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Decreto nº 40.570, de 18 de dezembro de 1956, Decreto-Lei nº 3.365 de 21 de junho

2. DA SOUTHERN BRAZIL LUMBER AND COLONIZATION COMPANY AO

2.5. Decreto nº 40.570, de 18 de dezembro de 1956, Decreto-Lei nº 3.365 de 21 de junho

51 LIMA, Op. Cit, 2017, p. 146. 52 Ibidem, p. 151.

53 SCHIOCHET, Op. Cit, 1993, p. 77. 54 A área desapropriada foi de 7.614 ha.

Como já mencionado anteriormente, com o término do levantamento das áreas a serem desapropriadas, é assinado o Decreto nº 40.570, de 18 de dezembro de 1956. Em sua ementa consta que a área passa a ser de utilidade pública e autoriza a desapropriação dos imóveis, necessários ao serviço do Exército Nacional. Nele também consta o nome dos proprietários e proprietárias que teriam as suas terras desapropriadas, o tamanho da área em hectare e o valor a ser pago de indenização. Ainda segundo o decreto, “o ministério da Guerra ficava autorizado a promover a desapropriação em causa, correndo as respectivas despesas à conta dos recursos orçamentários para o exercício de 1956”55, isto é, o Ministério da Guerra ficava responsável por promover a desapropriação e indenização dos proprietários.

Mas o decreto apresenta algumas falhas que devem ser levadas em consideração. Segundo os desapropriados ele não apresenta a localização da área desapropriada, apenas se refere a terrenos situados no estado de Santa Catarina; não mostra de forma clara os limites de cada propriedade, conforme o que consta nas respectivas escrituras; não permite a verificação do critério para cálculo do valor indenizatório. Além disso, os valores colocados no decreto não estavam atualizados, visto que se referiam aos obtidos na avaliação feita pelos militares anteriormente56.

No ano de 1957, o Cel. Francisco José Ludolf, em nome do Ministério do Exército distribuiu ofícios aos desapropriados. Neles solicitava o envio dos documentos dos terrenos juntamente com uma lista discriminatória dos bens que existiam na propriedade. Além disso, solicitava uma declaração de concordância com a desapropriação.57

Segundo o estudo de Schiochet, provavelmente estes ofícios tenham sido distribuídos somente para alguns agricultores, porque, durante a sua pesquisa, ao perguntar aos desapropriados sobre tais ofícios, estes não tinham lembrança.58 Isso demonstra que muitos proprietários estavam alheios dos rumos do processo de desapropriação.

Após os ofícios, os militares deixaram de agir concretamente para realizar a desapropriação. Essa passividade acaba em 1960, quando o poder judiciário começa a interrogar os desapropriados sobre a indenização, ou seja, se concordavam ou contestavam o valor indenizatório proposto no Decreto de 1956. Porém, muitos desapropriados deixaram de ser regularmente citados, ficando alheios a tudo que se passava.59 Novamente muitos proprietários

55 BRASIL. Declara de utilidade pública e autoriza a desapropriação de imóvel, necessário ao serviço do Exército

Nacional. DECRETO nº 40.570, de 18 de dezembro de 1956.

56 SCHIOCHET, Op. Cit, 1993, p. 73 57 Ibidem, p. 73-74.

58 Valmor Schiochet acompanhou os desapropriados/herdeiros nos acampamentos em Papanduva/SC e

Florianópolis/SC, entre os anos de 1985 a 1987. Durante esse período entrevistou desapropriados e herdeiros.

ficaram a margem do processo, não podendo questionar formalmente as decisões que estavam sendo tomadas e, principalmente, no que se refere ao valor das indenizações

No ano de 1963 o poder judiciário concede a imissão de posse provisória das terras desapropriadas ao exército. Nela o juiz solicitava que os agricultores deixassem as terras em até 48 horas. O Exército tomaria posse das terras e continuaria a revisão dos valores indenizatórios para que o processo pudesse ter término. Porém, a imissão feria o direito dos proprietários e proprietárias, visto que a Constituição vigente assegurava que fosse paga uma indenização justa em caso de desapropriação por utilidade pública.

Para entender melhor porque o direito dos agricultores e agricultoras foi violado é necessário explicar os artigos que fundamentaram o Decreto nº. 40.570, de 18 de dezembro de 1956. Tal decreto utilizou-se da Constituição de 1946 e do Decreto-Lei nº. 3.365 de 21 de junho de 1941.

