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1. O REFÚGIO NO CONTEXTO DOS FLUXOS MIGRATÓRIOS

2.4. Declaração de Genebra e o Protocolo de 1967

Para situar o debate sobre os Refugiados no Brasil é preciso falar também sobre a Convenção Internacional de 1951 e o Protocolo de 1967. Esses tratados são os mais importantes a nível internacional sobre a proteção de refugiados, estabelecendo seus fundamentos. A Convenção de Genebra e seu Protocolo “estabelecem os princípios legais sobre os quais se baseiam inúmeras legislações e práticas internacionais, regionais e nacionais” (ACNUR, 2014, p. 4). De acordo com o ACNUR cerca de 150 países são signatários destes dois documentos ou de pelo menos um deles (ACNUR, 2014, p. 4).

A Convenção Internacional sobre o Estatuto dos Refugiados foi fruto de uma Assembleia Geral da ONU em Genebra com o intuito de regularizar o reconhecimento legal dos refugiados. Ela entrou em vigor em 1954 estabelecendo o termo “refugiado”. Além disso, a Convenção de Genebra tratou dos direitos internacionais dos refugiados, estabelecendo direitos básicos que deveriam ser assegurados pelos países signatários. A Convenção também colocou diretrizes básicas para o tratamento de refugiados pelos Estados Nacionais e tratou da disponibilização de documentos e da não devolução ou expulsão de refugiados por nenhum país para o local de perseguição. Esse princípio que proíbe a expulsão de refugiados ou solicitantes de refúgio é um dois mais importantes da Convenção (ACNUR, 2014, p. 4).

Já o Protocolo que entrou em vigor em 1967 também foi resultado de uma Assembleia Geral da ONU. As novas situações de conflito e perseguição internacional transformaram os fluxos migratórios de refugiados e por isso foi necessário um novo documento sobre o Estatuto dos Refugiados que tornasse os princípios da Convenção de Genebra mais abrangentes. Porém, esses documentos são independentes. Não necessariamente os países precisam ser signatários dos dois, podem ser apenas de um.

A ampliação do conceito de refúgio trazida pelo Protocolo se deu através da extinção das chamadas reservas geográficas e temporais que estavam presentes na Convenção de Genebra. Ou seja, segundo a Convenção, o reconhecimento do refúgio seria apenas para os refugiados que estivessem na Europa e em situação de refúgio por consequência de acontecimentos anteriores a 1951. De acordo com a Convenção era facultativo aos Estados Nacionais, no momento da ratificação do documento, optar pelo reconhecimento do Estatuto dos Refugiados com a reserva temporal, ou com a reserva temporal e geográfica (SUÍÇA, 1951, Art. 1º).

Essas restrições focavam a proteção internacional apenas nos refugiados produzidos pela 2º Guerra Mundial. Porém, o contexto internacional mudou, e foi preciso eliminar essas reservas a fim de possibilitar o reconhecimento e proteção de outros sujeitos em situação de refúgio (RAIOL, 2009, p. 110). O Protocolo reconhece “que surgiram novas categorias de refugiados desde que a Convenção foi adotada e que, por isso, os citados refugiados não podem beneficiar-se da Convenção” (ONU, 1966, Preâmbulo). Em seguida, em seu Artigo 1º já anuncia o fim das reservas geográficas e temporais.

Segundo Raiol (2009, p. 111), o Protocolo já sinalizava a “mobilidade conceitual” do refúgio, por ser um tema relacionado aos deslocamentos humanos. Ele ainda acrescenta que não se pode “ignorar essa característica inerente ao próprio conceito de refugiado, ou seja, tal definição é sempre transitória, circunstancial, histórica, dotada de uma abertura peculiar. Novas situações adversas podem produzir ‘novas categorias de refugiados’” (RAIOL, 2009, p. 111).

