Considerando os princípios gerais que guiam o Paradigma da Complexidade, se assume para realização dessa pesquisa uma concepção paradigmática construtivista (CRESWELL, 2010). Na análise desses aspectos complexos, a abstração metodológica utilizada pelo Positivismo dificulta a reintrodução das descobertas nas situações cotidianas em que foram geradas. Desse modo, a adoção de abordagens mais abertas permite abordar temas complexos e incomuns, sendo o objeto de estudo o fator determinante para a escolha do método (FLICK, 2009, p. 23-24).
Nesse sentido, a metodologia proposta não busca apreender “a realidade”, mas objetiva compreender uma realidade originada a partir de um consenso da comunidade no estabelecimento daquilo que é útil e do que tem sentido, com base nos significados construídos pelos sujeitos originados nas experiências como foram vividas ou sentidas. Acredita-se que grande parte dos fenômenos sociais intencione a elaboração de significados, influenciando a ação. Assim, os significados são alterados quando julgados não mais adequados. Esse entendimento, que é a visão de mundo do pesquisador, distância o paradigma Construtivista do Positivista (DENZIN; LINCOLN, 2005; MERRIAM, 2009).
A incomensurabilidade entre os paradigmas não significa que as metodologias de pesquisa – qualitativa ou quantitativa – e as lógicas subjacentes – dedutiva ou indutiva – também o sejam. No entanto, algumas questões podem exigir informações que os métodos qualitativos são mais capazes de gerar, e o pesquisador não deve “se recusar diante da explicação adequada” (GUBA; LINCOLN, 1994, p. 36). Mesmo diante dessa possível integração de metodologias, assume-se que a objetividade refere-se ao conhecimento do mundo físico, que só pode ser alcançado se o pesquisador se mantem separado do fenômeno
que deseja conhecer. Por outro lado, o conhecimento sobre o mundo social (em oposição ao físico), subjetivo e intersubjetivo, criado e recriado pelos agentes humanos, surge dos mecanismos de elaboração de significados, não podendo ser separado do pesquisador (DENZIN; LINCOLN, 2005).
Como se intenciona compreender o processo de internacionalização das empresas a partir da percepção dos agentes sobre quais aspectos são considerados mais relevantes para esse processo, definindo assim, quais os eventos críticos a serem analisados, bem como, a identificação das suas percepções na definição dos níveis de capacidade de adaptação complexiva da empresa, assume-se que para o presente estudo, “quanto mais aberto o questionamento, melhor” (CRESWELL, 2010, p. 31).
Sendo “melhor” entendido como mais adequado, também se assume que não existe um método totalmente apropriado a ser aplicado a qualquer estudo; mas pode-se buscar a coerência com os problemas e objetivos da pesquisa, bem como adequação aos recursos, acesso às informações e a habilidade do pesquisador. Por mais que se possa argumentar que alguns métodos são mais adequados do que outros (GUBA; LINCOLN, 1994), nenhum deles, ou conjunto deles, é capaz de fornecer a verdade suprema. A validade da pesquisa, nesse caso, envolve a combinação entre o método e a interpretação (que será apresentada na subseção 3.5). Os critérios metodológicos servem para assegurar que a pesquisa seja tratada com seriedade, ao invés de assegurarem a descoberta da verdade (DENZIN; LINCOLN, 2005).
Assim, espera-se que a pesquisa qualitativa seja mais adequada ao Construtivismo, partindo do entendimento de que se “procura descobrir e entender um fenômeno, um processo ou perspectivas e visões de mundo das pessoas envolvidas” (MERRIAM, 2009, p. 11). Nesse sentido, ajuda a compreender e explicar o significado do fenômeno social, havendo o interesse crescente em entender e construir conhecimento sobre o significado desenvolvido pelas pessoas, suas linguagens, percepções e valores, contido na experiência do fenômeno social (DENZIN; LINCOLN, 2005; MERRIAM, 2009).
No que se refere às lógicas que permeiam a pesquisa, a abordagem qualitativa é essencialmente indutiva, ou seja, o pesquisador reúne os dados para, a partir deles, construir categorias, tipologias, conceitos, hipóteses tentativas ou teorias, indo do particular para o geral (MERRIAM, 2009, p. 15-16). Entretanto, na fase de definição das categorias (detalhada na subseção 3.5), há a utilização das lógicas tanto indutiva quanto dedutiva, pois busca-se verificar se as categorias geradas são condizentes com os dados. Após a definição das categorias, a lógica passa a ser puramente dedutiva, pois nesse momento é necessário verificar
se elas são compatíveis com os objetivos propostos no trabalho, bem como com a teoria utilizada (MERRIAM, 2009, p. 183-185).
Assim, diferente das concepções paradigmáticas, as lógicas dedutiva e indutiva não se excluem, ao contrário, assume-se que a investigação sobre processos são mais bem caracterizadas em termos de “ciclos de dedução e indução”. A definição do tema da pesquisa, dos seus limites, bem como as perguntas e a avaliação dos pontos fores e fracos das teorias existentes e das descobertas empíricas, são condutores essencialmente dedutivos, usados para proporcionar uma orientação ao estudo. Entretanto, a estruturação dedutiva é apenas um guia para um processo mais aberto de raciocínio indutivo (PETTIGREW, 1997, p. 344). Se tornando, mais tarde, dedutivo novamente (MERRIAM, 2009), formando um ciclo constante de iteração entre dedução e indução.
Com relação às estratégias de pesquisa, as mais utilizadas na pesquisa qualitativa são os estudos etnográficos, fenomenológicos, grounded theory e o estudo de caso (MERRIAM, 1998). Dentre essas, a estratégia utilizada é o estudo de caso. Essa nomenclatura também pode ser utilizada para conduzir um estudo usando mais de um caso, comumente chamado de estudo de caso comparativo, múltiplo ou cross-case (MERRIAM, 2009, p. 49). Este tipo de estudo se mostra mais adequado por ser caracterizado como uma coleção de casos que são, de alguma forma, unidos na explicação do fenômeno, o que possibilita a identificação de similaridades e contrastes (STAKE, 2007).
Desde a década de 1990, o estudo de caso tem sido amplamente empregado na área das Ciências Sociais Aplicadas, especialmente, na Administração (MARTINS, 2008), por possibilitar que os fenômenos sociais sejam analisados enquanto casos únicos em suas particularidades e complexidades (STAKE, 2007). A escolha por tal estratégia fundamenta-se no entendimento de que se deve optar pela estratégia de estudo de caso quando há um interesse específico nele mesmo dentro do seu contexto, pois “estudos de caso analisam a particularidades e a complexidades, para compreender as suas atividades em circunstâncias importantes” (STAKE, 2007, p. 11).
O tempo e a história são considerados aspectos centrais em qualquer análise de processos, mas o objetivo não é produzir uma história do caso, mas um estudo de caso, com fins analíticos, buscando padrões nos processos analisados, pautado em abordagens indutiva e dedutiva (PETTIGREW, 1997, p. 338- 339). Nessa perspectiva, “o estudo de caso permite a percepção de aspectos que geralmente ficam despercebidos em outras estratégias de pesquisa” (STAKE, 2007, p. 20). Com o intuito de permitir a compreensão da internacionalização como
um processo em evolução, é realizada uma pesquisa com abordagem longitudinal, caráter retrospectivo, ex-post facto – no período que compreende desde o início das atividades nos mercados externos até o ano de 2012 –, em que os fenômenos investigados que se formaram espontaneamente, em determinado contexto (MATOS; VIEIRA, 2001).