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5 ACIDENTES DE TRÂNSITO E A MOTOCICLETA

6.3 DEFINIÇÃO DO MÉTODO: PESQUISA QUALITATIVA VS

6.3.2 Pesquisa quantitativa: modelos econométricos

6.3.2.2 Delineamento do estudo de caso quantitativo

Os microdados utilizados na análise econométrica desta tese foram obtidos em cooperação com o departamento de Serviço Social da sede do DETRAN/AL, em Maceió. Ao buscar informações sobre o seguro DPVAT, os solicitantes são convidados a preencher um formulário social (ver ANEXO A). Esse formulário contém informações pessoais e informações relativas à ocorrência do acidente. A primeira informação preenchida trata do tipo de seguro solicitado, que pode ser: i) DAMS (Despesas de Assistência Médica e Suplementares), b) invalidez permanente ou c) morte.

Desde sua implementação, o formulário passou por alterações. A versão utilizada hoje se mantém a mesma desde 2013, por isso, as análises deste trabalho se iniciam a partir de 2013 até 2019. Os dados de 2013 a 2015 estavam nos arquivos físicos do órgão e precisaram ser digitados manualmente, um a um, e compilados para uma planilha no Excel. A partir de 2016, houve a implantação do sistema de informação do DETRAN/AL e os dados passaram a estar disponíveis em formato eletrônico, desta forma, foram obtidos por meio de solicitação de informação, junto ao departamento de informática do órgão.

No total, foram obtidas 1220 amostras entre os anos de 2013 e 2019, excluindo-se 2015, sendo 355 em 2013, 203 em 2014, 219 em 2016, 214 em 2017, 200 em 2018, 29 em 2019 (até abril). A razão de 2015 ter sido excluída foi que neste ano houve uma mudança de endereço do departamento interrompendo as entrevistas.

No entanto, essas 1220 amostras que foram compiladas e tratadas no banco de dados são referentes a acidentados dos diversos modos de transporte em Alagoas entre 2013 e 2019, não apenas motociclistas. Para a análise foram selecionados apenas os questionários relativos às

respostas dos que usavam uma motocicleta (ou motoneta, ou ciclomotor) no momento do acidente. Desta forma, dois modelos foram calculados, um para os usuários de motocicleta (nas posições de condutor e carona), no qual foram considerados 689 questionários relativos às pessoas que se acidentaram nestas condições, e um modelo em que foram consideradas apenas os 522 questionários em que o acidentado estava conduzindo uma motocicleta, visando capturar o efeito da habilitação na gravidade do acidente.

O formulário é dividido em 4 partes: i) tipo de solicitação (DAMS - ressarcimento dos custos médicos, por deficiência permanente ou por morte); b) dados pessoais (nome, sexo, data de nascimento, naturalidade, estado civil e endereço); c) condições socioeconômicas (escolaridade, situação ocupacional antes e após o acidente, renda familiar antes e após o acidente, percentual de contribuição na renda familiar antes do acidente, recebimento de programa social); d) dados do acidente: data, endereço, tipo de envolvimento da vítima (por exemplo se era condutor, passageiro), tempo de habilitação, uso de equipamento de segurança e natureza (por exemplo, colisão, tombamento).

As seguintes variáveis socioeconômicas foram escolhidas para a modelagem: sexo, idade, estado civil, escolaridade e renda. E também variáveis relacionadas ao acidente, como: tipo de motocicleta, uso do capacete, final de semana e habilitação (se condutores). Para o processo de calibração do modelo as variáveis foram codificadas em variáveis categóricas.

A Tabela 5 apresenta a estatística descritiva das variáveis envolvidas no estudo para os grupos de usuários de motocicletas e de condutores de motocicleta. A variável sexo foi codificada em: (0 = feminino) e (1 = masculino). A variável idade foi dividida em quatro categorias, sendo de: (0 = 0 a 29 anos), (1 = de 30 a 39 anos), (2 = de 40 a 49 anos, (3 = de 50 anos ou mais). O estado civil foi codificado como (0 = outras) e (1 = solteiro). A escolaridade foi simplificada entre: (0 = não concluiu o ensino médio) e (1 = concluiu o ensino médio). A variável renda foi dividida entre: (0 = menos de 1 salário mínimo (S.M.), (1 = 1 S.M.), (2 = mais de 1 a 2 S. M.), (3 = mais de 2 a 3 S.M.), (4 = mais de 3 a 5 S.M.) e (5 = mais de 5 S.M.). O tipo de motocicleta refere-se às cilindradas e foi dividida entre: (0 = abaixo de 50 cc) e (1 = acima de 50 cc). A variável capacete foi relativa à (0 = presença) ou (1 = ausência) do equipamento de segurança na hora do acidente. A variável habilitação foi utilizada no segundo modelo com condutores e é representada por (0 = habilitado) e (1 = não habilitado). A variável final de semana foi classificada em (0 = de segunda

