namoro, o que corroborou, também, pela incidência de um simples namoro. (BRASIL, 2020).

Ainda, o Relator Rogério Murillo Pereira Cimino, ao decidir seu voto, enfatizou o reconhecimento jurídico do contrato de namoro que fora firmado pelas partes:

“Em especial, o contrato de namoro firmado pelas partes (fls. 41/43), que foi celebrado dentro dos ditames do artigo 104, do Código Civil, inexistindo patente vício de vontade que poderia ensejar, de plano, o reconhecimento de eventual nulidade. De tal sorte, é válido”. (BRASIL, 2020) (grifo nosso).

Diante do exposto, denota-se que a 3ª câmara Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, no ano de 2016, não possibilitou o provimento do recurso de Apelação para reconhecimento e dissolução do contrato de namoro pelo motivo desse instrumento não ter amparo jurídico. Por conseguinte, no ano de 2020, a 9ª câmara do mesmo tribunal negou provimento de Apelação, afastando a configuração da união estável por falta do requisito do artigo 1.723 do Código Civil, contudo, reconheceu, juridicamente, a validade do contrato de namoro firmado pelas partes nos termos do artigo 104 do Código Civil, o que reforçou para a descaracterização da união estável.

Tal divergência também sucedeu no Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul que, em 2010, a 7ª câmara cível negou provimento do recurso de Apelação, não reconhecendo o instituto da união estável, em razão da falta de evidência da condição similar à

de casados. Em justificativa de voto, o Desembargador José Conrado de Souza Júnior, faz a seguinte assertiva acerca do contrato de namoro:

Em virtude da dificuldade para identificação do trânsito da relação fática (namoro) para a relação jurídica (união estável), alguns profissionais da advocacia, instigados por seus constituintes, que desejam prevenir-se de consequências jurídicas, adotaram o que se tem denominado contrato de namoro. Se a intenção de constituir união estável fosse requisito para sua existência, então semelhante contrato produziria efeitos desejados. Todavia, considerando que a relação jurídica de união estável é ato-fato jurídico, cujos efeitos independem da vontade das pessoas envolvidas, esse contrato é de eficácia nenhuma, jamais alcançando seu intento. (BRASIL, 2010) (grifo nosso).

Como elencado, no ano de 2010, a 7ª câmara do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul não previu nenhuma eficácia no contrato de namoro. Entretanto, de acordo com o julgado já abordado, em 2018, a 8ª câmara do mesmo tribunal, como medida para afastar o reconhecimento da união estável, dirigiu a possibilidade da formalização do contrato de namoro.

Ademais, a 7ª câmara cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul também, no ano de 2010, reconheceu o desprovimento do recurso Agravo de Instrumento, mantendo sentença que não reconheceu união estável e, consequentemente, a fixação de alimentos provisórios à ex-companheira. Segundo o que conta na inicial, a agravante fora uma das únicas parceiras do agravado que se negou a assinar o contrato de namoro e, mesmo sem a celebração desse negócio jurídico, a união estável não restou caracterizada por motivo da inexistência de uma entidade familiar. (BRASIL, 2010).

No entanto, a segunda turma do Superior Tribunal de Justiça em 2018 negou provimento do recurso de Agravo Interno no Agravo em Recurso Especial, verificando a não configuração da união estável entre a falecida e o autor. O motivo se deu, uma vez que não ficou demonstrado nenhum dos requisitos do artigo 1.723 do Código Civil. Em fundamentação, o Ministro OG Fernandes, intentou a respeito da união estável:

[...] à natura jurídica ria união estável Trata-se de fato jurídico que gera efeitos jurídicos. A união estável não e inaugurada nem criada por um negócio jurídico. A essência da relação não é definida pelo contrato, muito menos pelo olhar da sociedade, ou de testemunhas em audiência Essa modalidade de união é uma situação de fato que se consolida com o decorrer do tempo (donde surgiu o requisito "relação duradoura", ou "razoável duração") e não depende de nenhum ato formal para se concretizar. (BRASIL, 2018).

Isso posto, o referido Ministro manifestou acerca do reconhecimento jurídico do contrato de namoro:

[...] pela regra da primazia da realidade, um "contrato de namoro" não terá validade nenhuma em caso de separação, se, de fato a união tiver sido estável. A contrário senso, se não houver união estável, mas namoro qualificado que poderá um

dia evoluir para uma união estável o "contrato de união estável" celebrado antecipariamente à consolidação desta relação não será eficaz ou seja, não produzirá efeitos no mundo jurídico. (BRASIL, 2018) (grifo nosso).

