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Parte&2! O!estudo!

Capítulo 7 Natureza do estudo

7.5 Delineamento do estudo

Como falamos anteriormente, este trabalho tem um perfil qualitativo, por perscrutar os sentimentos e as sensações que podem ser desencadeadas pela contação ou mesmo pela leitura de contos ou lendas conhecidos como mitos amazônicos a jovens em uma escola de Colares, intentando também saber se esses jovens, quando crianças, escutavam essas narrativas e se elas lhes causavam ou ainda causam hoje medo.

Após nos munirmos de todo o material necessário, no momento do trabalho in loco, nosso desejo era gravar e filmar (o que não pudemos fazer, pois não tivemos autorização dos jovens) todas as entrevistas para depois as transcrevermos cuidadosamente, digitarmos e registarmos no computador todos os detalhes, inclusive com os gestos captados e, enfim, poder trabalhar com os dados para posterior análise dos mesmos, com nossa interpretação e à luz dos teóricos.

Após elaborarmos o guião de entrevistas (apêndice A), submetemo-lo à orientadora para a sua apreciação e validação. As questões da entrevista tiveram de ser criteriosamente elaboradas e apresentadas mais de uma vez à orientadora antes de serem submetidas aos entrevistados. Inicialmente prepararam-se oitenta questões, porém como era em número exorbitante, reduzimo-las drasticamente para vinte e quatro questões (apêndice B), o que se constituiu na validação do guião. Essas vinte e quatro questões estavam relacionadas a costumes, gostos e preferências dos estudantes sobre leitura/audição de narrativas tradicionais, a sensações possivelmente experimentadas e a seu imaginário.

Objetivávamos, com a entrevista, inicialmente, averiguar se os jovens tiveram contato com as narrativas tradicionais, se ouviram na infância as histórias do Boto, da Matintaperera e da Cobra Grande, para identificarmos possíveis crenças e depois percebermos quais eram, das figuras das narrativas amazônicas, as que mais causavam medo e faziam parte do imaginário deles.

Ao chegarmos à escola, inicialmente nos dirigimos à direção, mas, por ela não se encontrar no local, encaminhamo-nos à coordenadora do estabelecimento para solicitar autorização para as entrevistas. A professora Thais Tavares Nogueira, encarregada pela coordenação, atendeu-nos gentil e prontamente, cedendo-nos uma sala para nosso procedimento, a fim de que ficássemos à vontade para o trabalho. Assim, munidos dos materiais para o registro das entrevistas (câmera, computador, tablet, celulares etc.), iniciamo-las.

No momento de primeiro contato com o jovens, solicitamos a colaboração de cada um deles e garantimos a confidencialidade das informações e o anonimato dos entrevistados. Solicitamos ainda a autorização para a gravação de vídeo e áudio, contudo, a maioria só permitiu a gravação da voz. Prosseguimos, explicando-lhes os motivos de os termos escolhido para fazerem parte de nosso trabalho, mostrando-lhes assim que sua contribuição nos era imprescindível, informando-lhes também quanto tempo duraríamos na realização da entrevista.

Foram necessárias em média três horas para que pudéssemos concluir o trabalho, realizando na escola, exatamente, nove entrevistas. No final, agradecemos a ajuda e a colaboração de nossos sujeitos, informando-lhes e à coordenação da escola, que colocaríamos à disposição da escola, posteriormente, os resultados da investigação, como contribuição ao estudo da cultura do município de Colares.

Considerando o tema de nossa investigação “A presença das narrativas tradicionais amazônicas no imaginário dos jovens em idade escolar” e objetivo geral: investigar a presença das narrativas tradicionais amazônicas no imaginário dos jovens em idade escolar, elaboramos o guião de entrevistas (apêndice A) com seis blocos, divididos em A, B, C, D, E e F. O primeiro bloco (A) teve a duração de dez minutos aproximadamente e consistiu na legitimação das entrevistas e nele informamos sobre o que seria a entrevista em si mesma. Como formulário de tarefas do bloco A, tivemos as seguintes: informar os entrevistados sobre o trabalho em curso; informar acerca dos principais objetivos da entrevista; solicitar a colaboração dos entrevistados, fato fundamental para a consecução do estudo a realizar; garantir a confidencialidade das informações e o anonimato das entrevistas; solicitar autorização para gravação de áudio (e vídeo, se posssível) da entrevista; colocar à disposição da escola os resultados da investigação; agradecer a ajuda e colaboração de todos os envolvidos.

