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DEFINIÇÃO DE CLUSTERS: CONTEXTO AMBIENTAL DE

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 151-157)

5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS: PARTE 2

5.1. DEFINIÇÃO DE CLUSTERS: CONTEXTO AMBIENTAL DE

5.1.1. Indústria de Vestuário

A noção de contexto ambiental de referência apresentada por Machado-da-Silva e Fonseca (1996) permite concluir que o ambiente é diferenciado cognitivamente, isto é, pressupõe diferentes ações segundo a lógica de significados valorizados e compartilhados internamente. Para a indústria do vestuário paranaense, destacadamente as pequenas plantas, foram identificados dois grupos de organizações com contextos de referência distintos. A determinação das características predominantes dos grupos deu-se mediante a análise das freqüências das categorias respondidas, tendo em vista a obtenção das variáveis mais representativas - com maior freqüência de respostas , uma vez que esses são dados categóricos e não medidas.

Definiram-se no cluster 1 aquelas empresas que se orientam segundo os valores do nível nacional, visto que 79,86% das respostas apresentam características que estão de acordo com os atributos descritos anteriormente, que se referem a este contexto ambiental. O cluster 2, por sua vez, compreende um entretipos, uma vez que as organizações que nele se encontram apresentam alguns traços associados aos valores do

nível nacional e outros similares aos do nível regional. Ambos os grupos serão brevemente descritos na seqüência.

Gráfico I - Grupos de Contexto de Referência: Indústria do Vestuário

Grupo I - C25 à C1 (linha superior) e C22 à C13 (linha inferior) Grupo II - C27 à C3 (linha superior) e C17 à C16 (linha inferior)

Grupo Nacional

Apresenta um direcionamento de acordo com os valores que correspondem ao nível nacional de análise ambiental. As organizações que se encontram nesse grupo buscam consolidar ou ampliar a sua participação no mercado nacional, associando fortemente a noção de concorrência às empresas instaladas internamente. Assim, preocupam-se com o aumento de sua competitividade e procuram organizar-se segundo tendências nacionais de consumo, investindo em design e realizando melhorias nos produtos, de modo que tais ações permitam o atendimento das demandas desse mercado.

Dessa maneira, valorizam a velocidade de resposta às exigências do consumidor, a criação de modelos competitivos e o conforto. A competição, por sua vez, baseia-se em preços baixos, promoção e qualidade dos produtos e serviços. De modo geral, é característica dessas empresas associar seu desempenho à situação macroeconômica do país, de modo que atribuem ao governo o papel de promotor do crescimento e da estabilidade econômica.

Tree Diagram for 31 Cases

Grupo Nacional/Regional

Descreve um conjunto de empresas caracteristicamente entretipos.

Apresenta aspectos similares aos do grupo nacional quando os focos são as ações governamentais e as preocupações macroeconômicas. Por outro lado, esse grupo de empresas apresenta forte associação com aspectos do nível regional quanto à ênfase no ambiente competitivo, ou seja, as organizações que estão insertas nesse grupo buscam consolidar ou ampliar sua participação no mercado que abrange o Paraná e estados limítrofes, mantendo-se atentas às empresas que concorrem nesse ambiente. A despeito da tendência nacional de valorização da qualidade dos produtos e serviços, percebe-se que nas organizações em análise tal preocupação não se manifesta fortemente, uma vez que a maioria das empresas respondentes não possui certificado de qualidade da Abravest - entidade que monitora e regula as ações das indústrias do vestuário. Entretanto, tal característica pode ser decorrente do fato de estarmos analisando o comportamento de pequenas empresas, que possuem traços específicos. Finalmente, diante desse duplo enfoque, define-se um grupo com ambição de expansão para o mercado nacional, tendo em vista os investimentos realizados em design e as melhorias de produto, bem como a preocupação com tendências nacionais de consumo.

5.1.2. Indústria de Alimentos

Para a indústria alimentícia paranaense, destacadamente as pequenas plantas, foram identificados três grupos de organizações com contextos de referência distintos. A determinação das características predominantes dos grupos deu-se mediante a análise das tabelas de freqüências de cada um deles, tendo em vista a obtenção das variáveis mais representativas (que aparecem mais vezes).