Notável, no caso acima indicado, que mesmo com a realização de um contrato de namoro, se sendo comprovada a união estável, não culminará validade o negócio jurídico. Assim, percebe-se nenhum consenso entre os tribunais ao denominado contrato de namoro, como já visto que, no ano de 2004, mesmo após o Desembargador Luiz Felipe Brasil Santos, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, verificar o contrato de namoro como um “aborto jurídico”, em 2020, o Desembargador Ivan Leomar Bruxel prevê a necessidade desse instrumento como meio de afastar os efeitos da união estável.

5 CONCLUSÃO

O objetivo dessa monografia foi analisar o reconhecimento jurídico do contrato de namoro, assim como a sua validade e eficácia para a descaracterização da união estável.

O direito de família é um conjunto de regras e princípios que organiza as relações familiares, parentais e conjugais. Seus princípios basilares são da dignidade da pessoa humana, da solidariedade familiar, da igualdade familiar, da afetividade, do pluralismo familiar, da convivência familiar e do melhor interesse da criança.

A união estável é caracterizada por elementos de um núcleo familiar, determinado pela doutrina e jurisprudência, tais eles: convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família. Após a sua evolução legislativa, que sucedeu pela Constituição Federal de 1988, Lei 8.971/1994 e Lei 9.278/1996, atualmente é consolidada pelo Código Civil, expressa no artigo 1.723.

Frisa-se que a lei não exige que os companheiros residam sob o mesmo teto, uma vez que continua em vigor a súmula 382 do Supremo Tribunal Federal. Ademais, não há requisito formal obrigatório para que a união estável reste configurada, como a elaboração de uma escritura pública ou uma decisão judicial. Desde que presente os elementos caracterizadores, a união estável já subsiste.

A respeito do direito contratual, o contrato é um negócio jurídico bilateral ou plurilateral, em que as partes declaram sua vontade com o objetivo de criação ou alteração de direitos e deveres patrimoniais. Desse modo, é regido pelos principais princípios: da autonomia da vontade, do consensualismo, da força obrigatória, da boa-fé e da função social do contrato. Além disso, os contratos requerem elementos constitutivos para fins de validade, os expressamente elencados no artigo 104 do Código Civil (agente capaz, objeto lícito, possível, determinado ou determinável, forma prescrita ou não defesa em lei). Entretanto, não cumprindo seus requisitos legais, consequentemente, o negócio jurídico será nulo nos termos do artigo 166 do Código Civil, ou anulável, quando celebrado por relativamente incapaz ou afetado por algum vício do consentimento conforme aludido no artigo 171 do Código Civil.

Apesar das semelhanças entre o namoro qualificado e a união estável, salienta-se que a diferença desses institutos é uníssona entre a doutrina e os tribunais, ambos ressaltam que o objetivo de constituir família é elemento presente somente na união estável. Contudo, como forma de garantir a segurança jurídica aos parceiros que mantêm uma relação de namoro qualificado, adveio na advocacia moderna o denominado contrato de namoro.

O contrato de namoro tem por finalidade comprovar que a relação amorosa é apenas um mero namoro, sem o objetivo de constituir família, desprovendo de efeitos patrimoniais que podem advir de uma futura união estável. Trata-se de um instrumento novo discutido entre as doutrinas e os tribunais, todavia são incessantes as divergências do seu reconhecimento jurídico em relação a sua validade e eficácia, abrindo ênfase para muitos posicionamentos.

Diante do estudo, concluiu-se que, analisando o posicionamento doutrinário, apesar da notória divergência do reconhecimento jurídico do contrato de namoro, a maioria da doutrina assim como Tartuce e Madaleno, reconhece-o desprovido de validade jurídica quando esse instrumento é utilizado para afastar direitos patrimoniais e, muitas vezes, pessoais, como os alimentos, de uma relação estável existente.

A fundamentação da invalidade decorre da renúncia da parte contratante ao seu direito patrimonial através da formalização desse instrumento. Ademais, as normas de regulamentação da união estável são cogentes, de ordem pública, não sendo possível modificá-las, assim, é nulo por fraude à lei imperativa, e, também, por ser o seu objeto ilícito.