Se por um lado o Protocolo de 1967 ampliou o reconhecimento do refúgio ao eliminar as restrições geográficas e temporais, por outro ele manteve as mesmas restrições civis e políticas relativas aos critérios de reconhecimento do refúgio, a saber, raça, religião, nacionalidade, filiação à grupo social e opiniões políticas (RAIOL, 2009, p. 110). Segundo a Convenção, o termo “refugiado” seria aplicado aos indivíduos que

em consequência de acontecimentos ocorridos antes de l de Janeiro de 1951, e receando com razão ser perseguida em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, filiação em certo grupo social ou das suas opiniões políticas, se encontre fora do país de que tem a nacionalidade e não possa ou, em virtude daquele receio, não queira pedir a protecção daquele país; ou que, se não tiver nacionalidade e estiver fora do país no qual tinha a sua residência habitual após aqueles acontecimentos, não possa ou, em virtude do dito receio, a ele não queira voltar (SUÍÇA, 1951, Art. 1º).

De acordo com Andrade (2006, p. 16), o principal critério para o reconhecimento da condição de refugiado é a perseguição. O autor acrescenta ainda que por perseguição compreende-se, em geral, a ação de agentes governamentais contra um indivíduo ou um grupo e que essa compreensão exclui os casos de pessoas que fogem, não por uma situação particular, mas por insegurança e opressão generalizadas. Esse é um dos motivos para que causas políticas sejam reconhecidas como ocasionadoras de refúgio, mas não as causas econômicas (ANDRADE, 2006, p. 16).

A perseguição ou temor de perseguição por motivo de condição étnico-racial está relacionada à discriminação racial, de modo que a “reiteração de atos discriminatórios” constitui a perseguição racial (RAIOL, 2009, p. 147). Já o motivo da religião esteve atrelado à questão do refúgio desde antes da Convenção e é uma das razões principais que ocasionam o refúgio (RAIOL, 2009, p. 152). A nacionalidade aparece na Convenção para delimitar os casos em que pessoas de nacionalidades diferentes são perseguidas, expulsas, discriminadas ou não tem seus direitos garantidos como deveriam em função de sua nacionalidade (RAIOL, 2009, p. 150).

O quarto motivo de refúgio apresentado pela Convenção de Genebra é mais difícil de ser delimitado, já que a própria definição de grupo social é imprecisa e o pertencimento de um indivíduo a determinado grupo é algo que perpassa sua subjetividade (RAIOL, 2009, p. 153). “Logo, a perseguição por pertencimento a grupo social, realmente, apresenta-se como critério dotado de uma abertura considerável, na medida em que cria um espaço para a tutela de minorias perseguidas pelas razões mais variadas” (RAIOL, 2009, p. 154). O quinto motivo que, segundo a Convenção, pode caracterizar refúgio é a perseguição por opiniões políticas, partindo do entendimento de que os indivíduos têm liberdade política e, portanto, não só podem ter opinião política como também têm o direito de expressá-la sem sofrer penalizações por isso (RAIOL, 2009, p. 156).

O sentido restrito de perseguição, limitado pelos motivos que provocam a saída dos refugiados de seu território, concentrou a concessão do refúgio na verificação das hipóteses criadoras do fundado temor de perseguição. Assim, a guerra militar ou civil, a fome, a miséria, o desemprego, as rivalidades étnicas, as mudanças climáticas, as degradações e os desastres ambientais, somente para citar alguns, são novos motivos que, também, podem conduzir milhares de pessoas a abandonarem o lugar em que residem ou até mesmo o país em que moram (RAIOL, 2009, p. 158).

Considerando a mutabilidade do refúgio no contexto internacional se faz necessário rever periodicamente as legislações que dizem respeito ao reconhecimento da condição de refugiado a fim de garantir proteção a esses indivíduos. O Protocolo de 1967 foi um documento que ampliou o conceito de refúgio e depois dele surgiram outros que, diante de novas necessidades, incorporaram novos critérios ao status de refugiado.