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CAPÍTULO III – SOBRE A ASSERTIVIDADE

3.1. Delimitação do conceito de assertividade

A assertividade pode ser entendida como a capacidade que uma pessoa tem de, num dado processo de interacção social, defender os seus sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos de maneira directa, firme e honesta respeitando, simultaneamente, os sentimentos do outro sem experimentar demasiada ansiedade (Serrano & Rodríguez, 1993).

Nesse sentido, “Somos assertivos quando exercemos a defesa da nossa esfera individual de uma forma directa e honesta, com cuidado, de não entrar abusivamente na esfera individual dos outros. Este tipo de forma de estar na vida, parece implicar uma elevada maturidade e um respeito a dois níveis: respeito por nós próprios e respeito pelos outros” (Almeida, 1992, p. 138-139).

Ainda que não seja possível obter critérios absolutos sobre a conduta socialmente competente, poder-se-á considerar que a mesma será a que possibilita a um indivíduo, relacionar-se adequadamente com as pessoas do seu meio/grupo. Muitas definições centram-se mais no aspecto da efectividade, adequação ou satisfação estabelecida pela conduta mediante a situação. Mas o uso das consequências como critério também tem apresentado muitas dificuldades na abordagem (Kelly, 1987; Linehan, 1984; González, 2000).

González (2000) descreve a conduta assertiva como um conjunto de respostas verbais ou não verbais, parcialmente independentes e situacionalmente específicas, através das quais um indivíduo expressa num contexto interpessoal as suas necessidades, sentimentos, preferências, opiniões e direitos, sem ansiedade excessiva e de forma não hostil, respeitando-se a si e aos próprios direitos, tendo como consequência a auto afirmação e maximizando a probabilidade de conseguir reforçar a sua afirmação e posição social.

Nesta linha de raciocínio, a assertividade apresenta-se como uma habilidade social assente em características de traços de personalidade e em contextos situacionalmente específicos, pressupondo uma avaliação situacional, de forma a conduzir o comportamento assertivo directamente relacionado com a especificidade da situação.

A conduta assertiva poderá incluir manifestações de emoções como fúria, medo, estima, esperança, desespero ou alegria; em todo caso, exprime-se de um modo que não viola os direitos dos demais. A conduta assertiva distinguir-se-á da conduta agressiva, precisamente, pelo facto de a última se caracterizar pela manifestação de sentimentos, opiniões, atitudes e desejos não tendo em consideração essas mesmas características nas outras pessoas. Para além de ser considerada como uma característica de personalidade – extroversão, é cada vez mais entendida como uma competência social fruto da crescente complexidade das exigências sociais (mesmo ao nível profissional, requer-se cada vez mais das pessoas competências sociais elaboradas).

A assertividade, enquanto habilidade social, característica do traço de personalidade – extroversão, é cada vez mais, objecto de investigação por parte dos estudiosos em competências sociais, fruto do incremento da complexidade das relações sociais, tanto ao nível pessoal como organizacional.

Importa ainda referir que dois conceitos primordiais emergem nesta área – habilidades sociais e competência social – por vezes empregues de forma indiferenciada, mas que têm sido igualmente destacados como dois conceitos distintos. O conceito de competência social, compreende uma avaliação ou julgamento a respeito da adequação do comportamento de uma pessoa e do efeito que produz numa determinada situação, enquanto o conceito de habilidade social, envolve mais o aspecto descritivo dos comportamentos verbais necessários à competência social, tais como falar com um tom de voz claro e audível, olhar o interlocutor durante a conversa, sem desviar o olhar e falar o tempo necessário para expor a sua opinião (Del Prette & Del Prette, 1999).

Com efeito, a assertividade em contexto organizacional, começa a ter expressão a partir do final da década de 80, atendendo à utilização dos sistemas de gestão por competências, que começaram a ser utilizados nas grandes organizações americanas

definindo quais seriam as competências fundamentais para os líderes (Carochinho, 2002).

Uma das formas que parece contribuir para a diminuição do “deficit” ao nível do relacionamento interpessoal, apela para a formação dos colaboradores em assertividade, ajudando os indivíduos a desenvolverem a sua capacidade de agir construtivamente perante as múltiplas situações, de tensão, conflito, tomada de decisão participada, etc., com que se deparam no quotidiano organizacional (Salas, Cannon-Bowers & Blickensdefer, 1993).

A afirmação e posição social não dependem exclusivamente da actuação do indivíduo; por muito correcta e adequada que pareça, em último lugar, são os outros que renunciam ou não das nossas opiniões. A verdade é que se são respeitadas as necessidades, sentimentos, preferências, opiniões ou direitos dos outros, e uma pessoa se auto-afirma expressando-se de forma não agressiva (verbal ou não verbalmente), assiste-se a uma forte probabilidade de obter bons resultados, embora não seja garantida. Em contrapartida, o que evidentemente se consegue perante auto expressão, sem ansiedade excessiva, é a consecução e o estabelecimento de bons resultados (González, 2005).

Os interesses pelas habilidades sociais e a conduta assertiva, em sentido amplo da questão, vêm-se manifestando há décadas, como demonstra a abundância de estudos tanto teóricos como práticos, incluindo divulgação, bem como a investigação sobre o tema. O interesse não é de estranhar, dado que grande parte da nossa vida é passada em interacção com as pessoas e, nas sociedades contemporâneas, com um ritmo rápido e complexo, vemo-nos imersos em muitos sistemas distintos, nos quais as regras variam e os papéis não estão claramente definidos como estavam noutros tempos. Desenvolvermo-nos entre eles requer, da nossa parte, uma grande destreza social. É frequente que muitos de nós, senão todos, tivéssemos tido e tenhamos dificuldades em defender os nossos próprios direitos, expressar os nossos sentimentos, dizer em público a nossa opinião, discordar do ponto de vista de outra pessoa sem acalorar, iniciar uma relação que não nos interessava, ou pôr ponto final numa conversa que não nos interessa manter por mais tempo, por exemplo (González, 2000).