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DeFeNDIDA e eXpLICADA

No documento Antologia de Textos Filosóficos (páginas 117-123)

35. [...] Houve uma longa e íntima associação em nossas mentes en- tre as ideias da visão e do tato. É por isso que elas são consideradas como uma única coisa. Tal preconceito foi muito adequado aos propósitos da vida e a linguagem adequou-se a ele. A obra da ciência e da especulação é desfazer nossos preconceitos e enganos, deslindando as conexões mais intrincadas, distinguindo as coisas que são diferentes e fazendo com que deixem de ser confusas e obscuras, proporcionando-nos visões distintas, corrigindo gradualmente nosso julgamento e conduzindo-o a uma exati- dão filosófica. [...]

36. No dispositivo da visão, assim como em outros casos, a pro- vidência divina parece ter consultado antes a operação do que a teoria dos homens. As coisas são admiravelmente adaptadas à primeira mas é exatamente por esta razão que a segunda frequentemente torna-se con- fusa. Pois tanto quanto estas sugestões imediatas e conexões constantes são úteis para o direcionamento de nossas ações, igualmente necessário

3 BERKELEY, G. Theory of Vision Vindicated and Explained. In:_____. The Works of

George Berkeley. I. Edited by A.A. Luce e T.E Jessop. Edinburgo: Thomas Nelson and

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para a especulação e para o conhecimento da verdade é nosso distinguir entre coisas confundidas e separar coisas misturadas e como que fundi- das umas nas outras.

43. Explicar como a mente ou a alma do homem simplesmente vê é uma coisa, e pertence à filosofia. Considerar partículas enquanto mo- vendo-se em certas linhas, raios de luz enquanto refratados ou refletidos, ou cruzando-se, ou incluindo ângulos, é coisa bem distinta e pertence à geometria. Explicar o sentido da visão pelo mecanismo do olho é uma ter- ceira coisa, que pertence à anatomia e aos experimentos. As duas últimas especulações são úteis na prática para corrigir os defeitos e remediar as desordens da visão, em concordância com as leis naturais vigentes neste sistema mundano. Mas a primeira teoria é que nos faz entender a verda- deira natureza da visão, considerada como uma faculdade da alma. Tal teoria, como já afirmei, pode ser reduzida a esta simples questão: “como é que um conjunto de ideias totalmente diferentes de ideias tangíveis pode, apesar disso, no-las sugerir, não havendo conexão necessária en- tre elas?”. Ao que a resposta adequada é: “Isto se dá em virtude de uma conexão arbitrária, instituída pelo Autor da natureza”.

44. O objeto próprio e imediato da visão é a luz, em todos seus modos e variações, cores que variam em espécie, em grau, em quantida- de; algumas vivas, outras mais obscuras; mais de algumas e menos de outras; diversas em seus contornos ou limites; variadas em sua ordem e disposição. Um homem cego, ao ver pela primeira vez, poderia perceber estes objetos, nos quais há infinita variedade; porém ele não poderia nem perceber nem imaginar qualquer semelhança ou conexão entre estes ob- jetos visíveis e aqueles percebidos pelo tato. Luz e sombra, juntamente com as cores, nada lhe sugeririam sobre os corpos, se macios ou sólidos, lisos ou ásperos. Nem poderiam suas quantidades, limites ou ordem lhe sugerir figuras geométricas, extensão ou situação, o que pelas suposições recebidas da tradição, isto é, de que estes objetos são comuns à visão e ao tato, deveriam fazê-lo.

45. Todos os vários tipos, combinações, quantidades, graus e dis- posições da luz e das cores seriam considerados, em sua primeira per-

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cepção, como sendo apenas um novo conjunto de sensações ou ideias. Como seriam inteiramente novas e desconhecidas, um homem nascido cego não daria a elas, ao vê-las pela primeira vez, os nomes das coisas anteriormente conhecidas e percebidas pelo seu tato. Mas, após alguma experiência, ele perceberia suas conexões com as coisas tangíveis e as consideraria então como signos, e a elas daria (como ocorre em outros casos) o mesmo nome das coisas significadas.

