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A historiografia sobre os eventos ocorridos em final de março e início de abril de 1964, bem como seus desdobramentos, é bastante controversa e complexa. Desde os anos 1960, uma série de estudos tentam nomear o que ocorreu naquele período. As nomenclaturas, longe de serem meramente acessórias nas narrativas construídas sobre tais fatos, indicam seu contexto de produção e os sentidos atribuídos ao passado.

Alfred Stepan, cientista político estadunidense, interpretava os eventos inaugurados após o golpe de Estado de 1964 como uma ditadura militar (1975). Os militares desempenhavam uma função moderadora durante todo o período do Brasil republicano, retirando do poder quem não representava, no seu entendimento, a vontade do povo, e atuavam em função do que consideravam ser o clamor popular. Posteriormente, devolviam o poder aos civis. Para Stepan, o que ocorreu em 1964 foi um rompimento do padrão moderador, no qual os militares não devolveram o poder aos civis e continuaram governando o país por duas décadas. O autor destaca a importância da ESG e a integração entre civis e

militares dentro dessa instituição no desenvolvimento das ideias que culminaram na conspiração de setores dos militares contra João Goulart. A interpretação de Stepan amplifica o aspecto mais visível dos fenômenos que se seguiram ao golpe de Estado de 1964, que foi a força militar sobrepujando a força das urnas. A legalidade do mandato de João Goulart, defendida em 1961, foi ignorada com o golpe de Estado.

A partir dos anos 1980, Moniz Bandeira (1983) e René Dreifuss (1986) construíram seus estudos destacando um elemento pouco estudado ou negligenciado na equação explicativa do golpe, pré-golpe e ditadura subsequente: os civis. Moniz Bandeira alertou a respeito da articulação do empresariado no IBAD e no IPÊS contra João Goulart, e na ingerência dos Estados Unidos na política brasileira. Já René Dreifuss construiu a tese de que o poder econômico multinacional e associado não tinha correspondente poder político, e conquistou o Estado através da atuação do complexo formado pelo IPÊS e pelo IBAD, formada por tecnoempresários vinculados à burocracia pública e atuantes em cargos diretivos ou vinculados a empresas privadas nacionais e multinacionais. Esses indivíduos desestabilizaram o governo de João Goulart, aproximaram-se dos militares, influenciaram parte desses e, parcialmente, apoiaram e ofereceram apoio logístico ao golpe de Estado. Muitos dos membros ou colaboradores do IPÊS ocuparam cargos de alto e médio escalão no Estado pós-1964. Com isso, Dreifuss cunhou a expressão ditadura civil-militar, inaugurando um deslocamento de ênfase que influencia a historiografia até hoje, passados 50 anos do golpe. Os civis que participaram da campanha de desestabilização do governo de João Goulart, da conspiração golpista ou da ditadura instaurada posteriormente passaram, aos poucos, a ser objeto de estudo de artigos, dissertações e teses.

Marcelo Ridenti, na versão revista e ampliada de seu “O Fantasma da Revolução Brasileira” (2010), propôs uma inversão de ênfase, propondo que houve uma ditadura militar- civil. Ou seja, trata-se de retomar a importância da atuação dos militares durante a ditadura, que em parte foi negligenciada após o deslocamento de ênfase iniciado por Dreifuss. A provocação é importante no debate historiográfico, mas é pouco utilizada em trabalhos para caracterizar a ditadura.

René Dreifuss, quando se refere aos civis, fala especificamente dos empresários e tecnoempresários que atuaram no IPÊS ou que colaboraram com a entidade. Aí reside outra questão espinhosa para a historiografia. A participação dos civis no apoio ao golpe ou à própria ditadura. Aqui, falamos desses no sentido amplo, e não no restrito de René Dreifuss. Para Daniel Aarão Reis Filho (2014), por exemplo, a expressão ditadura civil-militar deve ser usada para dar ênfase ao apoio de amplas parcelas da sociedade ao golpe e à ditadura, e não a

abordagem de Dreifuss já referida. Ocorre uma substituição do sentido atribuído à expressão por Dreifuss, mantendo a mesma forma. Ditadura civil-militar passa a caracterizar o fato de que parcelas tanto de civis como de militares apoiaram a ditadura.

