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3 ENTRE AFAGOS E TENSÕES: RELAÇÕES DA PSICOLOGIA COM O CAMPO EDUCACIONAL

3.1 PSICOLOGIA CIENTÍFICA: ASPECTOS DE SEU SURGIMENTO, HISTÓRIA E IMPORTANTES SISTEMAS

3.1.2 O declínio do Estruturalismo e o advento do Funcionalismo

Centrado em si mesmo e sem estabelecer conexões com outros domínios da investigação psicológica, o estruturalismo não sobreviveu por muito tempo e sua “extinção” não foi surpresa para críticos e estudiosos especialmente pelas razões apontadas no item anterior, embora tenha criado as condições necessárias para o despontar de um novo sistema cujas características e fundamentos veremos a seguir.

Nascido no final do século XIX, o funcionalismo floresceu nos EUA, particularmente, nas Universidades de Chicago e Columbia tendo apoio de uma legião de intelectuais qualificados e dispostos a reagir à ortodoxia estruturalista de Wundt e Titchener. Tal sistema, dentre outras especificidades, colocou no centro das discussões a compreensão da utilidade dos processos mentais não somente como conteúdos, mas também como operações. Mas quem são seus idealizadores, pioneiros, fundadores e promotores? Quais seus fundamentos e constatações? Qual sua influência no campo da Psicologia? Quais objeções permeiam tal teoria? No decorrer desta seção buscamos responder a tais indagações.

Influenciado pela teoria evolucionária de Darwin e do comportamento animal de Romanes e Morgan, o funcionalismo teve como pioneiros Yale, Scripture, Cattell, Clark, Baldwin e Thorndike que lançaram as bases para que Dewey, Angel fundassem o movimento com posterior contribuições de Woodworth e Carr transformando-se num sistema de Psicologia autenticamente americano.

Fundamentalmente, o funcionalismo é entendido como um sistema de valores e procedimentos que estudam a mente considerando sua utilidade para o organismo bem como sua adaptação ao meio tendo como consequência uma definição de para

que é a mente e não o que é. Nesse sentido, Heidbreder (1983, p.180) evidencia

que os “[...] funcionalistas estavam empenhados em estudar os processos mentais não como elementos participando de uma composição, mas como atividades conduzindo a resultados práticos [...]”. Assim, o interesse central de seus estudiosos não era a composição da mente e seus elementos constitutivos, mas a maneira pela qual um conjunto de funções, operações e processos tem implicações nas práticas cotidianas das pessoas. Embora tal abordagem, na sua concepção originária, não tivesse uma clareza no estudo dos procedimentos do seu objeto era preciso ir além

e “investigar os seus antecedentes e conseqüentes, descobrir que diferença faz para o organismo, e levar em conta a sua posição complexa global no mundo complexo no qual surge” (HEIDBREDER, 1983, p.181).

O funcionalismo, indubitavelmente, estava interessado no entendimento dos processos psicológicos e suas operações constitutivas e não apenas no seu conteúdo em si visando a interação adaptativa. Na operacionalização de seus objetos, particularmente, os processos e operações mentais, não havia centralidade num único método de análise como a introspecção, típico do sistema analisado anteriormente. Não obstante, buscou introduzir na investigação de seus objetos uma diversidade de metodologias como o método comparativo, a pesquisa fisiológica, testes mentais, questionários e descrições objetivas do comportamento. Além disso, investigando o modo pelo qual os processos e operações mentais se expressam e a clareza de sua observação, tal abordagem se propõe a estudar a mente considerando as manifestações dos comportamentos adaptativos (FIGUEIREDO e SANTI, 2000, p.64).

No seu apogeu reuniu importantes nomes do mundo da Psicologia, entretanto não agregou um grupo coeso em torno de seus propósitos e objetos como o estruturalismo de modo que seus principais intelectuais freqüentemente divergiam sobre suas ações e fundamentos havendo, assim, “muitas psicologias funcionais, cada uma delas um pouco diferente dos demais” (MARX e HILLIX, 1978, p. 187).

