2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1 MICROPOLUENTES EMERGENTES
2.1.2 Produtos para Cuidado Pessoal (PCPs)
2.1.2.2 DEET
O DEET é o componente ativo na maioria dos produtos repelentes de insetos no mundo e ele vem sendo utilizado extensivamente nos últimos 60 anos.
Devido ao baixo custo e amplo espectro de atividade inseticida contra mosquitos, moscas, pulgas, carrapatos e outros insetos que picam, produtos com o DEET também são largamente utilizados para a proteção de humanos e animais. O uso doméstico do DEET é estimado em 1.800 toneladas por ano nos EUA, atingindo aproximadamente 30% da população deste país (USEPA, 1998). O desenvolvimento e o uso do DEET para o combate de transmissões de doenças tem inquestionavelmente salvado muitas vidas desde a sua introdução como repelente de insetos. Um pequeno número de efeitos colaterais tóxicos em humanos foram relatados quando o DEET foi usado em excesso (SUDAKIN e TREVATHAN, 2003).
Além disso, pesquisas também mostraram que o DEET possui potencial carcinogênico em células da mucosa nasal (TISCH et al., 2002). Informações sobre a ecotoxicidade do DEET são limitadas, porque ele foi registrado como um produto
42 para uso interno e com isso acreditava-se que ele dificilmente entraria no meio ambiente aquático e assim não poderia ser considerado uma ameaça aos organismos aquáticos (USEPA, 1998). Porém, o que o ocorreu é que o DEET foi identificado em ETEs de vários países (WEIGEL et al., 2004; GLASSMEYER et al., 2005, BERNHARD et al., 2006; KIM et al., 2007; COSTANZO et al., 2007, HOLLENDER et al., 2009, SUI et al., 2009; ABE e ISHII, 2010), em águas superficiais (KOLPIN et al., 2002; GLASSMEYER et al., 2005; KIM et al., 2007;
COSTANZO et al., 2007; QUEDNOW e PÜTTMANN, 2009; ABE e ISHII, 2010), subterrâneas (BARNES et al., 2004, 2005; TRENHOLM et al., 2006; ABE e ISHII, 2010) e em águas tratadas (STACKELBERG et al., 2004, 2007; TRENHOLM et al., 2006; BENOTTI et al., 2009), sendo inclusive reportada a sua ocorrência em lugares remotos, como cavernas (BIDWELL et al., 2010) e águas marinhas (WEIGEL et al., 2002; 2004).
O principal caminho de entrada do DEET nos ambientes aquáticos é através do esgoto doméstico, originado pelo processo de lavagem da pele e de roupas, e também pela absorção seguida pela excreção por seres humanos (COSTANZO et al., 2007). Uma vez que, estudos têm demonstrado que uma porcentagem do DEET (<20%) é absorvida pela pele, metabolizada e excretada como metabolitos (SUDAKIN e TREVATHAN, 2003). Na tabela 6 são apresentados os valores típicos encontrados de DEET em efluentes de ETEs de vários países.
43 TABELA 6 – CONCENTRAÇÕES MÉDIAS E MÁXIMAS ENCONTRADAS DE DEET EM ETEs DE VÁRIOS PAÍSES
2006 Alemanha ETE com sistema de tratamento com
lodos ativados e remoção de Nitrogênio 200 N.A.
KIM et al., 2007 Coréia do Sul 7 ETEs com tratamento biológico
secundário 27 60
SUI et al., 2009 China 3 ETEs com tratamento biológico
secundário 42,1 57,6
HOLLENDER et al.,
2009 Suíça Efluente Sistema Biológico Secundário N.A. 360
COSTANZO et al., 2007 Austrália ETEs com sistema de lodos ativados
com remoção de Nitrogênio N.A. 140
ABE e ISHII, 2010 Japão 4 ETEs localizadas em Tóquio 27 60
WEIGEL et al., 2004 Noruega ETE localizada na Ilha de Tronsø N.A. 60
PETROVA, 2010 Alemanha ETE objeto deste estudo 70 N.A.
Med. – Concentrações médias em ng/L nos efluentes finais das ETEs.
