NEGROS NA LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL: PARAHYBA DO NORTE E O
1.5 Declínio da escravidão, continuidade da interdição: década de
Desde a Lei do Ventre Livre, importantes espaços de disputa sobre os rumos da mão de obra no Brasil eram o político e o jurídico. Esse processo se acirrou nos anos de 1880 (MENDONÇA, 1999). A contenda sobre o destino dos libertos estava relacionada à preocupação com a formação da mão-de-obra; o controle das massas na eventualidade da abolição que era desejada por diferentes categorias e forçada pela atuação de escravos, ex-escravos e opositores ao sistema escravista; a defesa do sistema republicano; além do acirramento da importância da instrução na formação dos cidadãos brasileiros após a reforma eleitoral com a Lei Saraiva de 1881. Essas questões se refletiam nas escolhas inscritas na legislação educacional do período. Como nas décadas anteriores, não há homogeneidade entre as províncias, nem continuidade dentro de cada uma delas até o final do período escravista no que se refere à educação de negros (escravos, ingênuos) em espaços oficiais. Os conflitos e disputa que movimentavam a sociedade reverberavam nas leis aprovadas.
Em diferentes províncias a legislação permite acompanhar o movimento de ir e
vir em relação à matrícula e frequência escrava: Mato Grosso69, Santa Catarina70,
Goiás71, com poucos anos de intervalo, aprovaram regulamentos que eram explícitos em
relação à proibição e que, depois, silenciavam sobre escravos. Essas mudanças indiciam
disputas sobre os projetos de sociedade. Por exemplo, no Mato Grosso pesquisas
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Em 1878 a província impedia a matrícula de escravos, mas dois anos depois essa proibição não existia: o regulamento deslocava para cada escola a responsabilidade da escolha dos alunos: “No regimento interno das escolas se estabelecerão as condições de matrícula, frequencia e regras para os exercícios escolares, meios disciplinares, forma e época dos exames, escrituração dos livros a cargo dos professores, e outros objetos desta ordem, que não estiverem expressamente aqui regulados” (Mato Grosso, Regulamento da Instrução Primária e Secundária, de 1880, grifo nosso).
70O Regulamento para a Instrução Pública de 1881, repetia a redação da lei anterior: “Art. 83. Não serão
admittidos á matricula, nem poderão frequentar as escolas: §2 os escravos” (SEBRÃO, 2010, p. 66). Já o Regulamento de 1883 não interditava a matrícula a escravos (ou cativos, como aparecera em outros momentos) (SEBRÃO, 2010, p. 66).
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O governo provincial determinava: “Os paes, tutores, curadores e quaesquer pessoas que tenhão sob sua guarda meninos na idade escolar os matricularão nas escolas, declarando a sua idade, filiação, e residencia”. Porém, segundo o 32° “Não serão admittidos á matricula. 4° Os escravos” (Goiás, Regulamento da Instrução Pública, 1884). Dois anos depois, o Regulamento da Instrucção Pública Primária e Secundária (1886) não aludia a quem poderia ou não ser matriculado em nenhum dos níveis.
confirmam a presença negra, inclusive escrava, em escolas oficiais, especialmente após a Lei do Ventre Livre (MIRANDA, 2010), a despeito da proibição. A ausência de proibição pode significar a aceitação desses alunos nas escolas.
Os debates e disputas que as leis deixam entrever aparecem explícitos em falas oficiais. Na província do Rio de Janeiro o ano de 1880 também encerrava com um novo Regulamento. O documento tinha entre seus objetivos regrar a concessão de subvenção a escolas primárias particulares, que deveriam ser instaladas em freguesias sem escolas públicas ou escolas já subvencionadas. Entre os documentos elencados para o pedido de subvenção, Moacyr (vol. II, 1939, p. 279, grifos nossos) registra a exigência do “atestado do inspetor paroquial do número de alunos, quer sejam ingênuos ou libertos, que frequentam efetivamente a escola, e destes quais os alunos no caso de precisarem de subvenção, com uma relação dos seus nomes, idade, filiação”. Ele prossegue:
O diretor da instrução, conselheiro Josino do Nascimento Silva depois de uma série de ponderações sobre a instrução conclui com os seguintes desiderata: a) aumentar o número de escolas subvencionadas nos lugares onde não houver escola pública; b) aumentar o número de escolas noturnas, pelo menos, nas cidades e vilas que ainda não tem; c) estabelecer colégios (internatos) para recolher ingênuos e as crianças que não recebem cuidados das famílias, ou que, sendo órfãs, não forem dadas a soldada. Nesses colégios será da maior utilidade a criação de oficinas onde se aprendam ofícios necessários e úteis nos estabelecimentos rurais. É o aproveitamento das forças sociais, colonização dos naturais e começo do ensino obrigatório (MOACYR, vol. II, 1939, p. 282, grifos nossos).
