2 QUADRO TEÓRICO
2.2 SATISFAÇÃO COM A VIDA E SEU INSTRUMENTO DE MEDIDA: LIFE
2.2.1 DEFINIÇÃO DO CONSTRUCTO SATISFAÇÃO COM A VIDA
Antes de realizar a definição do constructo Satisfação com a Vida faremos uma breve explanação de sua localização dentro de outros constructos de âmbito maior. Essa estratégia é pertinente, pois, diferentes termos têm sido utilizados para o entendimento de satisfação com a vida, resultando em uma confusão conceitual na literatura sobre esse constructo.
Ao abordar o termo satisfação com a vida consideramos importante situa-la dentro do constructo “bem estar” já que esta constitui um dos aspectos importantes desse constructo. A literatura aponta duas correntes teóricas que são bases para o constructo “bem-estar”, são elas, bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico. (DIENER et al., 1999; RYAN, DECI, 2001; RYAN, DECI, 2008). De acordo com os autores, essas duas correntes teóricas de bem-estar construíram- se a partir de perspectivas filosóficas: o hedonismo e eudaimonismo, “duas tradições fundadas em perspectivas distintas da natureza humana e daquilo que constitui uma boa sociedade” ( RYAN, DECI, 2001, p.143).
O hedonismo relaciona-se ao bem estar-subjetivo, representa o equilíbrio entre as experiências de prazer e desprazer, preconiza que o bem-estar corresponde à felicidade subjetiva. O bem-estar subjetivo é constituído de três componentes: (1) afeto positivo, (2) afeto negativo e (3) satisfação com a vida, e a soma destes componentes correspondem à felicidade (DIENER et al., 1999; DIENER, 2000). De acordo com Diener et al. (1999) o bem estar subjetivo apresenta componentes afetivo (emoção) e cognitivo (julgamento), onde, o componente afetivo representa a frequência com que um indivíduo relata experiências de afeto positivo ou negativo, já a satisfação com a vida, representa o componente cognitivo do constructo bem-estar subjetivo.
Por outro lado, a perspectiva eudaimônica relaciona-se ao bem-estar psicológico consistindo numa busca pela perfeição relacionada à realização do potencial humano. Baseia-se na prática da virtude como gratidão, desenvolvimento do potencial do indivíduo e ações para melhor desenvolver suas capacidades (RYAN, DECI, 2008; HUTA, RYAN, 2009). Esse modelo multidimensional de Bem-estar psicológico foi proposto por Ryff e Keyes (1995) e apresenta 6 componentes de funcionamento psicológico positivo, são eles: (1) Auto-aceitação, (2)
Crescimento pessoal, (3) Sentido/propósito na vida, (4) Relações positivas com os outros, (5) Domínio do ambiente e (6) Autonomia.
Como já mencionamos, as divergências encontradas na literatura sobre o constructo “bem-estar” na década de 80, conduziram os estudos posteriores a uma crise conceitual e subdivisão do constructo em duas perspectivas: (1) Bem-estar subjetivo – campo de estudo que integra as dimensões de afeto (positivo e negativo) e satisfação com a vida e (2) Bem-estar psicológico – campo de estudo que integra as dimensões do funcionamento psicológico de auto- aceitação, autonomia, controle sobre o meio, propósito de vida, relações positivas e desenvolvimento pessoal (NOVO, 2003). A figura adaptada 02 de Berg (2008) sintetiza os aspectos fundamentais dessa subdivisão do constructo “bem-estar”.
Figura 02 - Satisfação com a vida numa heurística do quadro teórico de Bem-estar.
Fonte: (BERG, 2008). Modificado pela autora.
Bem-estar
Hedonismo
Bem-estar Subjetivo (Diener)
Afeto
Afeto Positivo Negativo Afeto
Satisfação com a vida Eudaimonismo Bem-estarPpsicológico (Ryff et al.) Autonomia Crescimento pessoal Auto-aceitação propósito/sentido na vida Relacionamentos postivos Controle/domínio do ambiente
Entretanto, Diener et al., (2011) relatam que não está claro na literatura, que o elemento cognitivo satisfação com a vida é mais de natureza hedônica que eudaimônica. Segundo os autores, embora haja a distinção, vários estudos (KEYES, ANÁS, 2009; HUTA, RYAN, 2009; WATERMAN, 2007, 2008) apontam que há controvérsias quanto ao lugar ocupado do “bem-estar subjetivo” como uma categoria geral da perspectiva hedônica. Assim, Diener et al.(2011) em seu estudo avaliaram a interação de componentes do bem-estar subjetivo (média diária dos sentimentos positivos e negativos) e bem-estar psicológico (sentido/propósito de vida) como preditores de satisfação com a vida. Para essa análise, o autor considerou as três formas de satisfação com a vida (satisfação com a vida, satisfação diária, e autoestima/satisfação consigo mesmo).
De acordo com os resultados do estudo, os vários tipos de satisfação com a vida foram associados a diferentes preditores, por exemplo, sentido/proposito na vida não só mostrou associação com a satisfação com a vida como também atuou como fator protetivo para o baixo equilíbrio de afetos positivos e negativos. Quanto a satisfação de vida diária, houve grande associação com a perspectiva hedonista, já para a satisfação com a vida de forma geral, houve associações tanto para perspectiva hedonista quanto eudaimonista. Diener et al. (2011) relatam que o resultado do estudo sugere que algumas pessoas levam em conta, por exemplo, o sentido/propósito na vida ao julgar sua satisfação com a vida, porém, os resultados não indicam se a maioria das pessoas fazem isso. Entretanto, os dados sugerem que a satisfação com a vida não é inevitavelmente ponderada apenas para a perspectiva hedônica, dessa forma, apesar de ser precoce algum tipo de suposição, os autores relatam que refletir sobre esse propósito é importante.
