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SUMÁRIO

2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo geral:

3.1 Delineamento do processo de pesquisa na TFD

O processo de pesquisa da TFD é muito mais circular do que linear (CHARMAZ, 2009; DANTAS et al., 2009; STRAUSS; CORBIN, 2008), tendo em vista que algumas vezes é preciso voltar para etapas anteriores, olhar novamente para os dados e, assim, seguir a caminhada. No entanto, consideramos importante citar alguns esclarecimentos sobre as fases da TFD, não como uma tentativa de limitar o método, mas como forma de apresentar um caminho possível de ser percorrido rumo à construção de uma teoria.

Na TFD, a fase de execução da pesquisa inclui a coleta de dados, a transcrição, a codificação/análise dos dados e delimitação da teoria. O primeiro aspecto a ser apontado é que, na TFD, coleta e análise de dados

5 O interacionismo simbólico é uma perspectiva teórica que compreende que a sociedade, a realidade e o indivíduo são construídos por meio da interação. Pressupõe que a interação é inerentemente dinâmica e interpretativa, e trata de como as pessoas criam, representam e modificam os significados e as ações (CHARMAZ, 2009, p. 21).

acontecem simultaneamente, num processo conhecido como “análise constante” (DANTAS et al., 2009). Assim como em outros tipos de estudos qualitativos, na TFD a realização da coleta pelo próprio pesquisador deve ser priorizada, afirmação que também vale para as fases de transcrição e análise dos dados.

Utilizando os métodos da teoria fundamentada é possível modelar e remodelar a coleta de dados, acrescentando “novas peças ao quebra- cabeça”, o que pode ocorrer até mesmo posteriormente, na fase de análise dos dados. A flexibilidade dos estudos qualitativos permite ajustes no decorrer da coleta e, nesse caso, podem surgir modificações no roteiro entre uma entrevista e outra (CHARMAZ, 2009).

A entrevista e a observação são exemplos de técnicas de coleta muito utilizadas na pesquisa qualitativa e na TFD também são de grande valia, desde que sejam respeitadas algumas particularidades do método.

A observação é uma técnica que utiliza praticamente todos os sentidos – visão, audição, percepção e olfato –, permitindo a descoberta de como algo ocorre ou funciona de fato (FLICK, 2009). Para tanto, o pesquisador deve relativizar o seu espaço social, procurando colocar-se no lugar do outro (MINAYO, 2010). Trata-se de uma técnica muito útil aos estudos da TFD, pois permite ao pesquisador perceber as expressões, emoções e gestos que os participantes fazem ao responder determinadas questões, além de possibilitar captar nuances no ambiente familiar, profissional e outros onde a investigação aconteça.

Tradicionalmente, aliado à técnica da observação, pode ser utilizado o diário de campo, um instrumento onde são escritas as impressões do pesquisador, os dados de conversas informais, atitudes e comportamentos do interlocutor, os quais devem ser levados em consideração no momento da análise, junto com os demais dados coletados (MINAYO, 2010). O diário de campo pode servir como local para registrar os memorandos e notas, os quais são itens fundamentais nesse tipo de investigação, e que serão esclarecidos na próxima seção deste manuscrito.

Já a técnica de entrevista oferece flexibilidade para levantar esclarecimentos acerca daquilo que é essencial para a compreensão da realidade investigada e ainda avaliar a veracidade das respostas, podendo ser do tipo estruturada, semiestruturada ou livre (DANTAS et al., 2009).

Charmaz (2009) fala sobre a entrevista informativa e entrevista intensiva, como técnicas que podem ser utilizadas na TFD. Refere que a primeira é mais adequada para estudos com inclinação objetivista, e a segunda – do tipo intensiva – permite um olhar mais detalhado para a

experiência dos sujeitos. A entrevista intensiva pode ser constituída de um instrumento com alguns tópicos norteadores, como também pode ter um roteiro com questões semiestruturadas e abertas, sendo que essas últimas dão espaço para histórias imprevistas que podem ser relevantes para a análise emergente (CHARMAZ, 2009).

Na TFD, o roteiro de entrevista pode sofrer modificações durante o desenvolvimento do estudo. Essa flexibilidade permite a inclusão de novas questões, bem como adequações às perguntas já existentes, pois, à medida que o pesquisador analisa os dados, pode ser percebida a necessidade de explorar aspectos que não estavam previstos inicialmente.

