Parte II – Investigação Realizada
2. Identificação da Problemática
2.1 Enquadramento Teórico
2.1.1 Definição do brincar – Algumas perspetivas teóricas de autores
Sabe-se, que brincar faz parte do quotidiano de todas as crianças. Nenhuma criança vive sem brincar. “A criança brinca, em primeiro lugar, com as suas mãos, braços, pés, boca, mas depois brinca com todo o seu corpo, brinca a arrastar-se no chão, a andar, a correr...” (Vayer, 1900, p. 26).
Em cada contexto educativo, como a Creche e o Jardim-de-infância é fundamental estar presente o brincar, uma vez que corresponde a uma necessidade da criança durante a infância. Ao analisar, o documento mais importante na Educação Pré-Escolar, sendo as Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar, o brincar é uma “atividade espontânea da criança, que corresponde a um interesse intrínseco e se carateriza pelo prazer, liberdade de ação, imaginação e exploração.” (Silva, Marques, Mata & Rosa, 2016, p.105).
De acordo com o Dicionário de Língua Portuguesa Priberam (2019) brincar significa “divertir-se: entreter-se com alguma coisa infantil; gracejar; agitar maquinalmente” (dicionário de Língua Portuguesa Priberam, 2019).
Segundo Rosa (1998), “o brincar é importante não como uma estratégia de ensino ou facilitador de aprendizagens, mas sim como uma atividade humana importante para o desenvolvimento pessoal.”
Já Onofre (1997), defende o brincar como “um fenómeno permanente e complexo”, que significa que “por um lado, é a vivência mais natural e espontânea da criança, por outro, é começar a dar sentido às coisas no processo evolutivo de ser capaz de usar um objeto ou uma situação” (in Pinto e Sarmento, 1999:93).
Por sua, vez, Smith (2006) carateriza o,
[…] brincar como o oposto ao trabalho, ou seja, como uma atividade realizada por si mesma e sem limitações. Acrescenta também que o brincar é uma atividade interativa em que, assim como noutras atividades, podem ocorrer conflitos. Estes conflitos podem ser entendidos como um processo de crescimento e de construção permanente da socialização.
39 Destes autores salienta-se a importância que todos devemos dar ao simples ato de “brincar” como forma de crescimento, de desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança sem o qual se poderá criar num vazio de formação de um ser socialmente pensante e interveniente.
Segundo Ferland (2006),
[…] brincar é imaginar e criar, é o lugar das fantasias, na medida em que a criança utiliza as suas habilidades criativas e decide o que é para ela a realidade; transforma-a e adapta aos seus desejos. Brincar também é uma forma de a criança expressar os seus sentimentos. A brincadeira, é para a criança a sua linguagem primária, aquela que lhe facilita soltar o seu mundo interior, as suas emoções e sentimentos. O brincar também é sentir prazer, é esta sensação pode estar associada a certas características que são próprias das brincadeiras, como a novidade e o desafio.
Assim, o autor ainda refere que,
[…] o brincar não é sinónimo de facilidade, uma vez que, a criança sente prazer na brincadeira, vai investir energia e esforço na mesma. Por outro lado, se a criança não sente prazer em realizar uma determinada atividade, significa que esta não é brincar, mas sim um mero exercício, uma tarefa ou mesmo até uma obrigação.
Ainda segundo Solé (1980),
[…] o brincar é uma forma especial de atividade, que permite à criança descobrir o mundo, as pessoas e as coisas que estão à sua volta, bem como descobrir-se a si própria, ou seja, facilita a integração no mundo das relações sociais. O brincar, para além de ser uma forma especial de atividade, com características próprias, pode considerar-se como “uma atitude à qual está ligado um certo grau de escolha, uma ausência de coação por parte das formas convencionais de usar objetos, materiais ou ideias” (p.13)
Para Piaget, “o brincar é uma forma de a criança explorar o mundo, ou seja, ao fazer de conta, ela vai conhecer outras facetas do mundo.”
O grau de importância que se atribui ao ato de brincar está intrinsecamente ligado ao processo de crescimento mental e humano, no jogo de simulação e faz de conta que transporta o imaginário infantil para o mundo, idealizado, mas mais feliz. É salutar brincar com os pares, os adultos, a começar pelos pais e familiares. A criação de laços afetivos inicia-se logo no ventre materno num estado de letargia afetiva que veicula valores, sentimentos e expressões de caráter e personalidade que se prolongam desde o nacimento até à idade adulta.
De acordo com Ferreira (2010) o brincar está relacionado essencialmente com o brincar imaginativo, que Vygotsky denomina de faz-de-conta, e que Piaget se refere como jogo simbólico (p. 12). Assim sendo, “o brincar imaginativo é baseado em
40 experiências vividas ou presenciadas, em que são utilizados objetos reais e imaginários.” (p. 12).
Segundo Kishimoto (2010, p.4), o brincar é uma ação livre, que surge a qualquer hora, iniciada e conduzida pela criança, dá prazer, não exige, como condição, um produto final, relaxa, envolve, ensina regras, linguagens, desenvolve habilidades e introduz no mundo imaginário.”
De acordo com Pais (1992), o brincar “é uma linguagem universal facilitadora de vivências em comum, (…) que constitui um meio de comunicação capaz de minimizar a diferença dos estatutos e de ultrapassar a divergência de códigos.” (Pires N. 1992, p.373). No entanto, criança de diferentes culturas consegue manter relação através do brincar. Segundo o mesmo autor brincar “implica o prazer de estar livre para descobrir novos significados, encontrar novas soluções e criar novos afetos.” (p.373)
Concluindo, segundo o pensamento dos autores anteriormente mencionados, podemos afirmar que o brincar é uma ação onde a criança revela mais de si, ao expressar os seus sentimentos, ao tomar as suas próprias decisões, ao explorar o mundo que as rodeia, ao desenvolver as motricidades, ao aprender a pôr em prática formas de resolução de problemas e ultrapassar dificuldades. No entanto, é cada vez mais valorizado o brincar, pois revela-se fundamental para o desenvolvimento de uma criança. Como referem as OCEPE (2016),
[…] brincar é a atividade natural da iniciativa da criança que melhor revela a sua forma holística de aprender. Importa, porém, diferenciar uma visão redutora de brincar, como forma de a criança estar ocupada ou entretida, de uma perspetiva de brincar como atividade rica e estimulante que promove o desenvolvimento e a aprendizagem e se carateriza pelo elevado envolvimento da criança.