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CAPÍTULO II: BOEMIA, AQUI ME TENS DE REGRESSO

1. Deixando a Boemia

No sacolejo do trem da Central do Brasil, voltando para casa no bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro, numa tarde de 195262:

- Por que você não grava essas músicas Adelino?

- Eu sei lá! Como é que se grava? E eu sei lá como é isso!... Se eu tivesse Orlando Silva, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves...

- Qual você escolheria?

- Eu escolheria o Nelson Gonçalves por causa do grave dele. Acho que esse grave toca facilmente o coração de uma mulher...

- Eu vou arrumar isso pra você!...

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Diálogos retirados de BARROSO, Marco Aurélio. A Revolta do Boêmio: A Vida de Nelson

Essa foi uma das conversas mais bem sucedidas naquela tarde, entre Sebastião Santana, repórter de A Cena Muda, com o então desconhecido compositor Adelino Moreira. Santana voltava sempre de trem com Adelino para o bairro onde moravam, o Campo Grande e nessas conversas Adelino sempre cantava as suas composições para o repórter, que adorava as letras que ele compunha. Nesta tarde em especial, essa composição havia chamado atenção de Santana, que resolveu dar uma mãozinha para o amigo.

Utilizando de sua influencia como repórter, Sebastião Santana entrou em contato com Lourdinha Bittencourt, então esposa de Nelson Gonçalves, marcando um encontro entre ela e Adelino Moreira, o que ocorreu em outra tarde de 1952, na Praia do Roussel. Impressionada com o samba canção que ele acabara de cantar, ela diz:

- Essa é do Nelson! No sábado, ele vai cantar na Radio Nacional, e nós vamos nos encontrar lá na quinta.

Lourdinha Bittencourt e Sebastião Santana não imaginavam, mas daí nascia uma amizade e um companheirismo pra toda vida entre Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. O samba apresentado e cantado por Nelson na Radio Nacional foi Última

Seresta (1952)63.

No entanto, existe uma canção que até hoje é cantada nas rodas de boemia e

que é constantemente lembrada por cantores e compositores de todos os tempos. Considerada o hino da boemia, glorificada na letra de um samba canção de Adelino Moreira e que fez um sucesso retumbante, além de imortalizada na voz de Nelson Gonçalves, nenhuma outra canção é tão cantada, decantada e celebrada como A Volta

do Boêmio (1957).

Mas não podemos falar na Volta do Boêmio sem falarmos antes de um samba canção, também de Adelino Moreira cantado por Nelson Gonçalves, que o precedeu:

Ultima Seresta (1952).

Nesta composição do mestre Adelino Moreira nota-se logo o tom nostálgico da música: um samba canção que mistura instrumentos de percussão, especialmente o pandeiro, que caracteriza bem as rodas boemias, e com uma orquestra que, além de mostrar a sofisticação pelo qual o samba vinha passando desde o início da década de

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Última Seresta (Adelino Moreira e Sebastião Santana), Nelson Gonçalves, 78 rpm, RCA Victor, 1952, nº 800934, lado B.

1940 com os arranjos do maestro Radamés Gnatalli, marca definitivamente esse gênero romântico que começa a ganhar força na década de 1950.

A letra, em tom de despedida, o que fica mais evidente com a orquestração, fala do boêmio que está deixando a boemia para viver um grande amor, numa demonstração clara de que homem provedor de família não podia ser da boemia:

Nesta última seresta Tenho o coração em festa Quando devia chorar

Sigo triste por deixar a boemia Porém cheio de alegria

Por ela me acompanhar Digo adeus às serenatas, Aos montes, rios, cascatas, E às noites de luar

Adeus, adeus minha gente, Uma canção diferente Vai o boêmio cantar.

Na primeira parte da canção, percebemos alguns elementos que compõem o mundo boêmio posto em evidencia: a seresta, a serenata, as noites de luar, as paisagens idílicas como representação dos sonhos vividos, a mulher amada e as sonoridades das canções.

Mas o que melhor percebemos na canção são justamente os sentimentos contraditórios vividos pelo boêmio: coração em festa, mas ao mesmo tempo choroso; a tristeza por deixar a boemia ao mesmo tempo em que alegre por seguir com a mulher amada. São contradições que marcam o mundo boêmio tão bem escrito por Adelino Moreira e interpretado magistralmente por Nelson Gonçalves.

A interpretação chorosa do cantor favorece para demonstrar a tristeza que o boêmio sente em deixar a boemia. Muito mais parece triste do que alegre, porque iria abandonar e renunciar a tudo que mais gostava em prol da mulher amada, em prol de um relacionamento amoroso sério, possivelmente um concubinato, pois em nenhum momento ele alega que irá casar. E neste momento histórico, a década de 1950, embora

o casamento fosse ainda um porto seguro para a mulher, as relações mostravam-se um pouco mais fluidas, pois entrava em cena “o caso” amoroso.