O bloco B teve a duração de trinta minutos aproximadamente e tratou das investigações dos hábitos de leitura e audição de narrativas tradicionais, cujos objetivos foram: 1. Investigar os hábitos de audição de narrativas tradicionais dos jovens, quando eram crianças; e 2. Investigar os hábitos de leitura de narrativas tradicionais dos jovens, quando eram crianças. Como formulário de questões, trouxe as seguintes: Você costumava ouvir histórias de encantamento quando criança? Quem contava? Onde? Com que frequência? Você costumava ler histórias de encantamento quando criança? Onde? Com que frequência?

Para o terceiro bloco (C), o qual teve a duração de trinta minutos aproximadamente, coube o conhecimento das preferências dos adolescentes acerca da recepção das narrativas tradicionais, a fim de saber se, quando crianças, eles gostavam de ouvir histórias; e o objetivo constituiu-se em conhecer as preferências dos jovens acerca das narrativas tradicionais. Trouxe como formulário de questionamentos os seguintes: Hoje, você gosta mais de ler ou de ouvir essas histórias? Você gostaria mais de ler ou de ouvir essas histórias? Quando criança, você gostava de ouvir essas histórias? E você gostava de ler essas histórias? Você prefere ler ou ouvir?

Examinamos o contato dos jovens com as narrativas que contêm figuras causadoras de medo no bloco D, que teve em torno de vinte e cinco minutos. Era importante investigarmos como esses adolescentes materializavam aquelas figuras por meio da caracterização das personagens das narrativas tradicionais. O objetivo desse bloco foi o de averiguar em que

narrativas os entrevistados tomaram contato com essas figuras causadoras de medo. Este blovo teve como formulário de indagações as seguintes: Que histórias de Colares você conhece? Alguma dessas histórias lhe causa medo? Qual delas?

O bloco E teve a duração de vinte e cinco minutos aproximadamente e tratou da percepção dos entrevistados acerca das figuras consideradas, nas narrativas tradicionais, como sendo as mais atemorizantes e trouxe como objetivo conhecer as mais citadas a fim de mapear o porquê da sensação que elas causam no ouvinte. Este bloco trouxe como formulário de inquirições as seguintes: Você conhece alguma história do Boto, da Matintaperera ou da Maria Vivó? Conte.

Por fim, o bloco F teve a duração de sessenta minutos aproximadamente e investigou a compreensão das crenças (de ontem e hoje) dos jovens nas figuras presentes nas narrativas tradicionais, procurando perceber, direta ou indiretamente, suas crenças a respeito dos seres míticos, o medo e outras impressões que estes entes ainda lhes causam. O objetivo aqui transcorreu em torno de compreender se os jovens acreditavam ou ainda acreditam hoje em tais figuras.

Este bloco, o mais longo, apresentou as seguintes indagações: Essas histórias o impressionavam? Que impressão elas lhe causavam? Você já ouviu falar de alguém que foi encantada pelo Boto? Conte. [Se sim: Ela ficou grávida? Você acha que o filho era mesmo do Boto?] Como seria essa pessoa em que se transforma o Boto? Descreva-a. (Sedutor, bonito...) Se você encontrasse alguém com essa descrição, sentiria medo? Você já ouviu falar de alguém que se transforma (ou se transformou) em Matintaperera? Conte. Você já ouviu falar de alguém que foi judiado pela Matintaperera? Conte. Você já ouviu o assovio da Matinta? Conte. Como seria para você a Matintaperera? Tente descrevê-la. Se você encontrasse alguém com essa descrição, sentiria medo? Você já ouviu falar de alguém que ficou encantado pela Cobra Grande (Maria Vivó)? Conte. Como seria para você a Maria Vivó? Tente descrevê-la. Se você encontrasse esse ser aí, sentiria medo? Você acredita que alguém possa parir uma cobra? O que faria se estivesse no mato e visse a Maria Vivó?

