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4. Comportamento vegetativo e produtivo da videira (Vitis

4.2.7. Delineamento Experimental e Análise Estatística

composto por 5 repetições. Cada parcela foi composta por oito plantas dispostas na fila, sendo 2 plantas de bordadura para cada lado e avaliadas as 4 plantas centrais. Os dados foram analisados utilizando o software Statistica versão 6.0, através do teste t de Student, ao nível de 5% de probabilidade de erro. Para a composição das bagas na colheita foi realizada análise de variância e teste de separação de médias de Tukey, ao nível de 5% de probabilidade de erro, conforme descrito em Steel et al. (1997).

4.3. Resultados e Discussão 4.3.1. Variáveis Meteorológicas

Os dados meteorológicos demonstraram variação entre os dois ciclos fenológicos da videira cultivada em São Joaquim, SC. A temperatura média diária, exceto em alguns períodos (final da maturação do ciclo 2006/2007), foi semelhante entre os dois ciclos estudados (Figura 01).

Em setembro a temperatura média se manteve em torno dos 10ºC, alcançando em meados de janeiro cerca de 20ºC e em final de abril caindo para aproximadamente 12ºC. A temperatura mínima e a temperatura máxima seguiram o mesmo padrão, com variação de aproximadamente 5ºC a menos e 5ºC a mais em relação à média. A

amplitude térmica (diferença entre a temperatura máxima e mínima do dia) foi de aproximadamente 10ºC, o que está de acordo com os parâmetros estimados por Brighenti e Tonieto (2004) para esta região. No primeiro ciclo, a temperatura média durante o período de maturação (Cabernet Sauvignon) foi de 15,3ºC, enquanto que em 2006/2007, esta foi de 17,2ºC. Esta tendência observada para os dois ciclos está de acordo com a variação histórica de temperaturas para a região (média histórica de 30 anos) (Rosier et al., 2004).

-5,0 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 1/9 15/9 29/9 13/1 0 27/1 0 10/1 1 24/1 1 8/12 22/12 5/ 1 19/1 2/ 2 16/2 2/ 3 16/3 30/3 13/4 27/4 Perído de avaliação T e m p e ra tu ra m é d ia C ) 2005/2006 2006/2007

Figura 01: Temperatura média diária (ºC) durante o ciclo vegetativo da videira em São Joaquim, SC (01/09 à 30/04), nos ciclos 2005/2006 e 2006/2007. Setas indicam o período aproximado entre os estádios fenológicos. BF: Brotação à Floração; FF: Floração à Frutificação; MC: Maturação à Colheita.

A variação observada para os índices bioclimáticos de Winkler (Soma Térmica) e de Huglin (Heliotérmico) entre os dois ciclos avaliados não apresenta alteração que possa ser considerada significativa. O índice de Winkler (Tabela 01) acumulado durante o ciclo 2005/2006 foi de 1.188 GD (23/09/2005 à 27/04/2006). No ciclo seguinte, a soma térmica durante o ciclo vegetativo foi de 1.323 GD (25/09/2006 à 17/04/2007). O ciclo 2006/2207 teve soma térmica de cerca de 135 GD a mais que o ciclo anterior. Valores de 1.380 GD foram estimados por Falcão (2008) para esta região. Segundo a classificação das regiões vitícolas de Winkler, este vinhedo se encontra nos limites da Região I, apresentando clima frio (<1.371 GD). Estes valores estão abaixo dos índices encontrados para a Serra Gaúcha (1.553 GD) (Mandelli et al., 2004). Valores próximos a 1.400 GD foram observadas em Bordeaux/França, com registro de variação de mais de 100 GD entre os ciclos (Leewuen et al., 2004).

Tabela 01: Precipitação pluviométrica e índices bioclimáticos (Winkler e Huglin) acumulados durante os estádios fenológicos da videira cultivada em São Joaquim, SC, nos ciclos 2005/2006 e 2006/2007.

Precipitação Pluviométrica (mm) Soma Térmica (GD) Índice Heliotérmico (IH) 2005/ 2006 2006/ 2007 2005/ 2006 2006/ 2007 2005/ 2006 2006/ 2007 Brotação à Floração 378,9 304,9 276,6 227,8 450,3 395,8 Floração à Maturação 305,8 322,4 496,1 538,9 713,7 741,4 Maturação à Colheita* 109,7 449,1 415,1 556,0 629,4 755,3 Brotação à Colheita* 794,4 1.076,4 1.187,8 1.322,7 1.793,4 1.892,5 *Valores estimados com base no ciclo fenológico da variedade Cabernet Sauvignon.

