CAPÍTULO II DELIMITAÇÃO DO CONCEITO DE UNIDADE PRODUTIVA
II.1. Delimitação do Conceito de Unidade Produtiva
Partindo-se da premissa assumida ao final do capítulo anterior, de que a expressão unidade produtiva corresponde ao estabelecimento comercial, assumimos agora o desafio de traçar algumas delimitações para a formação deste estabelecimento que será objeto de alienação, no âmbito dos processos de recuperação judicial, ou em outras palavras, a delimitação do conceito de UPI.
A primeira delimitação seria de que o termo UPI, como já mencionado, designaria o estabelecimento objeto de trespasse, no âmbito da recuperação judicial1, para o qual se atribuiriam os efeitos do art. 60 da LRE, conforme será tratado no capítulo IV do presente trabalho, especialmente dedicado ao tema.
A segunda delimitação estaria no fato de que a UPI seria uma fração do(s) estabelecimento(s) comercial(is) conforme originalmente organizado pelo devedor (seja da própria matriz ou das filiais), mas que seria capaz de se tornar um novo complexo de bens (nova unidade), capaz de ser produtiva por si só, de forma isolada.
Conforme tratamos no capítulo introdutório deste trabalho, o empresário pode contar, para fins da exploração da empresa, com um ou com uma pluralidade de estabelecimentos. O estabelecimento é um dos instrumentos por ele utilizado para o exercício da empresa. Tais estabelecimentos normalmente são divididos entre estabelecimento matriz e filiais.
Neste contexto, podemos afirmar, ademais, que o conceito de UPI não é coincidente com o conceito de filial, pois a LRE tratou de ambos de forma expressa em seu art. 60 e os distinguiu: “alienação judicial de filiais ou de unidades produtivas isoladas do devedor”.
1 A termo “unidades produtivas” também é empregado no âmbito da falência, quando a LRE trata das
formas de realização do ativo (art. 140, II), todavia, neste ponto, a preocupação em se restringir a composição do estabelecimento a ser alienado é de menor relevância, já que se está diante de uma liquidação do devedor e todos os credores estão envolvidos na falência.
As filiais, conforme tivemos a oportunidade de abordar no capítulo anterior, corresponderiam a estabelecimentos comerciais a que o devedor atribuiu uma separação formal do estabelecimento representado pela matriz, isto é, “a filial é o estabelecimento não sede”2. Tendo em vista esta separação formal, já existente, a filial está apta a ser alienada de per si para outro empresário.
Nesta linha, uma situação passível de ser vislumbrada é aquela em que a filial do ponto de vista formal é encarada como uma entidade única, todavia, do ponto de vista fático, corresponde a um aglomerado de estabelecimentos, os quais poderiam existir isoladamente. Nesta hipótese, poder-se-ia destacar uma UPI da filial para que seja objeto de alienação judicial.
De forma análoga, a unidade produtiva isolada também não corresponde necessariamente ao estabelecimento matriz. Este, como vimos, é um conceito jurídico e que é representado pelo estabelecimento comercial indicado pela devedora em seus atos societários, não sendo forçosamente o estabelecimento principal. Como veremos em item subsequente neste capítulo, a alienação da UPI na recuperação judicial pressupõe a continuidade da empresa pelo devedor. Para isto, ele deverá contar com uma matriz, a qual poderá corresponder àquela originalmente organizada pelo devedor, anteriormente à recuperação judicial, ou a uma nova organização (apenas uma fração da matriz original ou uma filial que passe a exercer esta função).
Diante de referidas ponderações é que chegamos à delimitação do conceito de UPI como sendo composto por uma fração ou diversas frações de um ou mais dos estabelecimentos comerciais, conforme originalmente organizados pela devedora, mas que são aptos a ser produtivos de forma isolada3. Nesta linha, interessante pontuar o posicionamento de Manoel Justino Bezerra Filho, segundo o qual a unidade produtiva não seria conceito jurídico, mas sim econômico4.
Parece corroborar este entendimento o quanto exposto por Silvânio Covas, segundo o qual “por unidade produtiva isolada deve-se entender a parcela da atividade empresarial que, embora não apresente distinção jurídico-societária, como ocorre com as
2 M. J. BEZERRA FILHO, Lei de Recuperação de Empresas e Falências – Lei 11.101/2005 Comentário
artigo por artigo, 8a. ed. rev., atual. e ampl., São Paulo, Revista dos Tribunais, 2013, p. 306.
