CAPÍTULO 2 Estudos na Interface Sintaxe/Fonologia
2.8 DeDe (2010)
DeDe (2010) conduziu dois experimentos de self-paced listening para examinar o papel do fraseamento prosódico e sua interação com questões de transitividade verbal e plausibilidade na resolução de ambiguidades sintáticas.
As sentenças utilizadas no experimento 1 eram de estrutura early closure com duas versões de transitividade/plausibilidade: com verbo transitivo seguido por um NP plausível como OD; e com verbo intransitivo seguido por um NP implausível como OD. As duas versões foram submetidas a gravações em duas condições prosódicas, a condição de viés-sujeito em que uma fronteira de I acontecia após o verbo e a condição de viés-objeto quando não havia uma fronteira demarcada. A combinação das 2 versões com as 2 condições prosódicas gerou um grupo experimental com 4 condições23:
(37a) Versão transitiva/plausível + Prosódia viés-sujeito:
[While the parents/ watched] L- L% IP / [the child/ sang/ a song/ in the kitchen] L- L% IP NP1 V NP2
(37b) Versão transitiva/plausível + Prosódia viés-objeto:
[While the parents/ watched/ the child/ sang/ a song/ in the kitchen] L- L% IP NP1 V NP2
(37c) Versão intransitiva/implausível + Prosódia viés-sujeito:
[While the parents/ danced] L-L% IP / [the child/ sang/ a song/ in the kitchen] L-L% IP NP1 V NP2
(37d) Versão intransitiva/implausível + Prosódia viés-objeto:
[While the parents/ danced/ the child/ sang/ a song/ in the kitchen] L-L% IP NP1 V NP2
15 pares de sentenças foram criados e gravados nas duas condições prosódicas em teste, totalizando 60 itens experimentais. As sentenças experimentais foram divididas em fragmentos como exemplificado pelas barras “/” nos exemplos de 37a a 37d. As frases foram distribuídas em 4 listas que foram submetidas a um grupo de 26 informantes. Todos os informantes foram submetidos às 4 listas experimentais, em sessões distintas com intervalos de, pelo menos, 1 semana entre elas. Cada lista continha 78 sentenças distratoras, de maneira que os itens experimentais representavam menos de 20% da lista completa. A tarefa dos participantes era ouvir cada fragmento apertando um determinado botão em uma button box. Depois de cada frase ser completamente ouvida, os informantes ouviam uma pergunta de compreensão
sobre a frase e deveriam responder “sim” ou não” para as perguntas também pressionando os botões assinalados na button box. O tempo de reação a cada fragmento e as respostas escolhidas pelos participantes foram registradas com resolução em milissegundos.
O tempo de reação para cada acionamento do botão de comando foi mensurado desde o início do fragmento. As durações dos fragmentos foram, então, subtraídas deste tempo total e foram considerados como “tempos de audição” apenas a diferença entre o tempo medido e a duração dos fragmentos. Os tempos de audição no NP1, no verbo principal e no NP2 foram submetidos a um teste estatístico de anova fatorial 2x2 (2 versões de transitividade/plausibilidade X 2 condições prosódicas) de medidas repetidas. No NP1 houve um efeito significativo da interação entre a prosódia e as condições léxico-pragmáticas. Em geral os participantes demoraram mais tempo no NP1 nas condições conflitantes (exemplos 37a e 37d). Os tempos de audição foram maiores na condição intransitiva/implausível e menores na condição transitiva/plausível. No verbo principal (V) o efeito das condições de transitividade/plausibilidade foi significativo e o inverso do ocorrido no NP: o tempo de audição foi maior na versão transitiva/plausível do que na condição intransitiva/implausível. O tempo de audição foi maior na condição transitiva/plausível + prosódia viés-objeto (exemplo 37b) do que nas demais condições. Esse resultado sugere que a reanálise acontece na condição em que todas as pistas manipuladas sustentam a interpretação late closure do NP ambíguo (NP1), ou seja, a interpretação do NP como objeto do verbo subordinado precedente. Ainda no verbo, o tempo de audição foi numericamente maior na condição prosódica viés-objeto, mas o efeito principal foi significativo apenas na análise por itens. Esse padrão de resultados sugere que os ouvintes tentam primeiro integrar o NP, em posição ambígua, como um OD em ambas as versões de transitividade/plausibilidade. Na condição transitiva/plausível essa tentativa de aposição resulta na reanálise no verbo principal, aumentado o tempo de audição no mesmo. Na condição intransitiva/implausível, os tempos maiores de reação no NP refletem a dificuldade na tentativa de integrá-lo ao verbo subordinado precedente. Com relação à condição prosódica viés-sujeito, não foi constatado nenhum efeito GP na versão intransitiva/implausível. Esse resultado era de certa forma esperado, pois todas as pistas manipuladas apontam para a interpretação early closure. Já na versão transitiva/plausível, foram
encontradas evidências para o efeito de reanálise no NP1, mas não no verbo principal (V).