O índice de Huglin (Tabela 01) variou de 1.793 à 1.893 para os dois ciclos vegetativos. Estes valores classificam a Região de São Joaquim, segundo o índice heliotérmico, como de clima frio (entre 1.500 e 1.800), como sugerido por Tonietto e Carbonneau (2004). Estes índices diferem a região de São Joaquim das demais áreas de produção de uvas para elaboração de vinhos no Brasil, como descrito por Brighenti e Tonieto (2004), resultando em características diferenciadas dos vinhos, conforme verificado por Miele et al. (2010).

Comparando os dois períodos de desenvolvimento da videira, observou-se que no ciclo 2005/2006, o volume de chuvas a partir de setembro (brotação) até a colheita (final de abril) foi de 794mm e no ciclo posterior, este total acumulado foi de 1.076mm (Tabela 01). A média histórica de precipitação pluviométrica em São Joaquim para este período é de aproximadamente 1.115mm, sendo significativamente inferior durante o ciclo vegetativo 2005/2006.

Entretanto, quando se compara a precipitação pluviométrica durante o período de maturação, os ciclos diferem significativamente entre si (Figura 02) e também em relação à média histórica que é de cerca de 370 mm. No ciclo 2005/2006, o volume total para esse período foi de 147,9mm, sendo que a partir de meados do mês de março foi necessário realizar uma irrigação das plantas (seta indicativa na Figura 02). Já no ciclo seguinte, o excesso de dias chuvosos e o volume acumulado (501,9mm) favoreceram o desenvolvimento de doenças (podridões da uva) que prejudicaram a qualidade da uva.

0 10 20 30 40 50 60 70 1/2 5/2 9/2 13/2 17/2 21/2 25/2 1/3 5/3 9/3 13/3 17/3 21/3 25/3 29/3 2/4 6/4 10/4 14/4 18/4 22/4 26/4 30/4 Período de avaliação P re c ip it a ç ã o ( m m /d ia ) 0 100 200 300 400 500 P re c ip it a ç ã o a c u m u la d a ( m m ) 2005/2006 2006/2007

Figura 02: Volume de precipitação diária e acumulada durante o período de maturação das bagas da videira em São Joaquim, SC, nos ciclos 2005/2006 e 2006/2007. Seta indica data de irrigação do vinhedo durante o ciclo 2005/2006 (20/03/2006).

No ciclo 2005/2006, em 89 dias de avaliação, ocorreram 31 dias de chuvas, sendo que em apenas 6 dias a precipitação pluviométrica foi superior a 5 mm. O volume máximo em 24 horas foi de 23,4 mm, em 07 de abril de 2006. Já durante o ciclo 2006/2007, no mesmo período, foi observada chuva em 46 dias (Figura 02). Em 14 dias, a precipitação pluviométrica foi superior a 10 mm, ocorrendo o volume máximo de 63,7 mm em 03 de março de 2007. Durante o período de maturação do ciclo 2005/2006, o volume foi equivalente a 1,7 mm de chuva por dia, enquanto que no ciclo 2006/2007, este índice foi de 6,3mm de chuva por dia. O segundo ciclo de produção (2006/2007) diferiu das observações feitas por outros autores em anos anteriores para a mesma região (Rosier et al., 2004; Martins, 2006; Falcão et al., 2008), que observaram menores índices pluviométricos durante os meses de maturação da uva (fevereiro à abril), refletindo também em melhor qualidade da uva.

Na Serra Gaúcha, região mais importante da vitivinicultura brasileira, a uva é colhida em estágio menos avançado de maturação em algumas safras, principalmente devido ao excesso de precipitação, o que favorece o desenvolvimento de doenças fúngicas nos cachos (Rizzon e Miele, 2002; Rizzon e Miele, 2003). Historicamente, esta variável climática não tem afetado negativamente a maturação da uva em São Joaquim/SC, possibilitando prolongar o período de maturação e assim obter uvas de elevada qualidade (Rosier et al., 2004; Martins, 2006; Falcão et al., 2008).

