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4.1 PANORAMA LEGAL INTERNACIONAL RELATIVO À NACIONALIDADE E À

4.1.2 Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948

A Declaração Universal dos Direitos do Homem, idealizada no contexto posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial, consagra em seu art. 15 o direito de todo indivíduo à nacionalidade e a proibição da privação arbitrária desta, nos seguintes termos:

Artigo 15°

1.Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.

2.Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.226

Com relação ao comando geral de que todo indivíduo deve ter direito a uma nacionalidade, reitera-se, conforme exposto no primeiro capítulo, que se trata de preceito de baixa efetividade e aplicabilidade prática, tendo em vista que o dispositivo não define qual nacionalidade a pessoa deve possuir.227

Diferentemente do §1 do artigo 15, a proibição de privação arbitrária é princípio com destinatário determinado, qual seja: o Estado do qual o indivíduo é nacional, pois somente este pode privá-lo deste vínculo. Deste modo, se comparado ao direito fundamental a uma nacionalidade, o §2 emana preceito de maior eficácia para o propósito de evitar que os Estados privem indivíduos de sua nacionalidade com base em arbitrariedades. Contudo, sua força coercitiva diminui consideravelmente ao ter em conta que mesmo os Estados mais severos a este respeito não admitem que sua decisão de suprimir a nacionalidade de um indivíduo ou de proibir uma mudança por naturalização seja arbitrária.228

                                                                                                                225 GROOT, 2013, p. 3.

226 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948. 227 REZEK, 1986, p. 354.

No intuito de clarificar o disposto na DUDH, Groot e Vink229 definiram requisitos para que a privação da nacionalidade não seja considerada arbitrária: esta deve ter uma sólida base legal; a previsão normativa não deve ser aplicada de maneira retroativa; não deve haver interpretação extensiva no que concerne à modalidade de perda; em caso de introdução de uma nova legislação referente à perda da nacionalidade, deve ser dado tempo de transição razoável; as consequências da privação devem ser proporcionais. Outrossim, as decisões atinentes ao procedimento de perda de nacionalidade devem ser devidamente fundamentadas e disponibilizadas por escrito, a fim de garantir ao indivíduo atingido a possibilidade de pleitear230 sua revisão.231

Também, levando-se em consideração o princípio da proporcionalidade - requerido para que a privação da nacionalidade não seja considerada arbitrária - esta nunca deve ocorrer automaticamente, mas sempre através de um procedimento definido que resulta numa decisão proferida pela autoridade competente.232

Frisa-se, por oportuno, que alguns autores foram mais longe em afirmar que a perda da nacionalidade resultante em apatridia seria, por definição, desproporcional e, portanto, arbitrária. Contudo, a jurisprudência limitada, as resoluções pertinentes das Nações Unidas e a prática dos Estados - no que diz respeito às disposições legislativas - não indicam que tal posição extrema tenha sido alcançada.233

Paralelamente, a privação de nacionalidade que tem como único embasamento o desejo de expulsar o indivíduo do território estatal pode ser considerada arbitrária. A este respeito, o artigo 8 do Projeto de Artigos sobre a Expulsão de Estrangeiros determina: “um Estado não deve tornar seu nacional um estrangeiro, por privação de nacionalidade, com o único propósito de expulsá-lo”.234

Em vista dos requisitos supracitados para que a perda da nacionalidade não seja tida como arbitrária, pontua-se que o procedimento britânico consiste na deliberação de uma ordem do Ministro do Interior certificando que determinado nacional deve ser privado desta                                                                                                                

229 GROOT; VINK, 2014, p. 3-5.

230 No caso de o indivíduo pleitear revisão judicial, as custas procedimentais não devem constituir obstáculo para o acesso a uma revisão. GROOT; VINK, 2014, p. 6.

231 CONSELHO PARA OS DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS. Human rights and arbitrary

deprivation of nationality: report of the Secretary-General. UNHRC index: A/HRC/25/28, 2013.

