2 A LEGALIZAÇÃO DA MACONHA PARA FINS MEDICINAIS COMO UM
2.2 Decisões judiciais levam à retirada da substância canabidiol da lista de
Após breve análise sobre a evolução legislativa no que se refere ao combate às drogas, é pertinente verificar as decisões judiciais que contribuem para sustentar a necessidade de retirar a vedação da ANVISA ao uso da substância canabidiol para tratamentos terapêuticos e fins medicinais.
Preliminarmente, cabe destacar que para Sergio Nojiri (2018)
Há, pelo menos, duas maneiras distintas de entender o significado da expressão “decisão judicial”. A primeira, em sentido estrito, como a decisão que termina o processo judicial e a segunda em sentido lato, aplicada a um conjunto de relevantes escolhas tomadas durante o processo, mas que não tem como função encerrá-lo.
Isso quer significar que as decisões judiciais no Primeiro Grau de jurisdição que abaixo serão abordadas, referem-se as escolhas que os Juízes tomaram para preservar a vida e a dignidade humana.
A primeira decisão judicial a ser analisada diz respeito a Ação Civil Pública nº 0090670-16.2014.4.01.3400, proposta pelo Ministério Público Federal no Distrito Federal.
O Ministério Público Federal do Distrito Federal ajuizou ação civil pública no ano de 2014, visando permitir o uso terapêutico, medicinal e científico da maconha no Brasil, a fim de ver, desse modo, o direito à saúde de diversos brasileiros assegurados, tendo em vista as enfermidades gravosas que lhes acometem, cujos sintomas são aliviados somente com a utilização das substâncias componentes da cannabis.
No entanto, a ANVISA esclarece que muitos dos produtos que contenham Canabidiol e THC não são registrados nos países de sua origem como fármacos, não havendo, destarte, avaliação por autoridades sanitárias. Contudo, já vem sendo liberado pela organização, de forma excepcional, a importação dos produtos para uso pessoal, sendo retirado o Canabidiol da lista das substâncias proibidas em janeiro de 2015, com ela passando a ser uma substância de uso controlado.
O procedimento utilizado para a realização das autorizações é demorado, podendo a ANVISA levar, em média, 11 dias para realizar as autorizações, sempre atendendo a decisões judiciais.
Dessa forma, para que se efetue a importação de tais produtos, faz-se necessário o paciente atender as normativas estabelecidas pela RDC 17/2015. Isto é, solicitar à Anvisa uma Autorização Excepcional para a que se realize a importação e utilização do produto a base das substâncias que compõem a cannabis, devendo sempre apresentar prescrição médica, laudo médico, bem como declaração de responsabilidade assinada pelo médico e o necessitado, e, em caso de menor incapaz, responsável legal.
Ainda, os insumos devem estar regulamentados em seus países de origem, assim como a empresa que produz a medicação.
Insta salientar, que o procedimento adotado, atualmente, acaba prejudicando os pacientes que necessitam dos produtos derivados da maconha para aliviar os sintomas e tratar suas enfermidades.
Como acima mencionado, a ANVISA leva até 11 dias para a liberação de uma autorização para a importação da medicação ao Brasil. Lembra-se, com extrema importância, o caso do Gustavo Guedes, mencionado ao parágrafo 17, no item 1.5, deste trabalho, pois o período para a liberação da autorização impediu que o garoto suportasse as consequências de sua enfermidade e o levou ao falecimento.
Salvo melhor juízo, a Ação Declaratório de Constitucionalidade, proposta pelo Partido Popular Socialista (PPS) para que o Supremo Tribunal Federal, em vistas da
dignidade dos pacientes que se utilizam da substância canabidiol para fins medicinais e terapêuticos, torne evidente a ausência de crime ou contravenção, descriminalizando a ação daquele que adquire para esses fins.
Veja-se:
A Ação Direta de Constitucionalidade nº 5780 (ADI 5780), ajuizada pelo Partido Popular Socialista (PPS) para que seja afastado entendimento que criminaliza plantar, cultivar, colher, guardar, transportar, prescrever, ministrar e adquirir Cannabis para fins medicinais e de bem-estar terapêutico, foi analisada diretamente no mérito pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), em 10 de julho de 2017. A decisão foi da ministra Rosa Weber, que dispensou a análise do pedido de liminar e aplicou ao caso o rito abreviado previsto no artigo 12 da Lei 9.868/1999. Ou seja, com base nos resultados das investigações científicas sobre os reais efeitos terapêuticos das substâncias que estão presentes na cannabis, a ADI 5780, requer a declaração de inconstitucionalidade dos artigos 28, com a alteração na interpretação de alguns componentes dos artigos 33, 34, 35 e 36 da Lei de Drogas, bem como do art. 334-A do Código Penal, para afastar a criminalização do plantio e cultivo da erva com fins medicinais, tendo em vista as benesses que são oferecidas pela maconha.
Por outro lado, para o PPS, a ausência de regulamentação específica da matéria tem levado à ilegalidade as pessoas que buscam na cannabis tratamento para condições de saúde e, mais recentemente, tem resultado na multiplicação de ações judiciais em que se pede o acesso a medicamentos dela derivados.
Pode-se observar que mesmo com a autorização judicial para a importação dos fármacos elaborados com as substâncias presentes na maconha para o uso terapêutico e medicinal, não quer dizer que não são proibidas. Isso, pois a Portaria n. 344/1998, do Ministério da Saúde, proíbe o uso do tetrahidrocanabinol, famoso pela sigla THC, que é um dos princípios ativos da maconha.
Dessa forma, os médicos ficam impedidos de fornecer laudo ou receita médica, documentos que são imperativos à realização da importação dos óleos e fármacos que são derivados do que se extrai da cannabis.
Por isso, em sua decisão a ministra requisitou informações a Presidência da República, Senado Federal e outros órgãos no prazo de dez dias e após findado esse período, os autos devem seguir para advogados da União e procuradores da República para seus pareceres.