Definição de objecto do estudo e metodologia
Segundo Ivani Fusellier-Souza verifica-se actualmente um consenso entre todos os investigadores que se dedicam à investigação do campo da surdez: os indivíduos
surdos não se confrontam todos da mesma forma com a questão da linguagem. (Souza,
2005)
Se pensarmos nos contributos teóricos de autores como Bernstein37 ou Bourdieu,38 sabemos que os ouvintes também não se confrontam todos da mesma forma com a questão da linguagem, no entanto, estão livres de se preocupar à partida com o lugar dado à sua língua materna.
Como já foi referido no primeiro capítulo deste trabalho, Inês Sim-Sim faz a distinção entre 3 conceitos que são fundamentais na compreensão da questão da surdez: língua natural, língua materna e língua padrão (língua de escolarização). Segundo esta autora:
“Onde há homens, há linguagem, isto é, desenvolvem-se línguas naturais [sistemas linguísticos usados por uma comunidade e que constituem uma realização particular da capacidade humana para a linguagem39]. Em contacto com qualquer língua natural, a criança “descobre” espontânea e intuitivamente os princípios e as regras que caracterizam a língua a que foi exposta, tornando-se essa a língua materna da criança.
Para a maioria das crianças portuguesas, o Português é simultaneamente, a língua materna e a língua de escolarização [língua em que se aprende a ler e a escrever, que serve como instrumento para veicular aprendizagens escolares e para estudar40]. Não é contudo o caso das crianças que, embora vivendo em Portugal, se encontram privadas do acesso directo à informação áudio-linguística, devido a surdez congénita ou precoce. Para esta população, a língua de aquisição espontânea e natural terá de ter como canal privilegiado de acesso a via visual, logo uma língua gestual [sistema linguístico, língua natural na comunidade de surdos
37 Bernstein interessou-se pelas formas implícitas de controlo social (general problems of control)
nomeadamente pela mecanismos de controlo verificados ao nível das classes (classe related modalities of
control) o estudo destes mecanismos encaminhou-o para a construção da teoria dos códigos constituída
com base na observação das inter-relações dos seguintes processos:
1. “How class regulates de structure of communication within the family and so the initial sociolinguistic coding orientation of the children.
2. How class regulates the institutionalizing of elaborated codes in education, the forms of their transmission and therefore the forms of their realization. “(Bernstein, 1973: 22)
Esta teoria dos códigos constitui o primeiro estádio de desenvolvimento da teoria do discurso pedagógico e das modalidades de poder simbólico a elas associadas (Bernstein, 2000)
38 Bourdieu, distingue diversos universos simbólicos: mito, língua, arte, ciência e defende que as
diferentes produções simbólicas funcionam como instrumentos de dominação (cf. Bourdieu, 1989: 10- 11). Na obra, O que falar quer dizer, debruça-se sobre a língua e propõe uma análise da produção e circulação linguística como relação entre os habitus linguísticos e os mercados nos quais estes oferecem os seus produtos. O autor critica o modelo saussuriano dado que, segundo ele, se limita ao estudo de apenas um dos factores em jogo quando se trata da língua. (Bourdieu, 1998)
39 O texto que se encontra entre parêntesis recto é uma definição avançada pela autora nas notas de das
rodapé do artigo consultado.
40
constituído pela combinação de gestos simbólicos, materializados em movimentos realizados com as mãos, a face e o corpo e percebidos visualmente41].
(Sim-Sim, 2005: 18).
Esta privação ou hipótese de privação da pessoa surda ao acesso à língua de escolarização poderá ser considerada natural como consequência da sua incapacidade física de ouvir uma língua cujo canal é o oral. Porém, nas ciências sociais, sempre que empregamos o termo natural devemos pôr automaticamente em acção a maior desconfiança na necessidade de aplicação do termo e verificar então, que
naturalização42 é que estamos a invocar...
Para todos os efeitos, no caso dos surdos, o direito à utilização plena da sua língua materna encontra-se posto em causa principalmente devido ao facto de a esmagadora maioria dos surdos ser descendente de pais ouvintes (Pinhal, Ricou, Antunes, Nunes: 1998) e por essa razão vê o seu processo de aquisição da linguagem43 comprometido.
Isto deve-se à diversidade de surdezes e à diversidade de formas de viver a surdez.