Assim, nesse entrecho, a Satisfação com a vida tem sido definida como uma avaliação global que é realizada pelo sujeito através de seu julgamento cognitivo. Apesar de ser influenciada pelo afeto (positivo ou negativo) não é em si uma medida direta de emoção, apontando uma distinção entre os componentes do bem-estar subjetivo (afeto e satisfação com a vida). Espera-se, nessa avaliação, que as pessoas realizem um julgamento geral de sua vida, ponderando as metas desejadas e as alcançadas, sem permitir que seu estado emocional decorrentes de situações atuais interfiram em sua avaliação ou julgamento de satisfação (DIENER, 1984; PAVOT, DIENER, 1993; SUH, DIENER, FUGITA, 1996).
Em uma mesma linha de definição apresentada por Neugarten, Havighurst, Tobin (1961), relatam que a satisfação com a vida refere-se a avaliação cognitiva que um indivíduo realiza sobre sua vida e a extensão em que necessidades psicológicas e sociais tem sido satisfeitas, envolvendo uma avaliação em domínios individuais da vida em comparação com que ele espera da vida em geral. Enkvist, Ekström, Elmstahl (2012) complementam esta definição mencionando que uma pessoa supostamente possui satisfação com a vida se ela encontra prazer nas atividades de vida diária, se percebe que sua vida tem sido vivida com significado, sente que alcançou grande parte dos objetivos que esperava em sua vida, se possui expectativas para o futuro, apresenta auto-imagem positiva e ainda, se mantém uma atitude otimista diante da vida.
O sujeito pode julgar satisfação com a vida de forma global ou satisfação com domínios específicos da vida. A satisfação com domínios específicos da vida refere-se à satisfação com áreas específicas da vida do sujeito como trabalho, casamento, relações sociais, status financeiro, saúde física e emocional. A satisfação com a vida global, por outro lado é muito mais ampla, consiste no julgamento individual do sujeito sobre a percepção de sua vida com um todo. (DIENER, 1994; SOUSA, LYUBOMIRSKY, 2001).
A perspectiva multidimensional no estudo da satisfação com a vida tem sido preponderante nos últimos anos (McDOWELL, NEWELL, 1996). Sob esta perspectiva, há 5 componentes que devem ser investigados que foram baseados no quadro teórico de envelhecimento bem sucedido proposto por Neugarten, Havighurst, Tobin (1961) e revisado por Barret e Murk (2006).
1 Zest vs. Apathy (Entusiasmo versus apatia) avalia o entusiasmo de respostas e o grau de envolvimento em atividade da vida em geral. Não se relaciona a nenhum tipo específico de atividade, tais como compromissos sociais ou intelectuais. A energia física, bem como a energia intelectual e outras atividades contribuiram para uma alta pontuação nesse fator (NEUGARTEN, HAVIGHURST, TOBIN, 1961; BARRET & MURK, 2006).
2 Resolution and Fortitude (Resolução e Coragem) avalia a aceitação do indivíduo sobre a responsabilidade pessoal pela sua vida ao invés de passivamente aceitar ou tolerar o que aconteceu com eles. Avalia a capacidade do indivíduo de aceitar sua vida como inevitável e significativa, sem medo da morte. É semelhante à
conceituação de integridade de Erikson e se relaciona com o sentido da vida e a falta de medo da morte (NEUGARTEN, HAVIGHURST, TOBIN, 1961; BARRET & MURK, 2006).
3 Congruence between desired and achieved goals (Congruência entre objetivos desejados e alcançados) Avalia a extensão na qual o indivíduo sente que alcançou seus objetivos na vida, sejam eles quais forem. Envolve os sentimentos que possuem em ter realizado seus objetivos que consideram importantes, de forma bem sucedida. Mede a diferença relativa entre metas desejadas e alcançadas (NEUGARTEN, HAVIGHURST, TOBIN, 1961; BARRET & MURK, 2006).
4 Self-Concept (autoconceito) Avalia o autoconceito do indivíduo em todas as dimensões, físicas, psíquicas e sociais. Aquelas pessoas que não se sentem velhas, mas estão preocupadas com sua aparência, julgam-se sábias e competentes tendem a apresentar altos escores nesse fator. Pessoas que tiveram sucesso na vida no passado contribuem para esse fator, porém, de forma indireta. (NEUGARTEN, HAVIGHURST, TOBIN, 1961; BARRET & MURK, 2006).
5 Mood Tone (estado de humor) Esse fator indica alta avaliação para indivíduos que expressam atitudes de alegria, otimismo e humor, que usa de forma espontânea um estado afetivo para as pessoas e coisas, que tem e expressa prazer pelas coisas da vida. Depressão, tristeza, solidão, irritabilidade e pessimismo são os sentimentos que resultariam em baixas pontuações nesse escore (NEUGARTEN, HAVIGHURST, TOBIN, 1961; BARRET & MURK, 2006).
2.2.2 EVIDÊNCIAS SOBRE O CONSTRUCTO SATISFAÇÃO COM