Definiram-se no cluster 1 aquelas empresas que se orientam segundo os valores do nível nacional, uma vez que 65,5% apresentam características que condizem com os valores descritos anteriormente. No cluster 2 encontram-se as organizações que demonstram um padrão de respostas consistente com uma orientação segundo os valores regionais, representando 52,8% das alternativas assinaladas. O cluster 3, por sua vez, compreende um entretipos, uma vez que as organizações que nele se encontram

apresentam alguns traços associados aos valores do nível nacional e outros similares aos do nível regional. Todos os grupos serão brevemente descritos na seqüência.

Gráfico II - Grupos de Contexto de Referência: Indústria de Alimentos

Grupo I - C1 à C19 Grupo II - C3 à C38 Grupo III - C4 à C40

Grupo Nacional

Apresenta um direcionamento de acordo com os valores pertencentes ao nível nacional de análise ambiental. É formado por empresas que buscam consolidar ou ampliar sua participação no mercado nacional, preocupando-se com padrões e tendências nacionais de consumo e com a concorrência interna. Nesse sentido, demonstram preocupações com a melhoria de sua competitividade, voltando-se para a aquisição de tecnologia e para o alcance de padrões diferenciais de qualidade, uma vez que esses representam vantagens competitivas entre os principais concorrentes no mercado nacional, embora sejam estruturados em resposta às exigências legais. De modo geral, as empresas que guiam suas ações segundo esse nível ambiental associam seu desempenho com a situação macroeconômica do país, atribuindo ao governo papéis como a redução dos entraves à concorrência na indústria nacional, mediante o acesso ao crédito e a redução da tributação, para que o crescimento e a estabilidade econômica sejam atingidos.

Tree Diagram for 41 Cases Ward`s method Euclidean distances

C_40 C_37 C_15 C_10 C_22 C_14 C_9 C_23 C_6 C_36 C_34 C_30 C_28 C_24 C_21 C_18 C_17 C_8 C_4 C_38 C_29 C_41 C_16 C_39 C_26 C_32 C_12 C_33 C_31 C_25 C_3 C_19 C_13 C_20 C_7 C_27 C_5 C_2 C_35 C_11 C_1

0 5 10 15 20 25 30 35

Linkage Distance

Grupo Regional/Local

As organizações pertencentes a esse grupo atribuem forte ênfase aos valores associados ao nível regional/local de análise ambiental. Seu escopo de concorrência e de definição de mercado limita-se ao Paraná e estados limítrofes, de maneira que desejam consolidar ou ampliar sua participação nesse sentido. Nota-se, contudo, uma diversificação e ampliação dos mercados, definida pelo dinamismo da agroindústria e de segmentos menos tradicionais. No que se refere ao seu desempenho, as empresas que guiam suas ações de acordo com esse nível ambiental tendem a esperar do governo um estímulo à competitividade da indústria regional - mediante subsídios à produção e propostas de apoio à modernização e capacitação da indústria paranaense -, promovendo o crescimento e o desenvolvimento econômico da região.

Grupo Nacional/Regional

Descreve um conjunto de empresas caracteristicamente entretipos.

Apresenta aspectos similares ao grupo nacional principalmente no que diz respeito às tendências de consumo, às questões macroeconômicas e ao papel do governo. No entanto, nota-se forte preocupação com relação aos aspectos regionais de desenvolvimento da indústria e com o aumento da competitividade, mediante inovações tecnológicas - investimento em pesquisa e desenvolvimento e melhoria de produtos. Além disso, as organizações que se encaixam nesse perfil se preocupam com o comportamento de empresas que concorrem pelos mercados regional e nacional, uma vez que pretendem consolidar ou expandir sua participação nesses mercados.