232 GROOT; VINK, op. cit., p. 7. 233 MANDAL; GRAY, 2014, p. 5.

234 COMISSÃO DE DIREITO INTERNACIONAL. Draft Articles on the Expulsion of Aliens, with commentaries. Yearbook of the International Law Commission, vol. II (2), 2011. Do original: “A State shall not

condição. Para isso, o agente do executivo deve enviar previamente uma notificação ao indivíduo informando: a decisão de proferir a ordem de perda da nacionalidade; as razões invocadas – fundamento legal e subsunção ao caso concreto; o direito do sujeito de apelar do despacho. Trata-se, portanto, de uma decisão tomada administrativamente e, a princípio, não submetida ao crivo do judiciário. Entretanto, garante-se àqueles submetidos a uma ordem de privação de nacionalidade a possibilidade de pleitear a revisão a um tribunal de primeira instância contra a figura do executivo.235

Nesse sentido, considerando que a legislação britânica confere ao Ministro do Interior elevada margem de apreciação e discricionariedade, verifica-se um entrave no que tange à necessidade de base legal claramente instituída.236 Também, a privação nos casos em que o indivíduo britânico encontra-se fora do território, empregada algumas vezes no Reino Unido, pode ser enquadrada na hipótese de privação arbitrária, em razão da impossibilidade de que esse tenha a seu dispor mecanismos para acompanhar o procedimento e pleitear a revisão da decisão.237

Por sua vez, conforme se depreende da exposição de motivos do projeto de revisão constitucional238 proposto pelo governo francês, este visava ao estabelecimento de uma modalidade de perda da nacionalidade fundada na ameaça à segurança pública e no atentado aos interesses vitais do Estado francês, respeitados os procedimentos elencados para que tal sanção não fosse considerada arbitrária. Cumpre destacar, nessa perspectiva, que o projeto francês não propunha a privação arbitrária da nacionalidade, mas sim por atentado à segurança pública do Estado, com procedimentos que garantissem a ampla defesa do acusado239.

Além disso, colocando em cheque a vinculação dos Estados aos dispostos na DUDH, Paul Lagarde240 sustenta que “se a França adere evidentemente aos princípios proclamados                                                                                                                

235 GOWER, Melanie; MCGUINESS, Terry. Deprivation of British citizenship and withdrawal of passport

facilities. Londres: House of Commons Library, 2017. Esclarece-se, também, que se a decisão do Ministro do

Interior for baseada, total ou parcialmente, em informações que não devem ser tornadas públicas no interesse da segurança nacional britânica, o direito de pleitear revisão deve ser exercido perante a Comissão Especial de Recursos de Imigração (SIAC).

236 VAN WAAS, 2016, p. 477.

237 HARVEY, Alison. Deprivation of Nationality: Implications for the Fight Against Statelessness. QIL v. 31, p. 21-38, 2016.

238 FRANÇA, 2015b, p. 3-7.

239 Os arts. 25 e 25-1 do Código Civil francês preveem o procedimento para perda da nacionalidade, que será manifestada por decreto.

240 LAGARDE, 2016, p. 198. Do original: “si la France adhère évidemment aux principes proclamés par la

pela declaração, esta não tem valor de tratado internacional com autoridade superior àquela das leis internas”.

Diante disso, em que pese a doutrina tenha definido certos requisitos mínimos, é de difícil apreciação a matéria da privação arbitrária da nacionalidade. No caso da leitura estrita dos textos legais examinados no presente trabalho, não se observa, por si só, arbitrariedade. Por outro lado, verifica-se que o governo britânico já usou tal prerrogativa de modo que poderia ser enquadrado como arbitrário, cabendo, portanto, a análise de cada caso concreto para adequar aos termos da privação desse artigo da DUDH.

Assim, reconhece-se que a Declaração Universal dos Direitos do Homem tem papel fundamental na construção da ideia de que a nacionalidade é o meio pelo qual todos os direitos do homem podem ser exercidos. A despeito disso, considerando o contexto de grande reconhecimento da existência da apatridia no pós-guerra, as Nações Unidas decidiram ir além da proclamação do direito fundamental à nacionalidade.

Nesse cenário, a ONU buscou tornar concretas as aspirações do artigo 15 da DUDH através da elaboração de dois instrumentos internacionais relativos à apatridia: a Convenção Relativa ao Estatuto dos Apátridas de 1954 e a Convenção para a Redução dos Casos de Apatridia de 1961.241