• Nenhum resultado encontrado

2.3 FORMAS DE RESISTÊNCIA À SOBERANIA DOS DADOS

2.3.2 Anonimato: uma bandeira, um ideal e uma utopia

2.3.2.5 Um universo de anonimato

2.3.2.5.2 Definindo a Deep Web

Conhecida também como Deepnet, Web Invisível, Undernet ou Web Oculta, a pouco divulgada Deep Web pode, simploriamente, ser definida como um conjunto de páginas e serviços inacessíveis ao grande público, uma espécie de ambiente de navegação que não sofre, até os dias de hoje, nenhum tipo de regulamentação ou controle.

Mais profundamente, trata-se, de fato, de um grande desafio para a polícia mundial, os governos e, inclusive, para os cidadãos comuns, visto que esse lado da internet é composto por sistemas que trabalham com redes anônimas, fornecedoras de conteúdos escondidos. Em tese, uma rede não se comunica com a outra, nem possuem qualquer tipo de ligação com a internet aberta ou Surface Web, como é chamado o lado mais acessível da internet. Dentre essas redes, que foram criadas com o claro objetivo de tornar seus usuários irrastreáveis mascarando o número de IP, isto é, a identificação de cada computador através de tecnologias de computação distribuída e encriptação, a mais simples de acessar é a TOR. Há ainda a Freenet, a i2p e as redes Gnu ou Frost que, juntas, formam o conjunto de redes agregador da maior parte do conteúdo disponível.

Para manter as páginas ocultas, os criadores valem-se, ainda, de outros subterfúgios: os endereços dos sites são compostos por letras e números desconexos, difíceis de memorizar e que podem mudar de tempos em tempos, fazendo com que seus links não sejam facilmente passados de uma pessoa para outra, além de evitar, com isso, o

rastreamento. Ter acesso a um site oculto, então, depende quase sempre do compartilhamento do endereço entre usuários.

A Deep Web começa quando uma pessoa repassa para outra um conteúdo que não pode ser encontrado nos grandes sites de pesquisa. Ninguém terá acesso, nem que procure. Será preciso, antes, buscar outros conteúdos possivelmente relacionados, e conhecer pessoas que conhecem outras pessoas (ROHR apud LOPES)86.

O conteúdo disponível tanto na Deep Web, como na Surface Web, atinge uma ampla gama de interesse. São pesquisas, livros, monografias, documentos sigilosos, raros ou, por alguma razão, proibidos. As páginas do Anonymous87 e do Wikeleaks88 surgiram lá. Movimentos como a Primavera Árabe e os escândalos recentes envolvendo o programa de monitoramento do governo dos Estados Unidos apenas fortalecem o diagnóstico de que a Deep Web tem sido o principal meio de organização desses eventos. A verdade é que longe do patrulhamento, a internet que muito poucos conhecem, vai ganhando importância, inclusive, como território de discussão e articulação política.

Todavia, um dos pontos desfavoráveis desse universo é o fato de que em grande parte da Deep Web encontram-se conteúdos ilegais. Diversos grupos beneficiam-se do anonimato para compartilhar conteúdo criminoso, carregando o espaço com páginas de pedofilia contendo imagens e vídeos explícitos, páginas de necrofilia, anúncios de assassinos de aluguel e suas tabelas de preços que variam de acordo com a importância social da vítima, zoonecrofilia, fóruns de canibalismo, além de uma espécie de mercado livre b onde se pode encontrar desde drogas até armas e órgãos.

A razão do anonimato parece, então, óbvia na Deep Web: publicar conteúdo polêmico ou ilegal, usando o anonimato como forma de proteção da identidade dos usuários.

A teoria Ator-Rede foi, mais uma vez, especialmente decisiva para compreensão desse universo. Ao retraçar as ações que múltiplos e heterogêneos atores efetuam, tornou- se possível descrever as associações e redes que se formam na composição de um coletivo

86 Entrevista concedida pelo jornalista e editor do site sobre segurança virtual Linha Defensiva, Altieres Rohr, à repórter do webjornal O Estado RJ, Amanda Lopes. Disponível em: http://www.oestadorj.com.br/mundo/por-tras-das-cortinas-do-computador/. Acesso em: 20 nov.2013.

87 Anonymous, palavra de origem inglesa, que em português significa anônimos, designa uma legião que se originou em 2003 para representar o conceito de muitos usuários de comunidades online existindo simultaneamente como um cérebro global.

88 Wikileaks é uma organização transnacional sem fins lucrativos, que publica, em seu site, postagens de fontes anônimas, documentos, fotos e informações confidenciais, vazadas de governos ou empresas, sobre assuntos sensíveis.

tão específico quanto o encontrado na Deep Web. Entender o estatuto do rastro a partir da noção de ação e seu papel na redefinição do social, proposto por Latour (2012), foi primordial para tentar explicar como se tece esse social. Seguindo o seu pensamento, ficou claro que o “social” é aquilo que emerge das ações, associações e redes.

Outro ponto importante foi perceber que não há critérios que definam antecipadamente o que é um ator, dada a heterogeneidade dos modos de existência que compõem o social. A Teoria Ator-Rede reivindica um social de composição híbrida, entendido como coletivo sociotécnico de entidades humanas e não-humanas (LATOUR, 2012). Homens, máquinas, cabos, algoritmos e bits alcançam o estatuto de actantes pelo modo como agem.

Agir, por sua vez, implica produzir uma diferença, um desvio, um deslocamento qualquer no curso dos acontecimentos e das associações. Há transformação, desvio de objetivos, entidades, dispositivos, sentidos, tempos e lugares. Os mediadores e tradutores dessa cadeia de ações criam elos, até então, inexistentes, pois agem transformando e participando da composição do coletivo, da rede.

As redes são o que emerge do trabalho de mediação e tradução de atores heterogêneos. Em sua composição, há uma série de disputas, negociações e controvérsias que redefinem continuamente os atores, suas ações e associações, bem como, a própria rede. Assim, as redes não existem como um objeto que estaria ali antes da ação, ou que subsiste após cessarem as ações. Topologicamente, a rede define-se por suas conexões, seus pontos de convergência e bifurcação, por seu movimento de formação (BRUNO, 2012).

Uma rede, portanto, é o que faz proliferar os mediadores (LATOUR, 2007) e, assim como o social, jamais está plenamente acabada. O social constitui-se precisamente nesses movimentos intermitentes, só se tornando visível quando novas associações são fabricadas.

Entender a natureza coletiva e distribuída da ação também foi decisivo para compreender melhor o caráter da rede. A ação nunca é individual ou local, e sim coletiva e distribuída (LATOUR, 2012). Isso significa que os atores nunca agem sós, mas passam à ação porque foram acionados por outros.

Estabelecendo uma ligação com os sistemas anônimos, percebemos que os atores são mobilizados para a construção de uma rede. O sujeito e suas ações são sobredeterminados também por forças como o inconsciente, a estrutura, o subjetivo e o simbólico. A ação é distribuída e “subdeterminada”, de modo que devemos manter sempre uma margem de incerteza em relação à sua origem e à quantidade de atores envolvidos (LATOUR, 2012).

Finamente, na busca pela compreensão dos coletivos sociotécnicos, as grandes partições foram dispensadas. Especialmente para os casos que envolvem as redes digitais de comunicação, é nítido que categorias como micro e macro social, interações locais e estruturas globais, individual e coletivo, subjetivo e social não reverberam.