5.1.3. Comentários Finais

O resultado da análise estatística dos dados coletados fornece evidências para a corroboração das teorias discutidas na presente dissertação. Procura-se, neste momento, explorar esses achados no sentido de estabelecer uma relação mais precisa com a base teórico-empírica previamente apresentada, sintetizando os principais aspectos encontrados. Pode-se afirmar que os dirigentes das pequenas empresas em estudo, de ambos os setores, percebem e interpretam o seu ambiente competitivo de diferentes

maneiras. A análise da literatura sugere que as organizações, em face de uma mesma condição ambiental, diferenciam sua esfera de atuação por meio de um processo de mediação das influências contextuais, de modo que selecionam os elementos ambientais mais adequados ao que é valorizado internamente (Machado-da-Silva e Fernandes, 1997).

Mediante um processo simultâneo de construção social e de interação entre os membros organizacionais, há uma representação ambiental, de modo que a percepção do ambiente competitivo e das pressões por ele exercidas difere entre as indústrias de um mesmo setor e entre setores. A própria organização delimita seu campo de atuação, tornando o ambiente, de certa forma, uma elaboração cognitiva regida pela concepção de mundo dos dirigentes. Este fato corrobora a idéia de que toda organização existe em um contexto que influencia as suas estruturas e operações, enquanto também é influenciado por essas (Scott, 1992).

Assim, diante da necessidade de estabelecer estratégias competitivas, os dirigentes organizacionais orientam-se pelo contexto ambiental no nível que se encontra mais adequado à sua lógica interior, ou seja, os seus esquemas interpretativos (Machado-da-Silva e Fernandes, 1999). Se por um lado existe a tendência de valores institucionalizados na sociedade permearem as fronteiras das organizações, influenciando suas estruturas e estratégias e tornando-as adequadas ao sistema de conhecimento legitimado socialmente (Meyer e Rowan, 1983; Scott, 1995b), por outro, a visão compartilhada de mundo própria de cada organização influencia no sentido de diferenciá-las de acordo com os aspectos por ediferenciá-las valorizados (Ranson, Hinnings e Greenwood, 1980;

Machado-da-Silva, Fonseca e Fernandes, 1999a).

A análise das indústrias em questão permitiu identificar esses aspectos. Os dirigentes do nível estratégico das pequenas empresas objeto de estudo mantêm-se atentos às condições ambientais predominantemente dos níveis nacional e regional/local. Isto significa que, mesmo estando insertas em um contexto ambiental semelhante, no que se refere ao ambiente técnico e institucional, essas indústrias voltam suas ações e preocupações - com relação à mercado, produto/serviços e recursos -, para diferentes níveis de análise ambiental, haja vista a especificidade dos esquemas interpretativos dos dirigentes, principalmente no que concerne às condições macroeconômicas e à situação da indústria brasileira, assim como aos mecanismos de regulamentação das atividades.

Percebe-se a presença de dois grandes grupos no caso da indústria de vestuário e de três grandes grupos na indústria alimentícia que orientam suas ações

diferentemente, de acordo com sua lógica própria. As empresas, diante de um contexto ambiental que parece atuar sobre todas elas, exercem um processo de filtragem de informações que define os aspectos mais representativos para a orientação de suas ações.

Dessa forma, a diferença encontrada entre os diferentes grupos decorre, mais uma vez, do raciocínio que vem sendo desenvolvido: "regras e significados compartilhados no interior da organização podem servir como buffers (ou amortecedores) que dificultam a assimilação de práticas emergentes em um contexto mais amplo, caso tais práticas não se coadunem com os valores e crenças vigentes" (Machado-da-Silva, Fonseca e Fernandes, 1999b, p. 9). Portanto, o que diferencia as organizações é a forma como analisam o ambiente e respondem às exigências percebidas, de acordo com a visão de mundo dos dirigentes (Daft e Weick, 1984) - ou seja, do que estes consideram importante e significativo no ambiente. Diante disso, pode-se prever que as empresas com diferentes contextos ambientais de referência apresentem variações no que tange às estratégias adotadas, na medida em que os valores institucionalizados socialmente são mediados pelos seus esquemas interpretativos.

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 151-157)