Relativamente à diversidade de surdezes, só para dar uma ideia das diferentes matizes que podemos encontrar no campo da surdez vamos, muito rápida e sinteticamente, proceder a algumas distinções.
Quando falamos de surdez podemos estar a falar de uma surdez à nascença ou de uma surdez adquirida. Relativamente a esta última, podemos distinguir entre a surdez adquirida antes, durante ou após o desenvolvimento da linguagem, procedendo- se normalmente à distinção entre surdez pré-linguística e surdez pós-linguística44. Podemos ainda distinguir entre os diferentes graus surdez: surdez ligeira; média, severa e profunda45.
41
ibidem
42 Sublinhamos naturalização, pois, remetemos para as associações que Bourdieu fazia entre este termo e
a manutenção das relações de dominação através das diversas formas de manifestação de poder simbólico – o “poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a acção sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou económica), graças ao efeito específico de mobilização, só se reconhece se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. (Bourdieu, 1989: 14)
43
Inês Sim-Sim definiu aquisição da linguagem como “processo de apropriação espontânea e natural de um sistema linguístico, via exposição, sem que para tal seja necessário um sistema formal de ensino (Sim- Sim, 1999: 13)
44 Ver capítulo Surdez realidade Biossocial. 45
No que se refere à questão da intervenção na surdez, é necessário fazer uma distinção entre surdos filhos de pais surdos e os surdos filhos de pais ouvintes pois, perante esta situação de proveniência, a primeira questão que se coloca (conscientemente ou não) é a questão da escolha da língua a adoptar. Existindo “à disposição” (ou não...) um variado leque de escolhas: a língua oral dominante, a língua gestual, o bilinguismo, havendo também a hipótese de recorrer a sistemas artificiais de fala. (Souza, 2005)
Como investigadores, podemos ser levados a pensar que toda esta diversidade de formas de experimentar a surdez levanta primordialmente questões familiares, clínicas e educativas. Contudo, consideramos que a experiência da surdez levanta antes de mais uma questão política, na medida em que a forma como definimos o outro, como nos relacionamos com a diferença... enfim, o simples facto de definirmos o outro como
outro, é uma forma de estar e participar na polis.
Posto isto, assumimos desde já aqui o compromisso de, como investigadores ouvintes, encararmos o Surdo e relacionarmo-nos com a sua surdez tendo por base o pressuposto de Mottez: “On n‟ est jamais sourd tout le temps, on n‟est jamais sourd tout
seul. Il faut être au moins deux pour qu‟on puísse commencer à parler de surdité. La
surdité est un rapport. C‟est un jeau qui se joue à plusieurs. L‟surdité est un rapport.” (Mottez, 2006: 111).
Decorrendo deste princípio fundamental de conduta, considerar-se-á então aqui a surdez como uma deficiência compartilhada no sentido em que diante de um indivíduo surdo, nós ouvintes perdemos de alguma maneira, nossa faculdade de compreender e de sermos compreendidos. (Fusellier-Souza e Coelho, 2010)
O objectivo deste projecto de investigação é estudar a constelação de relações de poder que oprimem/libertam as pessoas surdas não portadoras da Língua Gestual oficial, a língua comunitária dos Surdos46,.
Estas pessoas serão aqui referidas através da expressão surdos isolados ou
pessoas surdas isoladas.
O termo “isolados” deverá ser considerado “entre aspas”. Pois esse termo faz referência a pessoas surdas isoladas das comunidades de Surdos, mas que desempenham
46 É usual fazer-se a distinção entre Surdos e surdos, sendo que os primeiros são pertencentes à minoria
um papel activo na sociedade em que vivem e que, eventualmente, poderão ter desenvolvido línguas gestuais emergentes ou primárias. (Souza, 2005).
Este projecto de investigação consiste num estudo de caso de um casal de surdos
isolados.
O quadro de referência metodológico é o da investigação qualitativa.
Através da realização de entrevistas baseadas no método biográfico, proposto por Ferrarotti, procura-se recolher dados que estimulem a análise da teia de relações de poder opressoras e emancipadoras de pessoas ditas surdas isoladas nos diversos espaços estruturadores da sua agência.
A realização destas entrevistas para além das questões teóricas associadas ao método biográfico e à definição dos espaços estruturadores da agência aqui evocados levanta uma série de outras questões práticas.