O Decreto-Lei nº. 3.365 de 21 de junho de 1941, que continua sendo a lei básica ao se tratar de desapropriação, regulamentou o instituto da desapropriação. Nele fundiu-se a necessidade pública e utilidade pública em só utilidade pública.60 No caso da desapropriação para instalação do Campo de Instrução Marechal Hermes, foram utilizadas as letras a e b do art. 5º para fundamentar o Decreto nº. 40.570, de 18 de dezembro de 1956,

a) a segurança nacional; b) a defesa do Estado;61

Portanto, a desapropriação deveria ocorrer por motivos de segurança nacional e defesa do Estado. Além disso, o decreto também se utilizou da § 16 do art.141 da Constituição Federal, o qual consta que é garantido

[...] o direito de propriedade, salvo o caso de desapropriação por necessidade ou utilidade pública, ou por interesse social, mediante prévia e justa indenização em dinheiro. [grifo meu]. Em caso de perigo iminente, como guerra ou comoção intestina, as autoridades competentes poderão usar da propriedade particular, se assim o exigir o bem público, ficando, todavia, assegurado o direito a indenização ulterior”.62

Portanto, segundo a Constituição vigente em 1946, quando houvesse a necessidade de desapropriação por utilidade pública, ou por interesse social, a mesma deveria contar com uma

60 FLENIK, Op. Cit, 2017, p. 32

61 BRASIL. Dispõe sobre desapropriações por utilidade pública. Decreto-lei nº 3.365, de 21 de junho de 1941. 62 BRASIL. Constituição Federal de 1946.

prévia e justa indenização. Isso não aconteceu, visto que as famílias foram retiradas de suas terras no ano de 1963 sem ter recebido a prévia e justa indenização que tinham direito.

Ainda no tocante as indenizações, após a saída em 1963, os proprietários receberam a promessa de que dentro de 30 a 60 dias as receberiam. Esse prazo estava respaldado numa reavaliação da área que deveria ser realizada após a saída. Mas segundo Schiochet, o processo de pagamento iria demorar, pois após a reavaliação haveria processo judicial.63

Tal reavaliação dos valores de indenização só foi realizada após a saída dos agricultores da área, sob a responsabilidade do Juiz da Comarca de Canoinhas. Em 1965, todos os processos de reavaliação foram julgados pela 4ª Vara Civil de Florianópolis/SC. A decisão foi favorável para que se indenizasse os desapropriados de acordo com os valores estabelecidos pelos peritos que a realizaram em 1963. A União, através de seu procurador geral, apelou e transferiu a decisão para o Supremo Tribunal de Recursos (STR) em Brasília.64

Segundo Schiochet, enquanto era realizado o processo de reavaliação, alguns desapropriados conseguiram receber uma parcela da indenização, na seguinte condição: sobre o valor oferecido, os advogados, enquanto procuradores, retiraram 80%, sendo que 20% eram descontados como pagamento pelos serviços prestados. Dessa maneira, os desapropriados receberam 60% do valor estipulado. O restante seria incorporado ao valor determinado pela nova avaliação. Para o autor, segundo os desapropriados, isso representava um percentual de 2 a 3% se comparado com o valor de mercado das terras na época.65

A decisão final sobre o valor indenizatório a ser pago a partir da reavaliação só ocorreu na década de 1970, quando o STR se pronunciou sobre o caso. Em alguns casos a decisão final ocorreu no ano de 1971, em outros se estendeu até 1975. Sendo assim, a distância temporal entre a reavaliação e a decisão final, em alguns casos, foi de uma década. Passados 10 anos, o valor das indenizações sofreu uma alta desvalorização devido a inflação e a valorização das terras.66 Ainda segundo Valmor Schiochet, o ponto mais grave da decisão do STR foi a redução dos valores em 40 a 50% e em muitos casos retirou a correção monetária e os juros cabíveis, os quais assegurariam a atualização das indenizações.67

Portanto, o processo de reavaliação foi muito lento e a decisão final foi desfavorável aos desapropriados. Além disso, apresentou outros problemas: não deixou claro aos desapropriados os critérios que foram adotados para a atribuição dos valores, nem os critérios que levaram a

63 SCHIOCHET, Op. Cit, 1993, p. 81. 64 Idem.

65 Idem. 66 Idem.

retirar a correção monetária de alguns e de outros não; algumas indenizações foram retiradas por outras pessoas sem procuração e até mesmo por desconhecidos.68

O pagamento das indenizações tornou-se ainda mais complexo pela atuação dos advogados, procuradores dos desapropriados. Segundo Valmor Schiochet, somente dez desapropriados receberam formalmente as indenizações, seja pessoalmente ou através de procuradores. O grande problema, segundo o autor, é que os advogados que receberam como procuradores não repassaram a indenização aos desapropriados. Em alguns casos, o advogado recebeu a indenização com um documento de procuração sem validade legal, visto que o proprietário já havia falecido.69

68 Idem.