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A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE ENQUANTO ESPAÇO SÓCIO-OCUPACIONAL DO/A ASSISTENTE SOCIAL

3. INSERÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL NO CAMPO SOCIOJURÍDICO BRASILEIRO

3.3. A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE ENQUANTO ESPAÇO SÓCIO-OCUPACIONAL DO/A ASSISTENTE SOCIAL

A estrutura administrativa da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Norte foi instituída mediante a Lei Complementar Estadual de número 251, datada de 07 de julho de 2003, tendo por base a Lei Complementar Federal de número 80, de 1994, que criou a Defensoria Pública da União e consolidou normais gerais para a sua criação nos estados brasileiros.

O órgão dispõe de funções, as quais o artº 3 da lei complementar evidencia, quais sejam:

Art. 3º São funções institucionais da Defensoria Pública do Estado, dentre outras que lhes sejam correlatas: I - promover, extrajudicialmente, a conciliação entre as partes em conflito de interesses; II - patrocinar ação penal privada e a subsidiária da pública; III - patrocinar defesa em ação penal; IV - patrocinar ação civil; V - patrocinar defesa em ação civil e reconvir; VI - atuar como Curador Especial de necessitados, nos casos previstos em lei; VII - exercer a defesa da criança e do adolescente, nos casos previstos em Lei; VIII - atuar junto aos estabelecimentos policiais e penitenciários, visando assegurar à pessoa, sob quaisquer circunstâncias, o exercício dos direitos e garantias individuais; IX - assegurar aos seus assistidos, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral, o contraditório e a ampla defesa, com recursos e meios a ela inerentes; X - atuar junto aos Juizados Especiais Cíveis e Criminais; XI - patrocinar os direitos e interesses do consumidor necessitado lesado; XII - promover, junto aos cartórios competentes, o assentamento de registro civil de nascimento e óbito de necessitados. (BRASIL, 2003)

Apesar de ser uma Instituição Estadual, a Defensoria Pública não está vinculada ao Governo, tendo sua autonomia prevista na Constituição Federal, algo que de certo modo assegura os Defensores Públicos a efetivarem sua atuação frente às causas processuais apresentadas pelos assistidos sem qualquer tipo de constrangimento.

Desse modo, o Defensor possui independência na sua atuação profissional, cabendo-lhe decidir livremente acerca de cada caso que venha atuar, de acordo com a Lei. É importante salientar que atualmente no Estado do Rio Grande do Norte existem 64 Defensores Públicos em atuação, sendo que a administração superior da instituição é conduzida pelo Defensor Público-Geral. No anexo II, objetivo principal desta pesquisa, atuam hodiernamente 14 defensores distribuídos entre as áreas cíveis, família, Infância e Juventude e criminal.

Antes da promulgação da Constituição de 1988 incumbir a Defensoria Pública enquanto órgão destinado a prestar assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos, a sua trajetória até a presente data foi marcada por lutas sociais em defesa do direito de acesso à justiça.

De acordo com registros institucionais5, em meados de 1987 a Procuradoria Geral do Estado do RN, especificamente na Procuradoria de Assistência Jurídica, ofertava serviços jurídicos a comunidade de forma gratuita prestados pelos primeiros defensores públicos, quando a instituição nem existia; o primeiro concurso para a função ocorreu em 1986 para atuarem na área cível e criminal. Estes trabalhavam com assistentes jurídicos e eram responsáveis por realizarem o atendimento a toda população, fazer acompanhamento processual e participar de júris no Estado. Essa prática se estendeu por 16 anos até a criação oficial da Defensoria Pública do Estado (DPE-RN).

No ano de 2000, os Estados do Rio Grande do Norte e Alagoas eram os únicos do Nordeste que ainda não tinham a estrutura da Defensoria Pública. Engajado com a luta pelo acesso à justiça gratuita e eficiente, o procurador Valério Djalma Cavalcanti Marinho e também chefe da Procuradoria de Assistência Jurídica, efetivou entre tantos feitos, o envio à Assembleia Legislativa do Estado o Projeto de Lei que criara, outrora, a Defensoria Pública do Estado do RN. Nessa trajetória, se passaram quatro anos até a aprovação do PL no legislativo estadual e a sanção do Governo. Nesse espaço de tempo, houve a criação do projeto que definia a atuação da Defensoria Pública e sua estrutura organizacional.

5 Informações colhidas a partir da leitura efetuada na Edição Especial de 15 anos da Defensoria, Revista da Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Norte, agosto de 2018, Ano 2, Edição 2.