De outro vértice, é persistente a corrente que entende a eficácia relativa ao reconhecimento jurídico do contrato de namoro, assim defendida por Lôbo e Gonçalves. Sob a ótica dessa linha, a relação jurídica da união estável é um ato jurídico, cuja eficácia independe da vontade das pessoas envolvidas, ou seja, a união estável é uma situação fática, cujos reflexos jurídicos decorrem da convivência humana. Assim, o contrato de namoro pode ser apresentado por meio de prova, todavia, há possibilidade de ser contradito por meio de outras provas, e este não mais ser eficaz.

No tocante à posição jurisprudencial, a matéria ainda é nova entre os tribunais, entretanto o dissenso também é patente. De acordo com os julgados colhidos, é perceptível que, com o passar do tempo, os tribunais verificaram o contrato de namoro como um instrumento corroborativo ao mundo jurídico. Como exposto, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio do Grande do Sul em 2010 não previu eficácia, entretanto, em 2020, fora citado como alternativa para que fosse afastada a hipótese de que os parceiros estivessem vivendo em união estável.

Observou-se que as decisões recentes, no ano de 2020 do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e do Rio Grande do Sul, ocorreram após o Superior Tribunal de Justiça, em 2018, manifestar-se que o contrato de namoro não proverá validade jurídica se, após a separação, restar configurado que a união entre os litigantes fora estável. Nessa interpretação, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em um determinado caso, analisou esse instrumento como

válido, com a inexistência de vícios, considerando o preenchimento dos requisitos expressos no artigo 104 do Código Civil, não verificando a caracterização da união estável pela falta do requisito da entidade familiar.

Apesar do dissenso entre a doutrina e os tribunais, no tocante ao reconhecimento jurídico do contrato de namoro, é possível verificar que ambos concordam em um ponto. O contrato de namoro terá validade jurídica e seus efeitos, uma vez que na relação amorosa não restar configurado o instituto da união estável. Nesse caso, o objetivo de constituir família deve ser afastado, elemento que difere o namoro qualificado da união estável.

No entanto, verificado após a ruptura dos parceiros a comprobabilidade da caracterização da união estável, o contrato de namoro será declarado como inválido, não provendo efeitos ao mundo jurídico, por força do artigo 166, incisos II e VI do Código Civil, tendo em vista visar a fraudar a lei, e pelo seu objeto ilícito, de modo que não possui condão para alterar o estado civil das pessoas, em virtude da união estável ser regulada por norma cogente de ordem pública.

Nesses termos, o contrato de namoro não é um documento absoluto. O juiz pode entender que o respectivo contrato revela uma tentativa fraudulenta na apreciação do caso concreto e na verificação do conteúdo da prova, ignorando o documento e configurando a relação entre as partes uma união estável. Isso não significa que o contrato seja inválido em sua origem, mas que ele não está mais de acordo com a situação real vivida por ambos os cônjuges. Portanto, ao observar o contrato de namoro pela ótica jurídica, é evidente que as partes que formalizaram o contrato não conseguirão impedir a configuração da união estável apenas realizando esse negócio jurídico. O motivo se dá, pois, os elementos constitutivos de uma união estável decorrem de elementos fáticos vividos pelo casal, assim, não poderiam ser afastados por um contrato de namoro.

Ademais, as normas que regulamentam o instituto da união estável têm caráter cogente, de ordem pública, que, na tentativa de afastar os direitos proventos da união estável, estariam também ferindo o princípio da autonomia da vontade presente no direito contratual, visto que este se limita às normas cogentes.

Assim, havendo litígio entre os conviventes, o contrato de namoro pode ser destituído por outros meios de provas que confirmem a vivência de uma união estável, e consequentemente ser declarado como nulo por fraude a lei imperativa e objeto ilícito. Entretanto, verificado pelo julgador nenhuma prova que confirme a união estável entre as partes

litigantes, o contrato de namoro poderá prover validade jurídica desde que os elementos constitutivos estejam elencados como determina o artigo 104 do Código Civil.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Álvaro Villaça. Bem de família. In. TARTUCE, Flávio. Direito de Família. vol. 5. 14ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019. 774 p.

AZEVEDO, Álvaro Villaça. Curso de direito civil: direito de família. 2. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019. E-book. Acesso restrito via Minha Biblioteca.

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