Recomenda-se que, imediatamente após realizar cada entrevista e/ou observação, deve-se proceder à transcrição das falas, para que não se percam as impressões obtidas no momento da coleta. A transcrição é uma etapa que deve ser realizada com cautela e, preferencialmente, pelo próprio investigador, o que poderá subsidiar com maior qualidade a fase seguinte de análise dos dados.

A análise dos dados na TFD acontece em três etapas interdependentes, pressupondo um movimento circular entre estas, quais sejam: codificação aberta, axial e seletiva (STRAUSS; CORBIN, 2008; DANTAS et al., 2009).

A codificação aberta é aquela etapa que dá início ao processo de análise, abrindo os dados brutos tal como foram transcritos. Nesse momento, o pesquisador deve realizar uma leitura minuciosa, linha a linha (microanálise), em busca de palavras ou frases que expressem a essência do discurso, formando assim os códigos preliminares (SANTOS; NÓBREGA, 2004; DANTAS et al., 2009). Aqui, os dados – bem como os incidentes – são comparados e designados em categorias e subcategorias (CASSIANI; CALIRI; PELÁ, 1996).

De acordo com Strauss e Corbin (2008, p. 104),

Na codificação aberta, os dados são separados em partes distintas, rigorosamente examinados e comparados em busca de similaridades e de diferenças. Eventos, acontecimentos, objetos e ações/interações considerados conceitualmente similares em natureza ou relacionados em significado são agrupados sob conceitos mais abstratos, chamados “categorias”.

Na codificação axial, os códigos identificados na etapa anterior são reagrupados através de um processo chamado de redução. Esse processo visa descobrir qual a variável central do estudo, ou seja, busca desvelar uma categoria central capaz de explicar, a partir do ponto de vista dos atores, como a ação estudada se manifesta na cena social, e como esses sujeitos lidam com o problema (CASSIANI; CALIRI; PELÁ, 1996; DANTAS et al., 2009).

Nessa etapa, categorias e subcategorias são relacionadas considerando suas propriedades e dimensões, com a finalidade de gerar explicações mais precisas sobre os fenômenos (STRAUSS; CORBIN, 2008).

A codificação seletiva tem a finalidade de desenvolver o paradigma de análise, uma estrutura teórica que explica como as categorias se relacionam entre si, bem como com a categoria central. A categoria central representa o tema central da pesquisa e aparece na forma de uma frase mais abstrata em torno da qual todas as outras categorias podem ser agrupadas (STRAUSS; CORBIN, 2008).

Ainda conforme os mesmos autores, o passo seguinte seria a delimitação da teoria e, para tanto, pode ser necessário retomar etapas anteriores para fazer mais uma vez a redução, além de verificar se de fato houve uma saturação teórica das categorias.

Aliados ao trabalho manual empregado no processo análise da TFD existem os softwares que podem auxiliar o pesquisador durante a codificação, como, por exemplo, o NUD-IST®, o MAXqda® e o ATLAS-ti®. Este último trabalha com diversos tipos de documentos (formato Richtext, Word e tabelas do Excel) e é muito útil para integrar códigos e categorias em redes conceituais (FLICK, 2009). Cabe esclarecer que, na TFD, o olhar atento do pesquisador é fundamental e não pode ser substituído por um software. Assim, o uso desses programas durante a codificação deve ser visto como uma opção, e não como uma obrigatoriedade.

Diante de todos os procedimentos detalhados até o momento, é preciso lembrar que, nesse tipo de estudo, o grande objetivo da análise é construir uma teoria. Trilhar esse percurso requer uma mente aberta para o que cada caso particular pode nos ensinar sobre os demais, indo do específico para o mais geral ou abstrato. É dessa forma que a

codificação estimula um raciocínio indutivo6, o que nos permite passar da descrição para a conceituação (STRAUSS; CORBIN, 2008).

O raciocínio indutivo aparece como uma ferramenta basilar na TFD, uma vez que, nesse método, as categorias e, consequentemente, a teoria emergem a partir dos dados (MORAES, 2003). Isso não significa que a TFD tem a pretensão de fazer generalizações a partir de um caso particular, mas de desvelar conceitos e relações entre categorias de um determinado fenômeno e, de maneira indutiva, aplicar esse entendimento quando o mesmo fenômeno acontecer em condições ou contextos semelhantes (STRAUSS; CORBIN, 2008).