Hodiernamente, o Rio Grande do Norte possui 13 (treze) núcleos sede espalhados por todo o estado, quais sejam, Núcleo de Assú, Núcleo de Caicó, Núcleo de Ceará-mirim,Núcleo de Currais Novos, Núcleo de Macaíba, Núcleo de Mossoró, Núcleo de Natal, Núcleo de Nísia Floresta, Núcleo de Nova Cruz, Núcleo de Parnamirim, Núcleo de Pau dos Ferros, Núcleo de Santa Cruz, Núcleo de São Gonçalo do Amarante, responsáveis por atender as demandas jurídicas da população.

FIGURA 3 - MAPA DA DEFENSORIA PÚBLICA DO RN

Fonte: site da Defensoria Pública do Estado do RN

A Defensoria Pública atua em qualquer espécie de caso, desde que seja do âmbito da Justiça Estadual. Cabe destacar algumas áreas de atuação, como a Cível que envolve o Direito Civil; de Família e Sucessões; do Consumidor; Urbanístico; Ambiental; à Saúde; a Tutela Coletiva, Criminal, Infância e Juventude e Execução Criminal.

O Núcleo Especializado de Acompanhamento Processual Cível foi regulamentado a partir da resolução estadual de nº 87/2014 formulada pelo Conselho Superior da Defensoria Pública -CSDP, sendo coordenado por um defensor público da área cível. Suas atribuições estão na realização da: 1) Assistência Jurídica para o exercício do contraditório (contestação, justificativa e defesas cíveis); 2) Orientação do andamento processual e diligências; 3) Acompanhamento de audiências; 4) Interposição de recursos; 5) Prestar informações a outros órgãos sobre casos que exista atuação dos defensores do núcleo.

Ainda de acordo com a resolução 87/2014, a quantidade de atendimentos deve ser de 10 (dez) atendimentos por defensoria; tendo em vista que cada defensor é responsável por uma e 5 (cinco) defesas por semana por defensoria. Esse número somente poderá ser ampliado ou reduzido por determinação do CSDP.

Conforme o Mapa da Defensoria (2013), realizado pela Associação Nacional dos Defensores Públicos (ANADEP) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), “o critério de renda e o limite de três salários-mínimos têm sido os parâmetros utilizados pelo Ministério da Justiça e pelo PNUD nas edições do Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil, por serem de fácil aferição com base nos dados no IBGE”.

Referente à Defensoria Pública do RN, a partir da resolução estadual de nº 014/2010 CSDP, para o assistido ser considerado hipossuficiente deverá passar pela triagem do “Perfil Socioeconômico” que se trata da declaração de hipossuficiência elaborada com a juntada de dados acerca da entidade familiar do assistido, sua renda e patrimônio. A recusa do atendimento é atribuição institucional do defensor público, apesar do atendimento ser feito pelo Serviço Social.

De acordo com o artigo 4º da Lei Complementar Estadual de nº 251/2013, são considerados hipossuficientes os indivíduos que:

para os fins desta Lei, aquele cuja insuficiência de recursos não lhe permita arcar com as despesas processuais e os honorários advocatícios, sem prejuízo do sustento próprio e de sua família, especialmente nos seguintes casos: I - tenha renda pessoal mensal inferior a dois salários mínimos; II - pertença à entidade familiar cuja média de renda “per capita” ou mensal não ultrapasse a metade do valor referido no inciso anterior (BRASIL, 2013, p. 2).

O defensor indefere a assistência gratuita se houver recusa do assistido em apresentar documentos comprobatórios possuindo vínculo empregatício; se este se negar a assinar a declaração de hipossuficiência ou a responder as perguntas que estruturam o perfil socioeconômico e, se for verificado indícios de que a renda declarada não corresponde ao padrão de vida ou ao patrimônio.

No que condiz às demandas, no primeiro semestre do ano de 2019, o Núcleo de Acompanhamento Processual Cível, Anexo II, de acordo com o Relatório de Atendimento produzido pelo Setor Social, atendeu as seguintes demandas:

QUADRO 1. RELATÓRIO DE ATENDIMENTOS - SETOR SOCIAL CÍVEL - JANEIRO A MAIO DE 2019 ATENDIMENTO QUANTIFICAÇÃO ORIENTAÇÃO INICIAL 1.511 ACOMPANHAMENTO PROCESSUAL 1.631 DEFESA 399

DILIGÊNCIAS ENTREGUES AO SETOR SOCIAL 1.447

Fonte: Dados coletados a partir da pesquisa documental na DPE.