3 Em sentido contrário é o entendimento de Ivo Waisberg, segundo o qual “um estabelecimento
empresarial, ou vários em conjunto, podem ser uma UPI, por exemplo. Ou os ativos que não configuram um estabelecimento empresarial podem ser uma UPI no caso concreto” (Da não sucessão cit. (nota 83.I. supra), p. 164).
filiais, são dotadas de autonomia operacional”5.
Ainda neste sentido, são as considerações de Eduardo Domingos Bottallo, para quem “a consideração sistemática dos preceitos do Código Civil e da NLF autoriza-nos a entender por ‘unidade produtiva isolada’ o estabelecimento apto a possibilitar, de per si, o desempenho de atividades econômicas, embora não se trate de pessoa jurídica, ou de filial de pessoa jurídica, formalmente constituída”6.
Vale destacar que o artigo 1407 da LRE também emprega o termo “unidades
produtivas”. Ainda que estejamos tratando neste artigo da falência e não da recuperação judicial, não se nega o quanto exposto acima.
Neste ponto, o legislador atribuiu uma ordem de preferência para as formas de realização do ativo, a qual busca, na medida do possível, preservar a unidade funcional da empresa, colocando-se como segunda alternativa (inciso II) a venda da empresa, por meio do desmembramento em unidades produtivas. Veja-se que o inciso II traz uma alternativa à opção trazida pelo inciso I, qual seja, a venda dos estabelecimentos em bloco, decorrendo também, pois, da interpretação destes incisos que unidades produtivas corresponderiam ao conceito de estabelecimento, mormente de uma parcela daquele originalmente organizado pelo devedor.
É nesta mesma linha a interpretação dada por Paulo Fernando Campos Salles de Toledo e Bruno Poppa, para os quais “a própria LRE utiliza a construção unidade
produtiva isolada como sinônimo de estabelecimento no seu art. 140, quando trata das
formas de realização do ativo na falência. (…) Como se vê, reconhece-se, na primeira hipótese, a empresa como um ente formado por uma pluralidade de estabelecimentos, determinando a venda global deles. No segundo caso, já se utiliza filial e unidade
5 Comentários aos arts. 55 ao 69, in N. DE LUCCA e A. SIMÃO FILHO (coord.), Comentários à Nova
Lei de Recuperação de Empresas e de Falências – Comentários Artigo por Artigo da Lei nº. 11.101/2005, São Paulo, Quartier Latin, 2005, p. 310.
6 Reflexos tributários da nova lei de falências, in Revista do Advogado 83 (2005), pp. 31.
7 Art. 140, LRE: “A alienação dos bens será realizada de uma das seguintes formas, observada a seguinte
ordem de preferência:
I – alienação da empresa, com a venda de seus estabelecimentos em bloco;
II – alienação da empresa, com a venda de suas filiais ou unidades produtivas isoladamente; III – alienação em bloco dos bens que integram cada um dos estabelecimentos do devedor; IV – alienação dos bens individualmente considerados.
§ 1o. Se convier à realização do ativo, ou em razão de oportunidade, podem ser adotadas mais de uma
forma de alienação.
§ 2o. A realização do ativo terá início independentemente da formação do quadro-geral de credores. § 3o. A alienação da empresa terá por objeto o conjunto de determinados bens necessários à operação rentável da unidade de produção, que poderá compreender a transferência de contratos específicos. § 4o. Nas transmissões de bens alienados na forma deste artigo que dependam de registro público, a este
produtiva isolada como sucedâneo de estabelecimento, e no terceiro inciso já se retoma o
uso deste como sinônimo daqueles”8.
Assim, pode-se falar em um desmembramento da empresa, enquanto conjunto de vários estabelecimentos (filiais ou unidades produtivas), supondo a lei existir autonomia que permita a continuação das operações em cada um deles. Sempre que os estabelecimentos puderem operar autonomamente, nada obsta a que seja feita a venda por blocos ou unidades. Poder-se-ia isolar cada um dos estabelecimentos que componham a organização destinada ao exercício da empresa, desde que de tal ação não decorra a perda de unidade organizada para a atividade empresária9.
II.2. Considerações sobre a Função Primordial da Recuperação Judicial e a