Tais questionamentos causaram muito rebuliço nos jovens entrevistados. As reações mais variadas possíveis, desde sorrisos, risos, gargalhadas, variações na fisionomia, entonações, gestos, expressões de surpresa, admiração, olhos arregalados, estas foram algumas delas, contrastando com a aparência de quase timidez e curiosidade de alguns no início das entrevistas. Singular perceber como os jovens estavam bem descontraídos ao final do trabalho

de recolha de dados, o que nos lembra as palavras de Tuckman (2000, p. 68) sobre a boa interrelação, tão necessária a um trabalho dessa natureza, “que contempla o afetivo, o existencial, o contexto do dia-a-dia, as experiências e a linguagem do senso comum no ato da entrevista é condição sine qua non do êxito da pesquisa científica” [Itálicos do autor].

Por conta do tema ser de interesse dos jovens, houve um tempo em que precisamos controlar com diplomacia o fluxo das respostas, recorrendo a perguntas de focagem (Carmo & Ferreira, 2008), uma vez que, após o período inicial de timidez, os jovens se soltaram, correndo o risco de fugirem ou extrapolarem o assunto da entrevista.

A entrevista é uma técnica privilegiada de comunicação pois pode captar expressões de natureza variada. Com o objetivo de extrair dados para a pesquisa qualitativa, a entrevista se caracteriza por ser um diálogo entre entrevistador e entrevistado, podendo ser mais de um. Porém, em nosso caso, efetuou-se o inquérito com apenas um entrevistado, um aluno do segundo ano do Ensino Médio, pois cada jovem poderia, livremente, expor suas respostas, sem a interferência de colegas ou amigos que o pudessem influenciar. Assim, apenas com o entrevistador, pôde relatar sobre sua infância e atualidade relativa ao tema abordado: narrativas tradicionais de Colares com a presença de personagens que poderiam desencadear medo aos ouvintes.

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Capítulo 8 - Metodologia

8.1 O método

A palavra método origina-se do latim methodus e do grego methodos e significa “caminho através do qual se procura chegar a algo ou um modo de fazer algo” (Turato, p. 149, s/d., citado por M. M. de Oliveira, 2012, p. 48). Tanto o caminho que se percorre a fim de chegar a um destino desejado quanto o modo – à moda de receita – para se fazer alguma coisa nos esclarecem a respeito da metodologia que se segue na pesquisa científica. E para chegarmos ao objetivo desejado, devemos utilizar o método adequado, fazendo uso dos instrumentos apropriados, que são as técnicas.

Vários são os métodos utilizados nos trabalhos científicos: dedutivo, indutivo, hipotético- dedutivo, dialético. O método empreendido neste trabalho foi o indutivo, o qual partiu do particular para, a partir das informações colhidas nos dados (entrevistas), chegar ao geral. Este método tem seu fundamento pautado unicamente na experiência, não leva em consideração princípios anteriormente estabelecidos e parte da observância de fenômenos cujas razões, causas e motivos desejamos descobrir (M. M. de Oliveira, 2012, p. 50; Gil, 2008, p. 10). Este tipo de metodologia tem uma visão mais holística do ser humano, em que os entrevistadores levam em conta a “realidade global” dos sujeitos investigados. Suas palavras e atos não podem ser reduzidos a números ou estatísticas, e sim em sua totalidade, considerando seu contexto (Carmo & Ferreira, 2008, p. 198). Houve, de nossa parte, uma tentativa de conhecer e entender os jovens, seu passado e presente.

Finalmente, a metodologia, para Deslandes & Gomes (2011, p. 14), trata-se de uma somatória de três fatores: “a teoria da abordagem (o método), os instrumentos de operacionalização do conhecimento (as técnicas) e a criatividade do pesquisador (sua experiência, sua capacidade pessoal e sua sensibilidade)”. Esta última, a criatividade, não pode ser negligenciada numa pesquisa científica como esta, em que se requer sensibilidade da nossa parte para ouvir as questões endereçadas aos entrevistados em suas manifestações e experiências individuais na escola e em seus lares.