Conforme destaca o quadro, a maior demanda do Setor Social é o acompanhamento processual cível, que é realizada por uma equipe composta por três profissionais e seis estagiárias. Observa-se um não cumprimento das exigências previstas nas legislações e resoluções da categoria profissional que tem por embasamento o Projeto Ético-Político da profissão tendo em vista a falta de criticidade e totalidade nos atendimentos devido a demanda crescente. Visualiza-se ademais, desvio de funções na realização de diligências que vão além de envio de ofícios, se estendo a entrega nos correios de correspondências e agendar audiências para os Defensores, além de tirar xerox ou digitalizar mensalmente suas planilhas de audiências.

As defesas realizadas exigem dos profissionais do Serviço Social um entendimento acerca do jurídico, seus termos, a fim de narrar os fatos para fazer a defesa do assistido. Perde- se nos atendimentos a escuta e o acolhimento, haja a vista a alta demanda e as solicitações superficiais dos Defensores acerca da vida daquele sujeito, como também a ausência de qualificação profissional que não estiga a criticidade em cada atendimento.

As orientações são a porta de entrada. Com a lógica de quantificar os atendimentos e até mesmo cronometrar cada orientação, perde-se o viés social do setor, atendendo apenas a demanda jurídica, deixando de fazer as devidas intervenções e encaminhamentos para a rede socioassistencial, se resumindo enquanto técnicos administrativos do direito.

Destarte, o que se vislumbra no espaço de trabalho do setor social é a sobrecarga de trabalho, tanto por falta de recursos humanos como também pelo desvio de função, em que os profissionais de Serviço Social são requisitados a realizar tarefas que não competem a sua atribuição, a saber: serviços administrativos, atuando enquanto “secretários” dos Defensores Públicos, realizando agendamentos de audiências, emitindo suas pautas, além de digitalizar documentos diversos.

O posicionamento dos profissionais do Setor Social frente as demandas puramente administrativas é inerte, tendo em vista a não produção de nenhum instrumental que venha interferir no cenário atual de precarização. Ademais, há falta de reconhecimento enquanto classe trabalhadora, algo que engessa e fragmenta ainda mais as relações de trabalho dentro da instituição. Não há o uso das dimensões teórico-metodológica, ético-política e técnico- operativa de maneira indissociável em detrimento a dinâmica do espaço laboral e a falta de criticidade por parte dos profissionais.

Somando-se a ausência de uma atuação profissional balizada com o Projeto Ético- Político, observa-se também, o vínculo empregatício fragilizado em decorrência da lógica do capital, que fragmenta as relações sociais e o trabalho, afetando diretamente a atuação profissional e os resultados de possíveis tentativas de intervenção. Tais questões se apresentam como atenuantes da falta de efetividade do trabalho do Assistente Social na DPE/RN.

Assim, a intencionalidade dos assistentes sociais passa a ser mediada pela própria lógica da institucionalização, pela dinâmica da instauração da profissão nos espaços, se submetendo a papéis que são alocados por organismos ou instâncias próprios da ordem burguesa no estágio monopolista, que tem imbuído em si a lógica do mercado. “ Assim, o assistente social adquire a condição de trabalhador assalariado com todos os condicionamentos que disso decorre” (GUERRA, 2010, p.10).

Desse modo, o que podemos visualizar a partir da quantificação das demandas apresentadas, como também, da própria divisão das demandas, é a sobrecarga de trabalho direcionada ao assistente social. A ele é delegado pelos Defensores Públicos a tarefa de atender as demandas de maneira superficial e rápida, compreender o juridiquês do Direito na elaboração das declarações que servirão como respaldo para a construção das impugnações. Vemos no fazer profissional dos assistentes socias do Anexo II, o desvio de função e a não valorização do próprio Serviço Social. Perde-se de vista o viés crítico do profissional quando este atende apenas as solicitações engessadas dos Defensores sem a tentativa de investigar a fundo as demandas jurídicas que chegam revestidas pelas expressões da questão social. Isso se dá em detrimento ao vínculo fragilizado do profissional e as correlações de forças presentes na instituição, algo que será evidenciado a fundo no próximo capítulo apresentando a crise do capitalismo e os seus reflexos na atuação profissional, que resulta na modificação do mundo do trabalho.

Iremos esmiuçar os serviços desenvolvidos na Defensoria Pública do Estado do RN, Anexo II, enfatizando o espaço laboral precarizado e perpassado pela impositividade do Direito, reafirmando mais uma vez que o Direito é um complexo burguês.

4. CRISE CONTEMPORÂNEA DO CAPITALISMO E O SEU REFLEXO NA