Dito isso, é possível evidenciar que dentre aqueles que, de fato, contribuíram para sistematizar e expandir o edifício teórico da psicologia funcional, podemos destacar Dewey18 que lançou as bases desse movimento, sobretudo, com a publicação de seu artigo O conceito de arco reflexo em psicologia (1896), Angell que liderou seu desenvolvimento a partir de suas constatações publicadas em seu Text-Book of

Psychology (1904) e, por último, Carr que promoveu o vitalismo e refinamento da

teoria debatendo temáticas e escrevendo artigos e livros na defesa dos princípios do sistema como consta em Psychology (1925).

18

Vale ressaltar que Dewey tenha contribuído para o alicerce do movimento, ele, de fato, nunca escreveu uma posição sistemática da psicologia funcional, embora seus princípios estejam implícitos em muitos escritos (HEIDBREDER, 1983, p. 185).

No que se refere às contribuições próprias desses “três mestres” do funcionalismo podemos destacar que o primeiro expôs em seu artigo sobre o “conceito de arco reflexo em psicologia” uma primeira formulação dos princípios de tal abordagem defendendo que a atividade psicológica e seus atos constitutivos são indivisíveis em partes ou elementos devendo ser entendidos como um todo contínuo. Para tanto, além de sua reação ao “atomismo psicológico”, era preciso evidenciar “a distinção entre estímulo e resposta, entre sensação e movimento, entre as porções motora, sensorial e central do arco que são puramente funcionais, e não são baseadas nas diferenças reais da realidade existente, mas sim nos diferentes papeis desempenhados por certos atos no processo total” (HEIDBREDER, 1983, p. 186).

O segundo19, por sua vez, faz do funcionalismo uma escola atuante e influente advogando nos seus discursos e escritos os princípios funcionalistas. Marx e Hillix (1978); Heidbreder (1983) destacam três pontos importantes desse movimento encontrados no pensamento de Angell20:

1) confrontação do funcionalismo com o estruturalismo de modo que o primeiro pode ser considerado como uma psicologia das operações mentais, contrastando com uma psicologia dos elementos mentais do segundo;

2) Trata-se de um sistema que se interessa pela utilidade dos processos mentais, ou seja, “estuda a atividade mental não em si e por si, mas como parte de todo o mundo da atividade biológica, como parte do movimento integral da evolução orgânica”;

3) Tal movimento poderia ser perfeitamente classificado como uma “psicologia das relações psicofísicas” sendo, portanto, a psicologia da relação total entre o organismo e o meio, incluindo todas as funções mente-corpo.

Por último, destacamos aspectos do pensamento de Carr para a abordagem funcionalista. Sua mais importante obra para a escola é o livro Psicologia (1925) no qual o autor define o objeto da psicologia como sendo a atividade mental envolvendo

19

Angell não desejava que o funcionalismo ganhasse a forma que se configurou de modo que ele sempre mencionou que não queria que tal abordagem fosse “identificada com a psicologia da Escola de Chicago”

20

Embora tais perspectivas sejam aparentemente interdependentes, comentadores do pensamento de Angell afirmam que os pontos 1 e 2 são relativamente estreitos porque restringe o funcionalismo ao estudo da experiência consciente e destaque à objeção ao estruturalismo (MARX e HILLIX,1978, p. 202)

processos como a percepção, memória, imaginação, sensação, juízo e vontade, mas também “comportamento adaptativo ou de ajustamento” que se manifesta pela aquisição, fixação, retenção, organização e avaliação das experiências, assim como sua posterior utilização para orientar as práticas individuais. Para além de tal descrição, seu entendimento da relação mente-corpo mostra que a “atividade mental é psicofísica”, isto é, “é psíquica por ter o indivíduo geralmente algum conhecimento de sua atividade, e porque ele não raciocina, não sente, nem quer estar a par dos fatos; é física por ser uma reação do organismo físico” (HEIDBREDER, 1983, p. 194).

De fato, os três autores destacados deram, a seu tempo e ao seu modo, importantes contribuições para o desenvolvimento da psicologia funcional favorecendo o surgimento de um então novo sistema com novos referenciais que objetaram o estruturalismo, mas também produziram novos métodos de pesquisa – conforme apontamos acima - tornando a atividade de investigar bem mais heterogênea, defendendo a utilidade dos processos mentais para o organismo bem como sua adaptação ao meio, a ampliação do campo de intervenção e análise da Psicologia Científica com abordagens menos ortodoxas etc. Entretanto, os funcionalistas não conseguiram defender tão enfaticamente seus postulados após as duas primeiras décadas do século XX, especialmente com o aparecimento do Behaviorismo.

