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1. A PROBLEMÁTICA: CONTEXTUALIZAÇÃO DO ESTUDO

1.3 A PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DO AUTISMO

1.3.1 Definição Concetual do Espectro do Autismo

O termo “Autismo” deriva da palavra grega Autos que significa Próprio / Eu e Ismo que representa uma orientação ou um estado. O substantivo “Autismo” sugere “Latu sensu” uma condição ou estado de uma pessoa que exibe uma disposição para o alheamento da realidade exterior e simultaneamente para uma centralização em si próprio. É neste sentido que o termo “Autismo”, em sentido lato, pode ser definido como uma condição ou estado de uma pessoa que aparenta estar focado em si próprio (Marques, 2000).

Este termo surge em 1943 quando Leo Kanner, pedopsiquiatra austríaco, constatou num conjunto de crianças um conjunto de comportamentos aparentemente característicos até então não descritos. Traduziam-se em défices importantes nas relações sociais do dia-a-dia, o seu comportamento caracterizava-se por interesses e atividades restritas, repetitivos e estranhos e a sua linguagem manifestava-se de forma sui generis, umas crianças não falavam outras apresentavam ecolalia, em todas elas a linguagem não aparentava a intenção de comunicação. No seu artigo “Autistic disturbances of affective contact”, Kanner reconhece esta nova entidade clinica, como uma síndrome que combinava autismo, obsessões, estereotipias e problemas de linguagem (Kanner, 1943).

Um ano mais tarde, depois de Kanner ter publicado o seu artigo, em 1945, Hans Asperger, um médico pediatra também ele austríaco, publica um artigo em alemão, “Die Autistischen Psychopathen in Kindesalter” (Psicopatia Autística da Infância), onde descreve o mesmo tipo de perturbações num grupo semelhante de crianças e apelida de forma idêntica “Autismo” à síndrome (Frith, 1991).

Embora desconhecessem o trabalho um do outro é interessante verificar que ambos vão confluir na escolha do nome central que utilizaram para eleger a perturbação: “Autismo”. Esta enorme coincidência espelha a convicção de que o problema social destas crianças é o aspeto mais relevante desta perturbação. Kanner e Asperger foram considerados desde então como pioneiros

O EXERCÍCIO DA PARENTALIDADE DE CRIANÇAS COM PERTURBAÇÃO DO ESPECTRO DO AUTISMO: UM NOVO OLHAR SOBRE O CONCEITO

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no reconhecimento do Autismo como perturbação distinta das outras perturbações do desenvolvimento até então descritas (Oliveira, 2006).

Apesar de todas estas confluências havia duas grandes áreas ondes os dois autores tinham perspetivas diferentes. A primeira referia-se às capacidades linguísticas. Asperger salientou que as crianças que estudou falavam fluentemente pelo fato de terem desenvolvido durante a infância uma linguagem gramatical, ainda que essa linguagem não fosse utilizada para efeitos de comunicação interpessoal. Por seu lado as crianças estudadas por Kanner não falavam e as que se expressavam verbalmente não a utilizavam como fonte de comunicação (Marques, 2000).

A segunda área de divergência retrata-se às capacidades de aprendizagem. Kanner considerava que a aprendizagem se fazia mais facilmente através de rotinas e mecanizações, enquanto Asperger defendia que a aprendizagem era facilitada se produzissem espontaneamente e insinuava que eles seriam “pensadores do abstrato” (Marques, 2000).

Nos anos seguintes, na década de 50 e 60, embora Kanner já tivesse reconhecido anos antes o Autismo como inato, este continuava a ser confundido com a esquizofrenia. Este período foi dominado pelas teorias psicanalistas onde vigorava a ideia de que a teoria causal dominante era de origem comportamental e pós natal. Bruno Bettelheim desenvolveu a teoria das “mães frigorífico” onde atribuía aos pais a responsabilidade de uma inadequada relação afetiva como responsável de um comportamento autista. Esta teoria fez com que durante anos a comunidade médica atribuísse erradamente culpa às mães pela relação não afetiva com os seus filhos, levando a que fossem censuradas e responsabilizadas por esta situação (Marques, 2000).

Mais tarde na década de 70, vários investigadores realçaram a necessidade de se diferenciar as perturbações mentais que ocorriam durante a 1ª infância, (onde surgia o autismo), das psicoses que se manifestavam mais tardiamente durante a infância e adolescência, em que o modelo retratava a esquizofrenia. Michael Rutter e Edward Ritvo da Sociedade Americana para crianças com autismo redefiniram em 1978 os critérios para o autismo, de forma que este fosse compreendido como uma perturbação do desenvolvimento e diagnosticado através da tríade clínica: perturbação da interação social, perturbação da linguagem/comunicação e restrição do repertório de interesses e atividades que perduram até aos dias de hoje. Surge então pela primeira vez a designação de “Pervasive Developmental Disorders (PDD), traduzido para português como Perturbações Globais do Desenvolvimento (PGD). Esta nova nomenclatura englobava um conjunto

de disfunções clinicas, com início precoce, que afetavam áreas básicas do comportamento e do desenvolvimento.

A Associação Psiquiátrica Americana (APA) teve a necessidade de elaborar um Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) em 1953, onde constava uma lista de diagnósticos categorizados, com um glossário onde retratava a descrição clínica de cada categoria diagnosticada. Este manual foi o responsável pelo início de uma serie de revisões sobre questões relacionadas com as doenças mentais onde o Autismo foi definitivamente diferenciado da esquizofrenia infantil e de outras psicoses pela sua ausência de sintomatologia psicótica.

O aumento de pesquisas e revisões da literatura permitiram à APA introduzir importantes modificações metodológicas e estruturais no seu manual, desde o DSM – I, até ao atual DSM – 5. O desenvolvimento do manual representa uma ampliação significativa dos dados, com a inclusão de novos diagnósticos descritos com critérios mais claros e precisos. Os critérios para a deficiência intelectual realçam que para além da avaliação cognitiva é essencial avaliar a capacidade funcional adaptativa. Neste sentido, os transtornos globais do desenvolvimento que incluíam o Autismo, o Transtorno Desintegrativo da Infância e as Síndromes de Asperger e Rett foram integradas num único diagnóstico, “Transtornos do Espectro Autista”. A mudança traduz a visão científica onde os transtornos se traduzem numa mesma condição, com gradações em dois grupos de sintomas: deficit na comunicação e interação social; padrão de comportamentos e interesses e atividades restritas e repetitivas. Apesar das diferenças existentes entre os vários transtornos, a APA considerou não haver vantagens diagnósticas ou terapêuticas na sua divisão, pois o DSM -5 é um instrumento desenvolvido para ser utilizado por profissionais com experiência clínica e sólido conhecimento sobre psicopatologia e não deve ser utilizado como uma simples lista de sintomas (APA, 2013).