A referência à necessidade estabelecimentos para recolher ingênuos e a menção a “ingênuos ou libertos” entre os alunos que frequentavam a escola, incluindo-os na discussão sobre ensino particular – pensado no bojo da ampliação da oferta da instrução para toda a sociedade – também atesta a importância dada à população negra no debate sobre a instrução no início da década de 1880 no Rio de Janeiro.
A preocupação com essas categorias aparecia em outras províncias. No Rio Grande do Sul, o Regulamento da Instrução Pública de 1881, sobre o ensino obrigatório, não proibia a matrícula de escravos nem de outras categorias (portadores de doenças, não vacinados.). Havia uma brecha, inclusive: um artigo da lei determinando que o professor que desejasse poderia utilizar espaço e mobília da escola para abrir vagas noturnas. Ampliando o processo iniciado na década anterior naquela província, provavelmente as aulas noturnas seriam a dimensão permitida aos escravizados.
de governantes como em Alagoas72 ou Bahia73. Sobre a última província, Moacyr registra que em 1883 (1939, vol. II, p. 182):
Tendo um professor da cidade da Barra do Rio Grande consultado à diretoria geral da instrução sobre a admissão de “ingênuos” nas escolas públicas foi-lhe declarado que sendo considerados de condição livre os filhos de mulher escrava, nascidos no Império desde a data da lei de 28 de setembro de 1871, não podiam deixar de ser admitidos à matrícula escolar, mediante guia dos senhores, das mães ou de quaisquer outras pessoas em poder, ou sob autorização dos quais se achassem. Não pode deixar de ser bem aceita esta decisão por isso que ela é de acordo com os princípios humanitários e de civilização.
Salta aos olhos a mudança na fala do presidente da província, em relação às legislações anteriores: os ingênuos “não podiam deixar de ser admitidos à matrícula escolar”, sendo necessária a autorização “dos senhores ou das mães ou de quaisquer pessoas em poder ou sob autorização se achassem”.
No Paraná, a Lei do Ventre Livre apareceria explicitamente na legislação desta
década74. Em 1883, o primeiro artigo do Regulamento do Ensino Obrigatório fixava:
Art. 1º É obrigatória a frequência das escolas de ensino primário nas cidades, vilas e povoações para todas as crianças; sendo dos 7 aos 14 anos de idade para o sexo masculino, dos 7 aos 12 para o sexo feminino.
§ Único. Estão compreendidos nas disposições deste artigo os ingênuos da lei de 28 de setembro de 1871 (Paraná, Regulamento do Ensino Obrigatório, 1883, grifo nosso).
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Moacyr menciona iniciativas para ingênuos no final da década: “A Escola central sob a direção da Sociedade Libertadora Alagoana, de acordo com a lei de 23 de junho de 1886, foi inaugurada nesta capital em abril do ano seguinte; compõe-se de um internato e de um externato para instrução gratuita de
ingênuos e menores desvalidos. Um dos raros estabelecimentos dessa natureza está a reclamar os
cuidados do poder legislativo. Acham-se ali fundadas sete oficinas afora aulas de primeiras letras e de música e de desenho aplicado às artes. A escola primária tem 81 alunos, a aula de música 22 e a de desenho 14. As oficinas são de sapateiro, marcenaria, alfaiate, torneiro, tamanqueiro, bauleiro, tipográfica. As oficinas ocupam 29 jovens” (MOACYR, vol. 1, 1939, p. 621). Afora a iniciativa específica, ele não alude a regulamentos gerais na província e se esses trariam inscrita a proibição a escravos ou se seguiriam a lei citada, permitindo a presença de ingênuos nas escolas públicas.
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Apesar dessa preocupação, a interdição se mantinha: segundo o Regulamento de 1881, “a matrícula será feita pelo professor, mediante guia do pai, tutor ou protetor, em que se declare, além da naturalidade e filiação do menino, não ser escravo, ter idade de cinco a quinze anos, estar vacinado e não sofrer moléstia contagiosa” (CONCEIÇÃO, p. 49, grifo nosso).