Outra interpretação importante é a de Demian Bezerra de Melo (2012). A partir de René Dreifuss, Melo propõe resgatar a relevância da aliança entre empresários e militares durante a ditadura. Para tanto, propõe o termo ditadura empresarial-militar, relembrando o título em inglês da tese de Dreifuss (1980), “State, class and the organic elite: the formation of an entrepreneurial order in Brazil 1961-1965”, ou seja, a formação de uma ordem empresarial no período que abrange a formação do IPÊS até o segundo ano da ditadura.

Todas as interpretações apresentadas são passíveis de críticas consistentes. Todas têm também seu mérito na historiografia. No entanto, é possível, por meio de um balanço e de uma seleção, definir o conceito que será utilizado ao longo desta tese. Consideramos que ditadura militar apreende pouco da complexidade daquele período e naturaliza a face mais visível do complexo fenômeno que foi a ditadura. Defendemos que ditadura civil-militar, no sentido atribuído por René Dreifuss, caracteriza melhor o período em questão, seja por nosso objeto de estudo, que são as trajetórias de civis, em sua maioria, seja pela compreensão de que determinados indivíduos, também civis em sua maioria, detiveram recursos importantes que possibilitaram o seu ingresso ou continuidade em cargos relevantes em diferentes esferas do setor público. Também optamos por civil-militar para fins de estratégia narrativa, pois defendemos que a supressão da dupla adjetivação implica pouca aderência do conceito ao nosso objeto de estudo, sem o complemento. Portanto, visando ao leitor, também é interessante mantermos civil-militar. Por outro lado, não discordamos de Daniel Aarão Reis Filho quando afirma que parcelas importantes da sociedade apoiaram a ditadura civil-militar. Nossa opção pela interpretação de Dreifuss não é, de forma alguma, oposta à de Reis Filho, mas complementar, com uma ênfase específica e focada em nosso objeto de estudo. Consideramos a denominação militar-civil pouco indicada para nosso objeto de pesquisa. De qualquer forma, mesmo que esse fosse a respeito dos militares, a simples supressão da dupla adjetivação e manutenção de militar funcionaria como ênfase, eliminando o caráter de provocação oferecido por Ridenti na historiografia. Já a expressão ditadura empresarial- militar nos parece limitadora da complexidade daquele período, visto que a interpretação de que houve uma ordem empresarial determinante daquele contexto não explica o apoio de parcelas da população à ditadura, por exemplo. Explica o processo histórico apenas em parte, ao mesmo tempo que dá ênfase a esse aspecto do regime, considerado, nesse conceito, essencial. No entanto, acaba limitando e engessando a compreensão daquele período. O

conceito sofre do mesmo problema que os outros já referidos, a tentativa de englobar o período da ditadura em uma adjetivação.

Outra adjetivação é a de golpe midiático-civil-militar (SILVA, 2014), que faz referência ao importante papel que parte da imprensa desempenhou na desestabilização do governo João Goulart. Nesse sentido, cabe a crítica: qual a necessidade de criar um grande conceito composto que tente abranger todos os setores que fizeram oposição formal ou que agiram abertamente em favor do golpe contra João Goulart? Trata-se mais de uma tentativa de inovar conceitualmente com seu enfoque específico do que algo que possibilite uma melhor compreensão daquele processo histórico.

Nessa esteira, é importante destacar que há uma discussão bastante acalorada sobre o que é denominado revisionismo na historiografia sobre o golpe e sobre a ditadura subsequente, da qual trataremos agora.

1.2. O REVISIONISMO NA HISTORIOGRAFIA SOBRE O GOLPE E A DITADURA: OS