46. Mais e menos, maior e menor, dimensão, proporção, intervalo, são encontradas no tempo e no espaço mas daí não segue-se, necessaria- mente, que estas quantidades sejam homogêneas. Tampouco seguir-se-á, da atribuição de nomes comuns, que ideias visíveis sejam homogêneas àquelas do tato. É verdade que os termos utilizados para denotar exten- são, figura, localização e movimento táteis, entre outros, são também em- pregados para denotar quantidade, relação e ordem dos objetos ou ideias propriamente visíveis da visão. Mas isto procede apenas da experiência e de analogia. Há um mais alto e um mais baixo nas notas musicais. Fala-se de tons mais altos e mais baixos. E isto, obviamente, nada mais é do que metáfora ou analogia. Assim também, para expressar a ordem das ideias visíveis, faz-se uso das palavras posição, alto e baixo, acima e abaixo, e seu

sentido, quando assim utilizadas, é analógico.

47. Mas, no caso da visão, vamos além de uma suposta analogia en- tre naturezas diferentes e heterogêneas. Supomos haver uma identidade de natureza ou um e mesmo objeto comum a ambos os sentidos. E a este erro fomos induzidos: assim como os vários movimentos da cabeça, para cima e para baixo, para a direita e para a esquerda, são acompanhados de uma variação nas ideias visuais, igualmente passamos a considerar que aqueles movimentos e posições da cabeça, que na verdade são tangíveis, transferem seus atributos e denominações às ideias visíveis com as quais estão conectadas e que, deste modo, passam a ser chamadas de “alto” e “baixo” ou “direita” e “esquerda”, e a serem marcadas por outros nomes indicando modos da posição que, antes de tal experiência, não teriam sido a ele atribuídos ou pelo menos não em sentido primárioe literal.

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trato do Philosophical Transactions, sobre uma pessoa cega desde seus in- fância que recobrou a visão muito mais tarde: “Quando viu pela primeira vez, era-lhe tão difícil fazer qualquer julgamento sobre distâncias que pensou que todos e quaisquer objetos que tocavam seus olhos (segundo suas palavras) o faziam tal como os objetos tocavam sua pele. E pensava que nenhum objeto era tão agradável quanto aqueles que eram lisos e regulares, ainda que não conse- guisse formar nenhum julgamento de sua forma nem identificar o que é que, em cada objeto, o agradava. Ele não conhecia a forma de nada e nem sabia distinguir nenhuma coisa de outra, por mais diferente que fossem em forma e tamanho. Porém depois que lhe era dito que coisas correspondiam àquelas cujas formas ele já conhecia através do tato, ele dizia que poderia conhecê-las novamente. Mas se tivesse muitos objetos para aprender ao mesmo tempo, ele esquecia muitos de- les. E (dizia ele), inicialmente aprendia e esquecia novamente milhares de coisas num único dia. Várias semanas depois de ter sido operado, ao ser iludido por imagens, ele perguntou qual era o sentido mentiroso: o tato ou a visão? Ele nun- ca foi capaz de imaginar qualquer linha além dos limites do que via. Ele sabia, disse ele, que o quarto em que estava não era senão uma parte da casa mas não conseguia conceber o fato de que a casa inteira pudesse parecer maior. Ele disse que cada novo objeto era uma novo deleite e que o prazer era tão grande que lhe faltavam palavras para expressá-lo”. Portanto, aqueles pontos da teoria que pareciam os mais distantes da apreensão comum foram notavelmente confirmados por fato e experimento, anos depois de eu ter sido levado à sua descoberta pelo uso da razão.

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Secretaria de Estado da Educação do Paraná

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gerd alberto BORNhEIm nasceu em Caxias do Sul, RS, no dia

19 de novembro de 1929. Bacharelou-se em Filosofia pela PUC de Porto Alegre, em 1951. Viajou para Paris como bolsista da Aliança Francesa. Frequentou cursos na Sorbonne e nas universidades de Oxford (Inglater- ra) e Freiburg (Alemanha). Foi professor dos cursos de Filosofia da PUC, Porto Alegre, e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Cristo Rei, em São Leopoldo, embrião da Unisinos.

Em 1963, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, defen- deu a tese Motivação Básica e Atitude Originante do Filosofar em concurso de livre-docência. O texto de sua tese, com algumas modificações, foi publicado pela Editora Globo, de Porto Alegre, sob o título de Introdução ao Filosofar. O pensamento filosófico em bases existenciais. Na UFRGS, lecio- nou Introdução à Filosofia e Filosofia Geral. Ministrou aulas de Língua e Literatura Alemã na Faculdade de Letras e foi Diretor do Curso de Arte Dramática, da Faculdade de Filosofia, e responsável pela disciplina Teo- ria Geral do Teatro.

No dia 29 de agosto de 1969, o Professor Gerd Bornheim foi cassa- do pelo regime militar e proibido de lecionar em qualquer outra univer-

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