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Ao abordar os debates sobre educação de ingênuos na região, Anjos (2011, p. 93) comenta: “O artigo da lei, como se vê, não continha nenhuma proibição à frequência dos ingênuos às aulas públicas, mas sim dos escravos. E, no entanto, Pedro Fortunato considera que as matrículas estavam vedadas “aos escravos e por consequência aos ingênuos”. Que um sujeito possa ler e distorcer o que lê, não é nenhuma novidade nas análises historiográficas (o Menocchio de Ginzburg não nos deixa mentir). Mas, que essas distorções – ou seriam interpretações? – também são uma fonte de informação, é inegável. A fala de Pedro Fortunato indicia que não havia clareza na compreensão do verdadeiro estatuto social dos ingênuos: essas crianças permaneciam juridicamente livres, mas o que seria essa liberdade e a quê universo ela daria acesso era algo ainda a ser resolvido”.
Aquela lei obrigava que proprietários decidissem sobre o destino dos ingênuos a partir de 1878, quando começariam a completar oito anos. A incorporação dessas crianças na lei paranaense que instituía a obrigatoriedade do ensino primário cinco anos depois exemplifica a disputa entre o estado e os interesses privados dos senhores de escravos (MENDONÇA, 1999). Neste caso, o poder público interferia nos interesses particulares dos proprietários, procurando obrigá-los a matricular na escola primária inclusive aqueles que fossem mantidos em sua propriedade.
A Província de São Paulo reiterou a proibição de escravos nas escolas públicas até o final da década, quando o regime escravista estava em seus momentos finais. No entanto, as aulas noturnas estariam franqueadas a eles caso seus senhores assim o permitissem. Segundo o Regulamento para a instrução pública provincial, de 22 de agosto de 1887, não seriam admitidos à matrícula: “§5º Os escravos, salvo nos cursos nocturnos e com consentimento dos senhores”. Essa exceção nos cursos noturnos reforça a ideia de que esses seriam espaços permitidos (e desejados) a escravos.
A Parahyba do Norte estava inserida nesses debates. Em 1884, as escolas públicas se mantinham proibidas a cativos. O termo escravo era substituído pela exigência de ser livre para admissão:
Art. 8.º Para admissão á matricula e frequencia das escolas publicas exige-se: ser livre, maior de 6 e menor de 15 annos, não sendo, porem, admissiveis nas escolas mistas, alumnos do sexo masculino, maiores de 12 annos; e estar vaccinado; não soffrer molestia contagiosa, o que tudo deverá constar d’uma guia passada pelo pai, tutor ou protector do matriculando, na qual se declarará tambem a naturalidade e filiação d’este. Nas escolas nocturnas a idade exigida será de 15 annos para cima (Parahyba do Norte, Regulamento nº 30, 1884, grifos nossos).
As aulas noturnas, que vigoravam na província desde a década anterior, objeto de debates e que sofriam sucessivas aberturas e encerramentos, eram contidas no mesmo artigo que mencionava a proibição. Ganhavam, porém, outro artigo:
Art. 14. Poderá o presidente da provincia quando julgar conveniente, crear no termo da capital e em outros quaesquer da província, escolas nocturnas. § unico. Estas escolas serão regidas, mediante uma gratificação rasoavel, por algum dos professores públicos da localidade, designado pelo presidente da província sob indicação da directoria geral da instrucção publica. – A idade exigida para essas aulas é de 15 annos para cima (Parahyba do Norte, Regulamento nº 30, 1884, grifos nossos).
paraibana, atingindo também as escolas noturnas. De acordo com o último marco jurídico do período imperial na província:
Para admissão da matrícula e freqüência das escolas públicas exigese ser livre, maior de 6 e menor de 15 anos, sendo porém admissíveis nas escolas mistas, alunos do sexo masculino maiores de 10 anos, estar vacinado e não sofrer moléstia contagiosa: o que tudo deverá constar de uma guia passada pelo pai, tutor ou protetor do matriculado, na qual se declarará também a naturalidade e filiação deste. Nas escolas noturnas a idade exigida será de 15 anos para cima (Parahyba do Norte, Regulamento nº 36, 1886).
