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2 ÂMBITO INTERNACIONAL DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS DAS

2.2 DELIMITAÇÃO NORMATIVA

2.2.1 Os Direitos das Mulheres no sistema geral de proteção dos Direitos

2.2.1.3 Declaração e Programa de Ação de Viena (1993)

A Declaração e Programa de Ação de Viena, diploma aprovado por consenso, decorrente da Conferência Mundial de Direitos Humanos, ocorrida em 25 de junho de 1993, com a presença de representantes de 171 Estados, é fundamental quando se releva o que de mais substancial há, em termos de documentos, no tocante à proteção à mulher. O documento expressou que os Direitos Humanos das Mulheres eram inalienáveis, integrais e indivisíveis e que a busca pela erradicação de todas as formas de discriminação em relação ao gênero seria prioridade da comunidade internacional. Conclamou, ainda, os Estados a estimarem um número maior de esforços para intensificar a proteção e a promoção dos Direitos Humanos das Mulheres e das meninas – o que se depreende uma lógica não só punitiva, como também afirmativa de direitos39.

São inúmeros tópicos que versam sobre o tema, com destaque para aqueles que enfatizam não só o aspecto material – de relacionar as principais violações –, mas o viés procedimental, qual seja, a aplicabilidade desses diplomas e conceitos nos

poderia haver uma mais rapida efectividade, ao passo que a dos direitos sociais estaria

dependente do grau de desenvolvimento economico de cada pais (MIRANDA, Jorge, Curso de

Direito Internacional Público..., cit., p. 277).

37 Na Parte IV, dedicada a garantia dos direitos, manifesta-se, como não podia deixar de ser, a diversa estrutura dos direitos, com o consequente sistema de garantia – muito mais complexo e reforçado o dos direitos civis e politicos do que o dos direitos economicos, sociais e culturais. De comum ha a prescrição de envio de relatorios ao Secretario-Geral das Nações Unidas. De diferente a criação de um Comite dos Direitos do Homem pelo Pacto de Direitos Civis e Politicos (MIRANDA, Jorge, Curso de Direito Internacional Público..., cit., p. 278). 38 A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura, assim, o sistema global de proteção desses direitos, ao lado do qual ja se delineava o sistema regional de proteção, nos âmbitos europeu, interamericano e, pos- teriormente, africano […] (PIOVESAN, Flávia, Direitos

humanos e o direito constitucional internacional…, cit., p. 248).

39 UNITED NATIONS, World Conference in Human Rights, Vienna Declaration and Programme

of Action, Adopted by the World Conference on Human Rights in Vienna on 25 June 1993, pesquisável em http://www.ohchr.org/EN/ProfessionalInterest/Pages/Vienna.aspx, acedido em 12 de julho de 2017.

casos concretos, por meio de uma cooperação internacional de esforços para monitoramento da condição da mulher nas sociedades. Para isso, foi reforçada a proposta de revisão das reservas à CEDAW por parte dos Estados, sendo estes encorajados a traçar um panorama da situação de iure e de facto de suas nacionais para posteriores relatórios periódicos sobre as suas evoluções na proteção às mulheres e também sobre os pontos que necessita de melhorias e atenção especial – além de aventada a possibilidade – que se tornaria real seis anos após – de introdução de um Protocolo Opcional que efetivasse o propósito base da CEDAW40,

que será exposto a seguir.

O texto enfatizou, por fim, a relevância da proteção dos Direitos Humanos em esfera pública e privada, por meio dos artigos 19 e 38 – este último a destacar a revisão na dicotomia entre as duas esferas41 em razão da busca pela eliminação da

violência contra as mulheres42.

40 UNITED NATIONS, World Conference in Human Rights, Vienna ́eclaration…, cit.

41 Die Entwicklung der Menschenrechte weltweit war lange Zeit von der Trennung

zwischen dem Öffentlichen und dem Privaten gekennzeichnet. Demzufolge standen

Menschenrechtsverletzungen durch den Staat – etwa Beeinträchtigungen der Meinungsfreiheit, willkürliche Verhaftungen und Hinrichtungen von Oppositionellen – im Zentrum des menschenrechtspolitischen Diskurses. Der private Raum hingegen sollte staatsfrei bleiben – my home is my castle. Selbst bei staatsphilosophischen Konzepten, die Menschenrechtsverletzungen durch Private in den Blick nahmen, etwa in Thomas Hobbes’

Krieg aller gegen alle, wird der Staatszweck der Sicherung einer Friedensordnung auf den Frieden im öffentlichen Raum, nicht im privaten, bezogen. Die soziale Realität von Frauen war damit weitgehend nicht erfasst [O desenvolvimento dos direitos humanos em

todo o mundo caracterizou-se pela separação entre público e privado […] ̀omo resultado, as violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado - como restrições à liberdade de expressão, prisões arbitrárias e execuções de dissidentes - foram o centro do discurso da política de direitos humanos. O espaço privado, por outro lado, deve permanecer livre de estado – “minha casa é meu castelo”. Mesmo em conceitos de filosofia do Estado que se concentram em violações dos direitos humanos por parte de particulares, por exemplo, na Guerra de Todos contra Todos de Thomas Hobbes, o propósito de garantir uma ordem de paz baseia-se na paz no espaço público e não na esfera privada. A realidade social das mulheres foi, portanto, amplamente não registrada] [tradução livre nossa] (RUDOLF, Beate, Gewalt gegen Frauen…, cit., p. 3).

42 In particular, the World Conference on Human Rights stresses the importance of working towards the elimination of violence against women in public and private life, the elimination of all forms of sexual harassment, exploitation and trafficking in women, the elimination of gender bias in the administration of justice and the eradication of any conflicts which may arise between the rights of women and the harmful effects of certain traditional or customary practices, cultural prejudices and religious extremism. The World Conference on Human Rights calls upon the General Assembly to adopt the draft declaration on violence against women and urges States to combat violence against women in accordance with its provisions. Violations of the human rights of women in situations of armed conflict are violations

De acordo com André de Carvalho Ramos, a Declaração “[...] consagrou, se não a superação da fase legislativa da proteção internacional dos direitos humanos [...] mas, ao menos, a crescente preocupação com a implementação dos direitos humanos43”. A aplicabilidade e a posterior efetividade dos esforços internacionais,

passaram, pois, a ter a sua relevância reforçada.