NHANES III Third National Health and Nutrition Examination Survey
1.INTRODUÇÃO 29 1.1 Definições e epidemiologia da multimorbidade
1.1 Definições e epidemiologia da multimorbidade
A definição de comorbidades, termo introduzido há quase meio século por Feinstein,23 implica a presença de uma doença-índice, ou
seja, qualquer doença em estudo à qual se adicionem uma ou mais doenças.24-26 Grumbach9 também defendeu que o termo comorbidade
deva ser reservado para a coexistência de duas ou mais doenças, quando uma é predominante. Entretanto, ainda não está claro se a doença considerada índice influencia no aparecimento das outras morbidades, ou se esta associação decorre apenas do processo de envelhecimento.27
Portanto, definir comorbidades em um mesmo indivíduo é difícil porque implica o conhecimento da história natural da doença e a cronologia do aparecimento das diversas morbidades, o que muitas vezes é impossível de ser determinado em decorrência dos períodos assintomáticos das doenças, subdiagnóstico e fragmentação dos cuidados de saúde.24
Multimorbidade é o termo que vem sendo mais frequentemente utilizado,25o qual define a coexistência de múltiplas doenças crônicas e
condições médicas (duas ou mais)em uma mesma pessoa sem, contudo, fazer referência à condição índice.24-26Fortin e cols.18também
consideram como multimorbidade a coexistência de duas ou mais doenças crônicas em mesmo indivíduo, acrescentando “onde uma não é mais importante que a outra”. Ainda, de acordo com Hidalgo e cols.28“uma relação de morbidades existe (comorbidade ou
multimorbidade) quando a associação de duas doenças em um mesmo indivíduo é substancialmente maior do que a chance.”
A epidemiologia da multimorbidade ainda precisa ser melhor explorada, pois apenas recentemente este aspecto da coexistência de morbidades tem sido objeto de pesquisa. Até então, a maioria das publicações era focada na coexistência de uma doença determinada (tais como DPOC29, diabetes30 ou osteoartrite31),e de sua associação com
outras morbidades (comorbidades), frequentemente realizado sem a confirmação de que a doença em estudo era a doença-índice.24Devido à
heterogeneidade e complexidade das doenças crônicas, focar apenas em uma morbidade, sem confirmar se esta é a doença-índice e, considerar as demais como comorbidades pode ser inadequado.23Outrossim, a maioria
dos estudos sobre multimorbidade tem sido predominantemente limitada à atenção primária32 ou banco de dados pré-existentes,17 ou então,
relatam exclusivamente a avaliação de idosos. 33
Recentemente, Marengoni e cols.34em revisão sistemática da
literatura dos últimos 20anos, identificaram 41 estudos sobre multimorbidade (dois publicados entre 1990 e 2000, e os demais após2000). Entre os estudos selecionados, apenas 12 investigaram a prevalência de multimorbidade, sendo que esta variou entre 55 e 95% em indivíduos com idade superior a 60 anos, dependendo dos limites de idade incluídos. O método de identificação das morbidades diferiu entre os estudos: autorrelato (quatro estudos), registros médicos (cinco estudos), autorrelato e registro médico (um estudo) e, diferentes fontes e exame clínico (dois estudos).
Nos Estados Unidos, já no final dos anos 90, uma análise com cerca de 1,2 milhões de beneficiários do plano de saúde Medicare, publicada por Wolf e cols.17em 2002,mostrou uma prevalência de 65%
Em outro estudo, Barnett e cols.10avaliaramos registros de mais de um
milhão e meio de pessoas do sistema de saúde da Escócia; a prevalência de multimorbidade foi de 23,2%. Todavia, 40% dos indivíduos estudados tinham idade inferior a 60 anos. Em outra publicação, Agborsangaya e cols.35relataramuma prevalência de multimorbidadede
19%. Neste estudo,70,2% dos indivíduos estudados tinham menos de 65 anos de idade.
No Brasil, os dados sobre multimorbidade são escassos. Parte desta escassez deve-se à rápida transição demográfica que vem ocorrendo no país e ao mesmo fenômeno mundial que, até recentemente, compartimentalizava as doenças e suas respectivas comorbidades. Ao considerar o Brasil, portanto, torna-se necessário analisar a transição demográfica pela qual o país vem passando com o aumento da sobrevida da população.
A projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),36publicada em 2013 sobre a população brasileira, confirma este
novo padrão de redução na taxa de crescimento e significativa ampliação da parcela de idosos. O número de brasileiros com idade superior a 60 anos passará de 13,8%, em 2020, para 33,7% em 2060. Este grupo será constituído por 25 milhões de indivíduos em 2030 e será maior que o de crianças com idade até 14 anos. Em 2055, a participação de idosos na população brasileira total será maior do que o de crianças e jovens com até 29 anos de idade. Além disso, a esperança de vida ao nascer no Brasil, em 2013, foi de 74,2 anos com uma taxa de mortalidade bruta de 6,34. Nesse sentido, pode-se inferir que esta mudança no perfil epidemiológico da população brasileira resultará em uma prevalência elevada de portadores de múltiplas doenças crônicas.
Ainda que os estudos sobre a prevalência de multimorbidade no Brasil sejam raros, existem informações relevantes sobre o impacto e os desafios da DCNTs no Brasil. Em revisão recente, Schmidt e cols.37
relataram que cerca de 72% de todas as mortes ocorridas no Brasil em 2007 foram atribuídas às DCNTs. Adicionalmente, estes autores37
declinado em 20%,devido à redução da mortalidade por doença cardiovascular e à implementação de políticas para redução do tabagismo, paralelamente, observou-se um aumento na prevalência de HAS e de obesidade.
Em 2012, Carvalho e cols.38descreveram a prevalência de
DCNTs e de tuberculose autorrelatadas, na cidade de São Paulo, em adultos com idade superior a 40 anos. Neste estudo, as doenças crônicas mais prevalentes foram obesidade (62,5%), hipertensão (39,2%) e gastrite (30,9%). O estudo também mostrou que a prevalência do número de morbidades aumentou com a idade, mas a prevalência de multimorbidade na amostra estudada não foi descrita.
Mais recentemente, Machado e cols.39investigaram a
prevalência de multimorbidade entrevistando 622 mulheres com idade maior que 50 anos, na cidade de Campinas (São Paulo). Apenas 15,0% das entrevistadas não referiram doenças, 26,0% mencionaram uma morbidade e 58,0%duas ou mais morbidades. As principais doenças referidas foram hipertensão (56,0%), osteoartrite (34,0%), catarata (25,0%), diabetes (23,0%), osteoporose (21,0%), glaucoma (10,0%), bronquite (9,0%), incontinência urinária (9,0%), câncer (7,0%), infarto do miocárdio (5,0%), acidente vascular encefálico (3,0%) e enfisema pulmonar (2,0%). Notou-se, ainda que, cada ano a mais de vida, aumentou em 3% a chance de apresentar duas ou mais doenças, similar ao observado para o aumento de cada unidade do índice de massa corporal (IMC).