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Regulação contábil de micro, pequenas e médias empresas: uma questão ainda não resolvida no BrasilRBC n.º 248. Ano L. março/abril de 2021
dos pelas empresas e pelos conta- dores, é possível estimar que para 8.262.75713 empresas, ou 97,88%
das empresas brasileiras, contingen- te basicamente formado pelas mi- cro, pequenas e médias empresas, ainda resta um desafio adicional: definir qual seria o padrão contá- bil a ser adotado. Já para a regula- ção contábil brasileira, o desafio tal- vez seja ainda maior: criar condições para que a contabilidade da grande maioria dessas empresas seja efeti- vamente praticada. Enfrentando-se este, avançar-se-ia naquele.
Creio que dispor de mais de um conjunto normativo pode ser en- xergado sob duas perspectivas. A primeira delas é positiva, afinal, dispomos de alternativas tecnica- mente válidas, capazes de atender a uma ampla gama de usuários, desde aqueles com necessidades informacionais mais pontuais até aqueles que exigem um maior ní- vel de sofisticação informacional. E isso não deveria ser um proble- ma, entretanto, a realidade tem mostrado que é. E é nessa realida- de que se apoia a segunda pers- pectiva, pois, contar com alterna- tivas igualmente válidas quando o padrão contábil mais simplificado sequer é adotado, não possui qual- quer sentido, embora possua mui- to significado sobre o quão útil a informação contábil tem se mos- trado no âmbito das micro, peque- nas e médias empresas.
É preciso respeitar as caracterís- ticas do ambiente brasileiro, pois a Contabilidade, como ciência social, inevitavelmente, é o reflexo dessas características. Não se trata de uma questão normativa. Simplesmente, a realidade se impõe. E é preciso que esta realidade seja adequadamente compreendida e enfrentada no âm- bito da regulação contábil brasileira.
Como já dito, não há uma so- lução abrangente que seja a pana- ceia para todos os males, até por- que, o problema ganha contornos diferentes de acordo com a natu- reza da entidade. Não obstante tal fato, acreditamos que é possível mi- tigar sensivelmente boa parte dos problemas existentes, para tanto, propomos os seguintes “passos”: • 1º “Passo”
Talvez, o ponto de partida seja criar condições para estabelecer, de forma objetiva, um padrão contábil nacional (conjunto nor- mativo), que pudesse contem- plar, de maneira específica, cada tipo empresarial, considerando exclusivamente as micro, peque- nas e médias empresas, entida- des que, na sua quase totalida- de, devem observar o padrão de contabilidade regulado pelo CFC. Por exemplo, as MEs poderiam contar com um modelo ainda mais simplificado do que a ITG 1000, mais voltado para o re- gistro das transações, com pre- ponderância do custo histórico. Já, para as EPPs, seria exigida a adoção da ITG 1000, com os aprimoramentos necessários. Do mesmo modo, para as de- mais entidades não reguladas e/ou não obrigadas à obser- vância da Lei das S.A., até um determinado limite de recei- ta anual, como, por exemplo, R$24.000.000,00. Acima desse limite, aplicar-se-ia o CPC PME, naturalmente, com alguns ajus- tes a fim tornar a sua aplicação viável. Para as demais entidades, adotar-se-iam as NBCs comple- tas e/ou o padrão contábil esta- belecido pelo regulador setorial. É digno de nota que esse pri- meiro passo já está sendo em-
preendido pelo CFC, por meio do Grupo de Estudo para Pe- quenas e Médias Empresas, criado com objetivo principal de revisar a ITG 1000, mas que também, subsidiariamente, irá acompanhar a revisão que está sendo realizada pelo Internatio-
nal Accounting Standards Board
no IFRS for SMEs14.
• 2º “Passo”
Um segundo passo seria a eli- minação da possibilidade de es- crituração do livro caixa prevista na legislação tributária federal, em especial no âmbito do Sim- ples Nacional. Muito embora a manutenção de um sistema de contabilidade baseado na escri- turação uniforme dos livros seja uma obrigação legal, prevista no Art. 1.179 do Código Civil, muitas entidades e profissio- nais de contabilidade acabam não cumprindo tal dispositivo, e a dispensa dessa escritura- ção no âmbito tributário pode ser considerada uma das razões por tal descumprimento. Contu- do, para que esse segundo pas- so seja empreendido, é necessá- rio que seja definido
um padrão contá- bil, de fato, simpli- ficado, a ponto de se mostrar, por in- crível que pareça, um substituto vi- ável e justificável para o livro caixa, de modo que, nestes casos, a escrituração contábil tam- bém passe a ser exigida para fins tributários.
13 Esse total compreende as MEs, EPPs e as “outras empresas” não tributadas com base no Lucro Real.
Um terceiro passo consistiria na conscientização, capacitação e qualificação dos profissionais de contabilidade, quanto à adoção dos padrões contábeis estabe- lecidos, bem como na atuação fiscalizatória do CFC, no senti- do de inibir e punir as condutas adversas. Ações que, em maior ou menor medida, já vêm sendo realizadas tanto pelo CFC quan-
bem como pelas diversas enti- dades profissionais.
Avançar nessas questões reve- la-se como um caminho neces- sário para o fortalecimento da contabilidade e, consequente- mente, da profissão contábil no Brasil, pois permitirá a cria- ção de um ambiente regulató- rio mais adequado à realidade doméstica. Contudo, é impor-
etapa de um longo proces- so, pois o verdadeiro desafio para a regulação contábil na- cional e para todos os atores envolvidos, em especial para os profissionais da contabilida- de, ainda reside em uma ques- tão fundamental: demonstrar a utilidade da contabilidade para as micro, pequenas e médias empresas brasileiras.
Referências
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