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2 IGREJAS INCLUSIVAS CONTEXTO E SURGIMENTO NO BRASIL

2.1 DEFININDO IGREJA INCLUSIVA

Diferentemente dos Estados Unidos, onde existem desde a década de 1960, as igrejas inclusivas são um fenômeno recente no Brasil, surgido a partir do final dos anos 1990, com a articulação de alguns grupos que discutiam religião e homossexualidade a partir da experiência de LGBTs em suas igrejas de origem. Mas é somente a partir do início dos anos 2000 que acontece uma proliferação de diversas denominações religiosas inclusivas no Brasil.

Igreja inclusiva é o termo êmico, usado no campo estudado, para as Igrejas que “acolhem” pessoas LGBTs. O termo, no entanto, é amplo e comporta uma complexidade de usos e interpretações. Tais igrejas, que não são discriminatórias em relação às sexualidades não heterossexuais - Igrejas Gays, ou, Igrejas para o público LGBT, ou ainda, Igrejas que incluam a comunidade homossexual – Inclusivas24 (NATIVIDADE, 2008), são um importante fenômeno a ser observado no país.

Assim, Igreja Inclusiva25, além de um termo êmico bastante controverso, pelo qual se designam as igrejas pode, em geral, ser definido em termos de compatibilizar sexualidades não heterossexuais e religiosidades cristãs; tais igrejas não são discriminatórias a LGBTs.

Marcelo Natividade (2008) chamou ‘significado da homossexualidade’ às posições contrastantes entre igrejas tradicionais, que empregavam um “discurso anti-gay” - com categorias como “pecado”, “abominação”, “aberração”, “demônios”, “traumas”, portanto atribuindo um significado negativo à homossexualidade - e outros grupos religiosos inclusivos e de defesa aos direitos humanos, à

24 Esta variedade de nomenclaturas se deve a que segui estritamente as nominações êmicas que as Igrejas oferecem. Essas nominações por sua vez, expressam diferenças teológicas e doutrinárias que pretendi alcançar na tese, na medida em que pude acessar os discursos acerca dos grupos, não tendo pretensões de esgotar a discussão, apenas de suscitá-la.

homossexualidade, nos quais eram dados os valores da “liberdade”, do “direito” à “não discriminação”, da “visibilidade social” .

No decorrer desse período de proliferação das Igrejas Inclusivas, considero que mesmo estas começam a compor um campo de disputa próprio, em torno daquilo que Natividade chamou de “significado da homossexualidade”. Creio que esse campo poderia ser identificado por duas vias: uma, que posso denominar “teológica”, com vertentes mais ou menos próximas das igrejas cristãs evangélicas “tradicionais” e outra, a da “sexualidade”, com vertentes mais ou menos reguladoras da sexualidade. Isto é, as igrejas inclusivas, embora atribuam significado positivo à homossexualidade, ainda têm, entre si, diferentes posições acerca do exercício da sexualidade. Nesse sentido, as igrejas, além de serem distintas naquilo que diz respeito aos “significados da homossexualidade” também são distintas em sua cosmologia, sua visão de mundo.

O termo “inclusiva” pode ser problematizado ainda no campo das representações por sua ligação com aquilo que está à margem, como os deficientes físicos e mentais (questão mais conhecida no campo do senso comum como “educação inclusiva”), com a população carcerária, o que marca o termo de forma a dar conta de “corpos abjetos” no sentido que Judith Butler (2003) nos propõe. O inclusivo, assim, acabaria por corroborar os discursos que colocam sexualidades e corpos não heterossexuais e não normativos à margem da religião e da sociedade ou alertaria para uma necessária legitimação de muitas existências que a normatividade mantém “abjetas”. Seguindo, ainda, a perspectiva de Butler,

[...] o abjeto para mim não se restringe de modo algum a sexo e heteronormatividade. Relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas ‘vidas’ e cuja materialidade é entendida como ‘não importante’. Para dar uma ideia: a imprensa dos Estados Unidos regularmente apresenta as vidas dos não- ocidentais nesses termos. O empobrecimento é outro candidato frequente, como o é o território daqueles identificados como ‘casos’ psiquiátricos. (PRINS e MEIJER, 2002, p.161, 162)

É interessante perceber que as igrejas que se afirmam “inclusivas”, - embora sejam direcionadas a uma perspectiva de inclusão e aceitação da homossexualidade como perfeitamente compatível com

uma religiosidade cristã expressa por elas -, não são exclusivamente para homossexuais, estando abertas a todas as pessoas, incluindo, assim, heterossexuais.

A Igreja Contemporânea problematizava em seu site26 o termo “inclusiva” justificando que “a terminologia “igreja inclusiva” virou sinônimo de igreja destinada a apenas um segmento e acaba se confundindo com igreja ‘exclusiva’.” E sua proposta é não ser restritiva pois, “a Contemporânea não se restringe à inclusão de determinada classe ou grupo de pessoas, mas a ser uma igreja que prega amor incondicional de Cristo a todos, todos incondicionalmente e sem acepção de pessoas”27. Há uma tensão expressa pela Igreja Contemporânea, no uso da designação “inclusiva”, que expressa o receio em se tornar uma igreja “gueto” para homossexuais. No entanto, a categoria é empregada sem ressalvas, quando se procura mostrar que há um movimento cristão que não exclui (ou voltado para) LGBTs no Brasil. Essa tensão também é expressa, atualmente, por Victor Orellana28 (primeiro pastor ordenado e fundador da Acalanto) de outra perspectiva, acenando com o temor de que as igrejas inclusivas sejam novos “guetos gays” mas apontando para o ativismo, diferentemente da Igreja Contemporânea.

Já a ICM tem incorporado à sua maneira de ser Igreja inclusiva a ideia de “inclusão radical” que pode ser descrita nos termos de “luta pelos direitos humanos”,

Nossa missão de Inclusão Radical não é só a luta pelos direitos da comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) mas pela igualdade de direitos de todas e todos sem distinção, conforme declaramos em nossa Confissão de Fé:”...Creio nos direitos humanos, na solidariedade entre os povos, na força da não-

26

http://www.igrejacontemporanea.com.br/site/index.php?option=com_content&task=view&id =27 acessado em abril de 2010. Artigo intitulado “Mais uma igreja inclusiva?”

27 Durante a revisão desta tese fui alertada que a palavra acepção é definida no dicionário como

“Sentido em que se toma uma palavra; interpretação, significado.” No entanto, acepção, é um termo utilizado amplamente pelas igrejas inclusivas para definir exclusão. Nesse sentido a frase “Deus não faz acepção de pessoas”, significa que Deus não exclui/discrimina/diferencia pessoas.

28 Comunicação pessoal por e-mail em 24/09/2008: ao saber de minha intenção de pesquisar

igrejas inclusivas, Victor responde: “já participei de muitas organizações "inclusivas", mas esse termo é o mesmo que exclusividade, porque todas essas entidades têm uma postura segmentada e setorizada, e não verdadeiramente inclusiva. Nós sempre fomos por uma coexistência e espaço aberto para todas as categorias, um espaço de fato, difícil de concretizar-se”.

violência. Creio que todos os homens e mulheres são igualmente humanos. Creio que só existe um direito igual para todos os seres humanos, e que eu não sou livre enquanto uma pessoa permanecer escrava...” Por esta luta a ICM é conhecida em muitos países como a Igreja dos Direitos Humanos”.29

2.2 CONTEXTO INICIAL DE SURGIMENTO DAS IGREJAS