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Deficiência Visual na infância e desenvolvimento

No documento MARCIA CAIRES BESTILLEIRO LOPES (páginas 44-48)

1 INTRODUÇÃO

1.3 Deficiência Visual

1.3.2 Deficiência Visual na infância e desenvolvimento

Ao nascer, a criança possui órgãos formados, sob o ponto de vista anatômico. Porém, as conexões funcionais necessárias à execução das mais variadas atividades não estão ainda desenvolvidas. Portanto, não ter a funcionalidade visual adequada durante o desenvolvimento implica em comprometer atividades básicas como: segurança, integridade, recreação, autoimagem, orientação, liberdade, percepção e aprendizagem. Além disso, a criança que inicia o seu aprendizado motor e cognitivo sem entrada visual, requer caminhos diferentes de investigação e acompanhamento. A falta de consciência destes caminhos sensoriais resulta em crianças com alteração da coordenação e desenvolvimento motor, além de

problemas nas respostas cognitivas, quando comparadas a uma criança que enxerga (BARRAGA, 1986; GAGLIARDO, 1997; RODRIGUES, 2002).

Durante a infância, a experiência visual informa sobre o ambiente e também direciona a estruturação funcional visual do cérebro buscando a maturação das funções (COSTA et al., 2006; SALOMÃO, 2007). O aumento do desempenho visual é concomitante ao desenvolvimento e crescimento anatômico do globo e ao desenvolvimento do sistema visual central. O crescimento dos dendritos dos neurônios corticais e a mielinização das vias ópticas, que se iniciam na 25ª semana de gestação e prolongam-se até os dois anos de idade, justificam o desenvolvimento visual gradual ao longo desse período. O desenvolvimento das capacidades visuais ao longo dos primeiros meses de vida é uma ação coordenada que envolve aspectos sensoriais e motores (HUBEL; WIESEL, 1965; DAW, 1995; FARIA E SOUSA, 1997). Para que haja o desenvolvimento normal da visão, são necessárias boas condições anatômicas e fisiológicas. É sabido que vários fatores estão envolvidos nesse desenvolvimento, dentre eles alguns estão relacionados à formação da estrutura ocular e das vias ópticas, outros à estimulação endógena e exógena do olho (GRAZIANO; LEONE, 2005; DANTAS; BRANDT; LEAL, 2005; GRAVEN; BROWNE, 2008). Alguns autores afirmam que o período primário para desenvolvimento do sistema visual é de 20 semanas de idade gestacional até dois a três anos de idade (GAGLIARDO; GONÇALVES; LIMA, 2004).

O sistema visual humano é vulnerável a modificações desencadeadas por agentes externos durante o período de desenvolvimento pré-natal e pós-natal que pode ser considerado como período crítico, no qual experiências visuais são importantes para o desenvolvimento integral da visão. A visão requer de cinco a seis anos para o seu desenvolvimento e apresenta uma vulnerabilidade até os nove anos de vida (CATALANO; NELSON, 1994). Assim, fica nítida a necessidade de definirmos período crítico e período sensível, nesta fase.

O período sensível engloba o período ótimo em que a aprendizagem de habilidades ou desenvolvimento de aptidões e competências se faz de modo mais facilitado. Já o período crítico é o intervalo de tempo em que um certo processo é afetado irreversivelmente e está relacionado com a aquisição de aspetos relacionados com a

biologia, ou seja, mudanças ao nível do crescimento, maturação e desenvolvimento. A plasticidade é o processo pelo qual o desenvolvimento natural está aberto à mudança e intervenção (LOPES; MAIA, 2000; FARRON et al., 2002).

Em condições normais, os órgãos da visão contribuem com uma grande porcentagem (alguns autores até mencionam valores como 85%) dos estímulos encaminhados ao cérebro para a realização da aprendizagem e desenvolvimento da locomoção e mobilidade (RODRIGUES, 2002; FARRON et al., 2002). Também são responsáveis pelo desenvolvimento de diferentes habilidades, especialmente conceitos de espaço e funções motoras. A partir dos três meses de idade o bebê já tenta alcançar um objeto apresentado a sua frente, em decúbito dorsal, após fixar e seguir visualmente (GAGLIARDO; GONÇALVES; LIMA, 2004). Após o terceiro mês, a coordenação necessária para o alcance em diversas posições estará desenvolvida. Entre o nono e o 12º meses, o bebê usa a atividade digital para manipular e explorar objetos de diferentes formas, movendo as mãos para trazê-los para o melhor campo de visão (BLY, 1994).

O desenvolvimento motor usa de informações visuais para desenvolver suas habilidades normais, e é comum encontrar atraso no desenvolvimento em crianças com comprometimento visual, principalmente na aquisição de controle de cintura escapular e extensão de pescoço (HYVÄRINEN, 1995; GRAZIANO; LEONE, 2005). A visão é foco motivacional do desenvolvimento do controle de cabeça, e consequentemente adquirem habilidades motoras provindas dos sistemas táteis, sinestésico e vestibular (BELLINE; FERNANDES, 2007). Além disso, o atraso causa alteração na noção espacial, de ambiente e movimento, sendo que esses conceitos de espaço são fundamentais para se conquistar a orientação e consequente mobilidade (GLASS, 2002) Portanto, essa alteração de percepção do ambiente piora o desempenho, e consequente compromete o desenvolvimento global (COLE, 2007) (Figura 10).

O contato visual é o modo mais poderoso de estabelecer um elo de comunicação entre os seres humanos. Durante seu primeiro ano de vida, crianças aprendem rapidamente que os comportamentos dos outros transmitem informações significativas. No entanto a criança com deficiência visual perde essa ferramenta de aprendizado (FARRON et al., 2002).

Outras vias sensoriais, além da visual, também se desorganizam na ausência ou alteração da informação visual, por exemplo, o equilíbrio se organiza recebendo informações das vias auditivas (labirinto), proprioceptivas (ROSSI et al., 2011).

Crianças com deficiência visual apresentam dificuldades emocionais e sociais, que afetam sua família e a própria sociedade (TARTARELLA et al., 1995; WOLFFSOHN; COCHRANE, 2000; SANTANA; KOLLER; WAISWOL, 2005; BOULTON et al., 2006). O comprometimento da visão pode causar dificuldades nas habilidades da vida diária como trocar de roupa, se alimentar ou procurar um objeto (STELMACK, 2001). A deficiência visual, portanto, influencia a saúde geral, o desenvolvimento e o bem- estar da criança (CHAK; RAHI, 2007). A ocorrência da deficiência ao nascimento ou nos primeiros anos de vida coloca a criança em um grupo de risco para atraso no desenvolvimento, principalmente no caso de não ter acesso a orientações e tratamentos necessários. Nesta fase, o desenvolvimento pode sofrer alterações em aspectos intelectuais, neuropsicomotores e sociais, com sequelas irreversíveis com impacto na qualidade de vida da criança e sua família (PRECHTL et al., 2001; GLASS, 2002; CRUZ et al., 2005).

(a) (b)

Figura 10 - Representação da deficiência de informação do ambiente com a perda da sensibilidade da visão de cor (a) e acuidade visual (b) [Fonte: adaptada de http://www.color-blindness.com/category/tools/ e http://www.sight-sim.co.uk/. Acesso em: 11 mar. 2014]

1.4 Qualidade de Vida

No documento MARCIA CAIRES BESTILLEIRO LOPES (páginas 44-48)

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