a sexta) e (1 = sábado e domingo). A gravidade é a variável dependente e foi classificada em 2 categorias: solicitou o DAMS ou deficiência permanente igual a zero e óbito igual a 1.

Tabela 5 – Estatística descritiva das variáveis do grupo de usuários e de condutores de motocicleta.

Usuários (N=689)

Condutores

(N=522)

Variável Média Desvio

Padrão Média

Desvio

Padrão Descrição

gravidade 0.14 0.34 0.14 0.35 1 = se morte; 0 = se DAMS ou invalidez.

sexo (M) 0.87 0.34 0.94 0.24 1 = se masculino, 0 = se feminino.

idade 0 = 0 a 29 anos

30-39 0.33 0.47 0.35 0.48 1 = de 30 a 39 anos;

40-49 0.16 0.36 0.14 0.35 2 = de 40 a 49 anos;

≥ 50 0.11 0.31 0.11 0.31 3 = de 50 a 59 anos;

estado civil 0.35 0.48 0.34 0.48 1 = se solteiro, 0 = se outros.

escolaridade

0.33 0.47 0.36 0.48

1 = ensino médio completo, 0 = até ensino médio incompleto. renda 0 = menos de 1 S.M.; Até 1 S.M. 0.23 0.42 0.24 0.43 1 = 1 S.M.; 1 a 2 S.M. 0.42 0.49 0.43 0.50 2 = mais de 1 a 2 S. M.; 2 a 3 S.M. 0.18 0.38 0.18 0.38 3 = mais de 2 a 3 S.M.; 3 A 5 S.M. 0.07 0.25 0.07 0.26 4 = mais de 3 a 5 S.M. + de 5 S.M. 0.02 0.16 0.03 0.17 5 = mais de 5 S.M. tipo de motocicleta 0.85 0.35 0.87 0.34 1 = >50 cc, 0 = < 50 cc

capacete 0.90 0.30 0.93 0.26 1 = sem capacete, 0 = com capacete

habilitação - - 0.27 0.45 1 = sem habilitação, 0 = habilitado

final de semana 0.38 0.49 0.38 0.48 1 = final de semana, 0 = durante a semana

Fonte:

6.4 CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CAPÍTULO

Pela revisão de literatura não foram identificados, no mundo, estudos que tratem de justiça no transporte na perspectiva do uso da motocicleta. Esta tese utiliza métodos mistos de pesquisa qualitativa e quantitativa para compreender em que medida a motocicleta atua na promoção ou na diminuição da equidade.

Inicialmente, o problema é tratado de uma perspectiva qualitativa, para melhor compreender as dificuldades, necessidades e comportamentos com relação ao uso da motocicleta, de forma a entender e analisar o uso deste modo de transporte em áreas rurais e periféricas. Especificamente, com relação ao método adotado, o uso de grupos focais é interessante quando se busca gerar dados sobre significados de grupo, processos de grupo de geração de significado, e

normas de grupo. Entretanto, por se tratar de uma pesquisa qualitativa, com um número reduzido de participantes, a técnica não tem representatividade estatística.

Assim, de forma a tornar a análise mais completa, e agregar representatividade estatística, o trabalho combina o método de grupos focais com a econometria utilizando um modelo de regressão logística (Logit). Este método utiliza o algoritmo da máxima verossimilhança para estimação com distribuição logística. O objetivo da análise quantitativa é de relacionar os fatores associados a probabilidade de o acidente ter implicado em morte do indivíduo. Além disso, busca- se estimar se houve variação de renda estatisticamente significativa no sentido da redução da renda que pudesse ser um indicador de que pessoas que se acidentam gravemente ficariam mais vulneráveis socialmente, podendo acentuar a inequidade.

O Capítulo 7 detalha o estudo qualitativo de grupos focais em Arapiraca e o Capítulo 8 explica o estudo quantitativo com uso das análises estatísticas a partir dos dados do DETRAN/AL.