Esses resultados sugerem que há uma interação entre as pistas prosódicas e as léxico-pragmáticas no processamento, como foi sugerido por Blodgett (2004b) em seu Phon-Concurrent Model. No entanto, a pesquisadora argumenta que, neste experimento, a transitividade e a plausibilidade foram combinadas em um único fator e, por isso, não é possível saber se a interação das pistas léxico-pragmáticas com a prosódia se dá apenas pela transitividade, ou apenas pela plausibilidade ou é requerida por ambas. Por esse motivo, um segundo experimento foi desenvolvido. Agora, o fator plausibilidade do NP como OD será mantido constante e as estruturas early closure irão variar apenas no fator transitividade. Vejamos, para exemplificação, um conjunto experimental com as 4 condições do experimento 224:
(38a) versão transitiva/plausível + prosódia viés-sujeito
[While the boys/ watched] L-L% IP / [the girl/ played/ soccer/ in the park] L-L% IP
(38b) versão transitiva/plausível + prosódia viés-objeto
[While the boys/ watched/ the girl/ played/ soccer/ in the park] L- L% IP
(38c) versão intransitiva/plausível + prosódia viés-sujeito
[While the boys/ fought] L- L% IP / [the girl/ played/ soccer/ in the park] L- L% IP
(38d) versão intransitiva/plausível + prosódia viés-objeto
[While the boys/ fought/ the girl/ played/ soccer/ in the park] L- L% IP
Com este novo conjunto experimental, a pesquisadora quer investigar se a interpretação do NP como objeto direto é considerada mesmo quando todas as condições apontam para a interpretação do NP como sujeito. Se a interpretação preferencial pelo OD não for considerada em todas as condições, então a mudança de plausibilidade não irá alterar os padrões de tempos de audição encontrados no experimento 1. O experimento 2 testa essa questão incluindo uma condição em que as pistas de transitividade e de fraseamento prosódico apontam para a interpretação early closure, mas o NP é plausível na posição de OD (versão intransitiva/plausível + prosódia viés-sujeito, exemplo 38c), ou seja, é uma pista para a interpretação late closure. Uma hipótese alternativa é que os ouvintes consideram as duas possíveis interpretações do NP e as pistas léxico-pragmáticas e prosódicas afetam a facilidade em aceitar
ou rejeitar uma análise particular. Se tal hipótese estiver correta os tempos de audição no NP1 na condição intransitiva/plausível + prosódia viés-sujeito (38c) do experimento 2 serão maiores do que na condição intransitiva/implausível + prosódia viés-sujeito (37c) do experimento 1, pois haverá o conflito entre as pistas de transitividade e prosódia que apontarão para a interpretação early closure e a pista de plausibilidade do NP que apontará para a interpretação late closure.
Um conjunto de 13 pares de sentenças transitivas e intransitivas foram gravadas nas duas condições prosódicas e divididas em fragmentos como exemplificado em 38a a 38d. Os itens experimentais foram, então, divididos em 4 listas e apresentados a um grupo de 27 informantes, em 4 sessões de testes distintas. Todo o procedimento metodológico foi idêntico ao experimento 1. Os tempos de audição no NP1 e no V foram mensurados e avaliados em testes de anova fatorial de medidas repetidas.
Os resultados dos tempos de audição no NP apontam para o efeito principal da prosódia. O tempo de audição foi maior para a condição de viés- sujeito do que na condição de viés-objeto. O efeito da transitividade também foi significativo e o tempo de audição foi maior para as sentenças intransitivas do que para as sentenças transitivas. A interação entre as duas condições não foi significativa, pois os participantes foram mais lentos em todas as condições com pistas inconsistentes com a interpretação late closure. Nas análises dos tempos de reação no verbo principal, o ponto de desambiguação, também foram encontrados efeitos principais da condição prosódica e da transitividade. Os tempos de audição foram maiores nas sentenças com condição prosódica de viés-objeto do que na condição de viés-sujeito e maiores nas sentenças com verbos transitivos. Na comparação entre os experimentos, o tempo de audição do NP na condição intransitiva+prosódia viés-sujeito do experimento 2 foi maior do que na condição intrasitiva/implausível + viés- sujeito do experimento 1. O efeito foi o contrário nas sentenças com a prosódia de viés-objeto. Tais resultados sugerem que os ouvintes consideram a interpretação late closure do NP, mesmo quando todas as pistas no verbo precedente apontam para a interpretação early closure. De acordo com a hipótese alternativa dada pela pesquisadora, o tempo de audição numericamente menor no NP do experimento 1 reflete o efeito de rejeição mais rápida da interpretação late closure causada pela implausibilidade do NP e não a sua desconsideração.
Com estes resultados, DeDe (2010) argumenta que a afirmação de que a prosódia pode determinar a interpretação inicial de estruturas sintáticas (como em Kjelgaard & Speer, 1999) não pode ser sustentada com os achados desta pesquisa. Se a fronteira prosódica marca a fronteira sintática e desambiguisa a estrutura early closure, então pistas de outras naturezas (lexicais/pragmáticas) não deveriam ter influências nos tempos de audição. No entanto, a presença de uma fronteira prosódica seguinte ao verbo não fez com que os ouvintes se comprometessem com a interpretação early closure na condição intransitiva/plausível + prosódia viés-sujeito. A plausibilidade do NP com a interpretação late closure, nessa condição, influenciou o tempo de audição, mesmo quando todas as pistas no verbo suportavam a interpretação early closure.
Por fim, DeDe (2010) argumenta que os resultados do experimento 2 também não podem ser explicados pelo Phon-Concurrent Model de Blodgett (2004b), pois as pistas de intransitividade do verbo e do fraseamento prosódico deveriam ser suficientes para desencadear nos analisadores semântico e sintático o significado dominante (intransitivo) e o fechamento antecipado do sintagma verbal. No entanto, a pista de plausibilidade causou influências no processamento, atrasando a análise. O Phon-Concurrent Model poderia dar conta desses resultados se relaxasse a afirmação de que a fronteira de sintagma entoacional desencadeia o comprometimento com a estrutura mais ativa nos analisadores sintático e semântico. As dúvidas sobre a interação da prosódia com outros fatores linguísticos e o papel dessa interação no parser ainda ficaram por ser respondidas.