As variadas formas como negros aparecem ou não nas legislações do ensino nos anos de 1880 refletem disputas sobre seu lugar na sociedade brasileira e revelam a escola como espaço de conflito. Da lei paranaense que ordenava que as escolas primárias matriculassem os ingênuos em 1883, em obediência à Lei do Ventre Livre, ao regulamento paulista que às vésperas da abolição exigia consentimento dos senhores para matricular escravos, ainda que no ensino noturno, assim como na paraibana que diferenciava escolas públicas (proibidas) e noturnas (deixando ambíguo se a proibição valia para elas), a relação entre negros e educação deve ser matizada. Sílvia Lara (1995, p. 46) destaca o papel de escravos como sujeitos históricos:
Ao tratarmos da escravidão e das relações entre senhores e escravos, tanto quanto ao tratarmos de qualquer outro tema histórico, lembramos, com Thompson, que as relações históricas são construídas por homens e mulheres num movimento constante, tecidas através de lutas, conflitos, resistências e acomodações, cheias de ambigüidades. Assim, as relações entre senhores e escravos são fruto das ações de senhores e de escravos, enquanto sujeitos históricos, tecidas nas experiências destes homens e mulheres diversos, imersos em uma vasta rede de relações pessoais de dominação e exploração.
As mudanças ocorridas nas legislações provinciais dessa década demonstram esses movimentos constantes sugeridos pela autora.
1.6 Síntese
Leis, decretos e regulamentos sobre instrução, falas dos envolvidos na administração de diferentes províncias e resultados de pesquisas sobre educação da população negra revelam que a matrícula de negros não era proibida nas escolas do século XIX. Mesmo a interdição a escravos, presente em grande parte das legislações imperiais, deve ser historicizada. Da primeira lei analisada, de 1835 em Minas Gerais à
de São Paulo em 1887, última encontrada no período imperial, é possível verificar uma multiplicidade de textos, de tipos de proibições, de ausências, e também de permissões.
Com isso, não pretendemos negar a especificidade da condição de ser negro numa sociedade escravista, que impunha a lógica senhor-escravo, mesmo aos que não eram cativos, como voltaremos a discutir no próximo capítulo. As pesquisas sobre o século XIX constatam dificuldades, empecilhos e restrições à presença negra na escola. Estas eram baseadas nos costumes, na cultura, e também na legislação, mesmo quando a lei vedava a instrução a escravos e não a qualquer outro tipo de sujeito de origem negra.
Não defendemos que a legislação correspondesse à totalidade das relações sociais. A lei institui práticas e é, ao mesmo tempo, resultado de processos, de disputas e conflitos – quando permite, quando proíbe e quando silencia. Ela é burlada, alterada, descumprida e reiterada ao sabor correlação de forças em disputa. A norma pode ser criada ou reificada em função da prática, assim como pode servir para instaurar
costumes de acordo com as agências dos sujeitos (THOMPSON, 1998).A obrigação de
escolarizar os ingênuos, incluída em lei no Paraná em 1883, não significa que todos os ingênuos daquela província tiveram acesso à escola, assim como a proibição de matrícula e/ou frequência em diversos momentos não deu conta de excluir todos os escravos dos espaços de escolarização. Além disso, no século XIX a escola pública estava sendo gestada, e uma gama de possibilidades convivia e disputava pela hegemonia da formação dos sujeitos que se desejava educar e que desejavam se educar (COSTA, 2012) – além das escolas oficiais, conviviam iniciativas particulares, preceptorado, escolas religiosas, internatos, entre outras possibilidades (VIDAL, FARIA FILHO, 2000, p. 21). O conjunto de normas apresentado nesse capítulo era voltado majoritariamente para a instrução pública, o que de antemão suprimiu diferentes modelos educativos e possibilidades de aprendizado que ocorriam à margem da
educação oficial. Certamente a legislação não dá conta de toda a experiência negra na
relação com a educação. Para aprofundar a análise, diferentes documentos precisam ser acessados, o que faremos em relação à província paraibana.
Nos próximos capítulos, a análise sobre a Parahyba do Norte será enriquecida com outras fontes. Para todos os grupos que compunham a sociedade oitocentista, a pluralidade das experiências no acesso à cultura letrada e seus diferentes sentidos eram a tônica dominante. Isso era válido especialmente para pessoas negras, marcadas pela heterogeneidade de cores, condições e qualidades. Ainda assim, a apreciação da legislação paraibana, quando inserida no conjunto de conjuntos legais de outras partes
do Brasil Império, ajuda a explicar discussões e iniciativas referentes à população negra daquela província. Ao mesmo tempo em que mostra que a Parahyba do Norte estava inserida no quadro mais amplo de debates e realizações sobre e por parte dessa população, possibilita a análise sobre a educação no Brasil Império.
CAPÍTULO 2
SER NEGRO NA PARAHYBA DO NORTE OITOCENTISTA: CORES,