4.3.2. Fenologia

Os estádios fenológicos das três variedades, durante os dois ciclos vegetativos, são apresentados na Figura 03. Para todas as variedades, a brotação ocorreu em aproximadamente uma semana após a data da poda. A variedade Sauvignon Blanc foi mais precoce com aproximadamente 175 dias entre a brotação e a colheita. Já a variedade Merlot foi intermediária, com um ciclo em torno de 200 dias para a colheita. A variedade mais tardia foi a Cabernet Sauvignon, com até 215 dias no ciclo 2006/2007 (Figura 03). O período entre a poda e a colheita para a Sauvignon Blanc, a Merlot e para Cabernet Sauvignon foram, em média, de 180, 205 e 220 dias, respectivamente.

O ciclo de desenvolvimento vegetativo iniciou com a brotação (segunda quinzena de setembro) e encerrou com a parada do crescimento dos ramos observada na segunda quinzena do mês de fevereiro (início da maturação das bagas). A partir deste período, os ramos iniciaram a lignificação, o ápice dos ramos e as brotações laterais cessaram o crescimento e as folhas iniciaram a senescência (observação visual). Este comportamento foi descrito por Hunter e Visser (1990) e Cloete et al. (2006) que afirmaram que a redução do desenvolvimento dos ramos durante o início da maturação favoreceu a acumulação de compostos nas bagas, o que melhorou a qualidade da uva.

Figura 03: Estádios fenológicos da videira em São Joaquim, durante os ciclos vegetativos 2005/2006 e 2006/2007.

O ciclo fenológico da variedade Cabernet Sauvignon nos dois anos de experimento foi semelhante, com redução em cerca de 10 dias em 2005/2006. Para a Merlot, essa variação seguiu o mesmo padrão, enquanto que para a Sauvignon Blanc, os ciclos 2005/2006 e 2006/2007 foram semelhantes (Figura 03). A poda ocorreu em meados do mês de 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 110 120 130 140 150 160 170 180 190 200 210 220 2006/2007 2005/2006 2006/2007 2005/2006 2006/2007 2005/2006 C a b e rn e t S a u v ig n o n M e rl o t S a u v ig n o n B la n c

Número de dias após a brotação

Brotação Floração/Frutificação Maturação Set. I Out. I Nov. I Dez. I Jan. I Fev. I Mar. I Abr.

setembro, com floração em final de novembro. O período de maturação iniciado após a mudança da cor e alteração na consistência das bagas (véraison) foi observado no início do mês de fevereiro, aproximadamente aos 70 dias após a plena floração.

A colheita da Sauvignon Blanc ocorreu em meados de março, aos 106 e 114 dias após a plena floração (DAF) nos ciclos 2005/2006 e 2006/2007, respectivamente. A variedade Merlot foi colhida aos 140 e 133 dias após a plena floração, ocorrendo na primeira semana de abril com período de maturação de 49 e 63 dias. A colheita da Cabernet Sauvignon foi realizada na segunda quinzena do mês de abril, cerca de 150 DAF, após 10 e 11 semanas do início da maturação para os ciclos 2005/2006 e 2006/2007, respectivamente. A queda completa das folhas foi observada para todas as variedades na primeira semana do mês de junho em ambos os ciclos, cerca de 9 meses após a brotação.

O ciclo fenológico da videira na região de São Joaquim é mais tardio em relação às demais regiões vitícolas brasileiras. Nos estudos de Rizzon e Miele (2002 e 2003), Mandelli et al. (2004) e Mota et al. (2008), estes autores observaram ciclo médio de 150-160 dias para Merlot e Cabernet Sauvignon, cultivada em Bento Gonçalves, RS. Estes resultados corroboram as observações feitas por Martins (2006) que avaliou diversas variedades cultivadas em São Joaquim, estando de acordo com as descrições de Muñoz et al. (2002) para Cabernet Sauvignon cultivada no Chile. Estes resultados também estão de acordo com as observações de Jones e Davies (2000) em Bordeaux, ao relatarem ciclo de aproximadamente 200 dias para as variedades Merlor e Cabernet Sauvignon. Em outro estudo, Leeuwen et al. (2004), descrevem que o ciclo destas duas variedades para esta região francesa de produção foi de cerca de 175 dias. Em outros países do Hemisfério Sul, as plantas apresentaram ciclos fenológicos de 160 dias para a Sauvignon Blanc, na África do Sul (Conradie et al., 2002). Para a variedade Merlot cultivada na Nova Zelândia, Fried e Trougth (2008) observaram ciclo mais longo, com período de colheita entre o final de abril e início de maio.

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