Maria Izilda (2005) nos fala que nos anos 1940 e 1950 as relações homem- mulher ainda baseavam-se muito no pacto conjugal, casamento de papel passado, pelo qual o homem deveria assumir seu papel de provedor e trabalhador em troca do afeto exclusivo da mulher, que deveria zelar pela sua família, pelo conforto do lar, do marido e dos filhos, que fosse caseira e guardasse certa decência e reserva perante a sociedade e ao marido. Garantindo de que nada faltasse em casa em termos materiais, o homem assim garantia a fidelidade de sua esposa e a felicidade do lar.

Neste mesmo período, nos lembra Mary Del Priori (2006), continuava-se a acreditar que ser esposa, mãe e dona de casa era o destino natural das mulheres, enquanto a iniciativa, a participação no mercado de trabalho, a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade e o papel do homem enquanto provedor da família.

No entanto, outros valores também estavam circulando na sociedade brasileira daqueles anos. A emergência de ser moderno generalizou-se por toda a sociedade e passou à esfera do domínio publico e da vida cotidiana. A produção tanto material quanto cultural passou a ter o destino nos mercados de massa e ficaram ligadas as diversas necessidades do dia a dia. Da mesma forma, a ideia de moderno estava relacionada aos novos estilos de vida, de comportamentos e hábitos difundidos amplamente pelos meios de comunicação de massa, especialmente o rádio.

A década de 1950 trouxe transformações culturais e novos significados para as experiências vividas, sem que outras formas de vivência tenham desaparecido, pois se mantiveram residuais, convivendo com outras experiências emergentes.

É neste sentido que as relações conjugais formais, através do casamento de papel passado, vão conviver com outras formas de relacionamento que já vinham se delineando desde a década anterior: são os relacionamentos “alternativos”, mesmo que clandestinos e ilegais.

Esses relacionamentos “alternativos” se refere “a outra”, nos dizeres de Mirian Goldemberg64, não “a outra” no sentido estigmatizado, vinculado a mulher perigosa, indesejável, desviante, associada ao indevido, ao proibido, ao pecaminoso e aos interesses econômicos, mas uma outra que é representada nas canções como a mulher que ama e sofre, que possivelmente é inconformada com a situação, que é a

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GOLDEMBERG, Mirian. A Outra: Um Estudo Antropológico Sobre a Identidade da Amante do

companheira pra todas as horas e que pode afastar o ente amado das más companhias e da vida boêmia.

Como assinala Maria Izilda (2005), são os chamados “casos” amorosos, que não necessariamente podem ser fortuitos ou efêmeros, que irão conviver com as relações conjugais formais. O “caso” é uma relação nova para o período. Não se trata de uma amante e também não se trata de uma situação de um simples encontro amoroso. É uma relação intermediária que eventualmente pode transformar-se em definitiva, como na relação que citamos no capítulo I entre Jorge Goulart e Nora Ney, a partir do momento que se torna prolongada, mais intensa e tendo uma cumplicidade afetiva e sexual mútua. Esses novos relacionamentos encontram-se sedimentados nos desejos mútuos do casal, tendo por base o respeito, a busca pela privacidade e tendo sua manutenção que ser negociada e renegociada cotidianamente. Como afirma Nolasco65: “Os fluxos e

refluxos emocionais presentes num envolvimento amoroso concomitantemente transformam o íntimo e problematizam e questionam sistemas de valores, colocam opções entre a virtude e o pecado e permitem a assunção do desejo”.

É neste sentido que a paixão se fixa no inicio da trajetória amorosa, sendo identificada com o desejo num contraponto ao amor mais tranquilo e sereno. É por este rompante apaixonado que o boêmio deixará a boemia para viver seu caso amoroso, abdicando de tudo que o cerca, nos dizeres da canção Última Seresta. Não é o casamento formal, mas o caso amoroso que levará o boêmio a afastar-se “das noites de

luar”, inspirando-o a cantar outra canção: a do homem que agora quer viver uma

relação sem conflitos e que quer manter um lar mesmo que informal.

Na segunda parte da canção, ainda mais chorosa, vai o boêmio despedir-se dos amigos, no entanto, não se esquece de levar o símbolo maior de suas noitadas e da boemia: o violão.

Adeus amigos leais, Que não deixaram jamais Fazer-me qualquer traição Vosso amigo vai partir Mas vai feliz , a sorrir, Com ela no coração,

Adeus seresta de amor Adeus, boêmio cantor, Perdoa a ingratidão

Pois, para o meu novo abrigo Eu levo apenas comigo Ela e o meu violão.

Nesta segunda parte da canção o tom de despedida se torna mais eloquente. O boêmio aqui se mostra em sua fragilidade emocional ao despedir-se dos “amigos leais” com o coração triste por deixar as“serestas de amor” e o seu canto, num sentimento de culpa e de possível arrependimento, mas alegre porque leva consigo a mulher amada, não esquecendo daquele instrumento que marca a vida boêmia e que de certa forma ainda vai fazê-lo manter o vínculo com o mundo que deixava para trás.

Esta canção de Adelino Moreira é bastante emblemática porque antecede o maior sucesso composto por esse autor na voz inigualável de Nelson Gonçalves. E esse sucesso foi em grande parte devido a esse novo modo de se tocar e se fazer samba, que é o samba canção.