Máx. – Concentrações máximas em ng/L nos efluentes finais das ETEs N.A. – Não avaliado.
Em águas superficiais o DEET chegou a ser encontrado em concentrações de até 1.6 µg/L nos EUA (BARTELT-HUNT et al., 2009), 1,2 µg/L na Alemanha (QUEDNOW e PÜTTMANN, 2009) e 0,5 µg/L na Austrália (COSTANZO et al., 2007).
Em países como o Japão e a Coréia do Sul o DEET ocorreu em concentrações máximas bem inferiores de 31 e 69 ng/L, respectivamente (ABE e ISHII, 2010 e KIM et al., 2007). Em águas subterrâneas do Japão foram encontrados os valores médio de 9,4 ng/L e máximo de 38 ng/L de DEET em poços localizados na margem do Rio Tama (ABE e ISHII, 2010). O DEET também foi detectado na Austrália por Trenholm
44 et al. (2006) com o valor de 44 ng/L. Além disso, o DEET está entre os cinco micropoluentes orgânicos mais detectados em águas subterrâneas dos EUA, chegando a ser encontrado com concentrações de até 13 µg/L em poços localizados numa área de influência de um aterro desativado (BARNES et al., 2004; 2005).
Stackelberg et al. (2007) reportou concentrações de até 200 ng/L de DEET em águas brutas usadas para abastecimento público dos EUA, e o DEET ocorreu em 100% das doze amostras coletadas de água tratada com concentrações média de 78 ng/L e máxima de 97 ng/L. Benotti et al. (2009) encontrou concentrações de até 93 ng/L de DEET em águas tratadas e de 63 ng/L em águas distribuídas também dos EUA. O DEET também foi encontrado em lugares remotos como em cavernas dos EUA com concentrações de 20 e 99 ng/L (BIDWELL et al., 2010) e em águas do Mar do Norte com concentrações variando de 0,4 ng/L até 13 ng/L (WEIGEL et al., 2002; 2004).
Na Alemanha o DEET em 1999 começou a ser substituído pelo Bayrepel em alguns produtos repelentes por pressão dos consumidores, porém, em um estudo realizado com 330 amostras, no período de setembro de 2003 a setembro de 2006, em 26 locais diferentes de coleta em águas superficiais da região de Hesse na Alemanha, os resultados encontrados não evidenciaram uma redução da ocorrência do DEET em comparação com medições anteriores. A concentração média de DEET encontrada foi de 124 ng/L com uma variação de <LQ a 1,3 µg/L (QUEDNOW e PÜTTMANN, 2009).
Alguns autores puderam identificar maiores concentrações de DEET durante as estações mais quentes do ano, onde ocorre a temporada de mosquitos e assim naturalmente o uso de produtos repelentes contendo DEET nestes períodos são maiores (NAKADA et al., 2006; QUEDNOW e PÜTTMANN, 2009). Quednow e Püttmann (2009) sugerem que a ocorrência do DEET na Alemanha durante o inverno e a primavera, em estações do ano onde a aplicação de DEET como repelente de insetos é considerada inexistente, somente é resultante da lavagem de roupas usadas em regiões mais quentes durante feriados e férias, uma vez que é recomendado o uso de DEET em viagens para os trópicos.
A maioria dos dados das concentrações de DEET vem dos EUA, o que pode ser explicado pelo baixo custo e grande disponibilidade neste país. O uso em regiões mais tropicais (particularmente nos meses mais quentes) podem ser ainda
45 maiores devido à maior ocorrência de doenças com origem de mosquitos, como a dengue. Assim as concentrações de DEET em países como o Brasil podem ser muito maiores que as concentrações encontradas nos países de clima temperado (COSTANZO et. al., 2007).
Como já mencionado, por se acreditar que o DEET não atingiria o meio ambiente aquático, não existem muitos estudos de ecotoxicidade para o DEET e o pequeno número de estudos mostram que o DEET é levemente tóxico para peixes e invertebrados de água doce. Os valores encontrados de toxicidade aguda em trutas arco-íris para LC50 (96h) é igual a 71,25 mg/L e na D. magna o EC50 (48h) é igual a 75 mg/L (USEPA 1998; 2011).