Marx e Hillix (1978), Heidbreder (1983) mostram que vários fatores e críticas se somaram para o declínio de tal sistema entre os quais podemos destacar: acentuada moderação e falta de presunção na dedicação aos propósitos de suas tarefas e certa dispersão; crítica estruturalista aponta que um estudo das funções21 não tem nada de psicologia; embora tenha como ponto de partida o estudo das utilidades, está “eivado de teleologia22”; sob a ótica de uma ciência pura é acusado de ser

21

Heidbreder (1983, p. 200) destaca na sua Psicologias do século XX que Ruckmick, discípulo de Titchener fez uma análise acurada de textos de estudiosos da psicologia funcional para descobrir como a palavra “função” é utilizada na prática real. Numa primeira classificação, “função” é “empregada como sinônimo de atividade como o perceber e o rememorar; na segunda, a palavra indica a utilidade de uma atividade para o organismo. No entanto, segundo a autora, Carr não refuta frontalmente as considerações do “descendente” de Titchener indicando apenas que “o uso dos dois termos podem ser reduzidos a um único, pelo emprego do conceito matemático de função, que indica uma relação de contingência sem dar maiores detalhes dessa relação”.

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Termo criado pelo filósofo Christian Wolff para indicar "a parte da filosofia natural que explica os fins das coisas" (ABBAGNANO, 2007, p.954).

apenas tecnologia estando num plano inferior ao da busca desinteressada pela verdade.

Contudo, vale ressaltar algumas diferenças importantes entre o estruturalismo e o funcionalismo em relação aos seus fundamentos, procedimentos e métodos de investigação. É fato notório que a psicologia estrutural estava preocupada em fazer, deliberada e intencionalmente, abstração de seu material em relação ao meio ambiente, ao criticar fortemente o significado e especificidades do termo “função” empregado por sua concorrente já que, na sua perspectiva, não pode aparecer na experiência direta, ou seja, é inobservável via introspecção. Por outro lado, a psicologia funcional esforçou-se para fazer decolar seu projeto psicológico investigando o caráter dos “processos mentais não como elementos participando de uma composição, mas como atividades conduzindo a resultados práticos” e incluindo na sua empreitada intelectual as constatações a partir do estudo das atividades mentais e seus conteúdos, das funções de comportamentos adaptativos e de ajustamento, da observação da relação existente entre processos psicológicos e ambiente e do homem como um organismo biológico que se adapta ao meio ambiente. Apesar de tais diferenças, é preciso sublinhar que a primeira não primou por uma diversidade de métodos ou objetos, sendo considerada, conforme vimos, extremamente ortodoxa neste quesito. A segunda, por seu turno, atacou a fraqueza de sua antecessora sendo mais flexível no entendimento dos processos mentais, incluindo no seu repertório de pesquisas contribuições de estudiosos com preocupações filosóficas, mas também pragmáticas e associadas com vida real utilizando uma heterogeneidade de metodologias para captar a natureza, as especificidades e a utilidade tais processos.

Por último, é importante salientar que, embora não tenham obtido o sucesso e a penetração almejados, tais escolas com seus fundamentos, erros e acertos lançaram as bases para a irrupção de um novo sistema psicológico que teve grande impacto e fecundidade no terreno da Psicologia: o Behaviorismo. Tal sistema estuda o comportamento humano sob diferentes enfoques e é influenciado por dois membros notáveis, Watson e Skinner, com ramificações importantes no campo educacional conforme veremos no capítulo 4. Contudo, é possível antecipar que o primeiro, contrário a toda psicologia que se referia à consciência, via no funcionalismo um sistema fraco e incompleto, dentre outros aspectos, por suas

adesões àquela de modo que “a psicologia deve romper com o passado, livrar-se inteiramente do conceito de consciência, começar do início e formar uma nova ciência” (HEIDBREDER, 198, p.207).

3.2 PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO: PARANORAMA GERAL E ASPECTOS DO

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